Encanto que Embriaga

Estaria a arte sonora realmente apta a comunicar um sentido? Em que consistiria a expressividade de uma composição musical? Ao apresentar um modo singular de atuar sobre o ouvinte e de transmitir seu sentido, a música torna-se, com frequência, alvo de suspeita para uma cultura guiada pelo lógos demonstrativo e por uma “razão viril”. Contudo, estaria a arte sonora realmente apta a comunicar um sentido? … Continuar lendo Encanto que Embriaga

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O Texto da Canção

Poeta-trovador de indiscutível qualidade literária, Carlos Rennó reúne sua produção em um livro para ser cantado. Lenine, Gilberto Gil, Tetê Espíndola, Arrigo Barnabé, Rincon Sapiência, Chico César, Paulinho Moska, Luiz Tatit são apenas alguns dos inúmeros parceiros que musicaram o cancioneiro poético de Carlos Rennó, figura proeminente na cena da vanguarda musical brasileira. Dono de raro talento lírico, o autor-trovador oferece ao público leitor letras-poesias … Continuar lendo O Texto da Canção

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Bandido Funkeiro, Maestro Nazista

Thiago Alves de Souza Muito se fala da associação entre o crime e o funk brasileiro. Um gênero musical aliado a uma atividade de transgressão moral e ética. Quem ousaria defender o funk, com suas letras e batidas agressivas, quando da acusação de sua associação ao tráfico e ao crime de modo geral? Para aqueles que acham que fazer um funk com conteúdo explícito é … Continuar lendo Bandido Funkeiro, Maestro Nazista

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Um Homem, uma Mulher e a Bossa Nova

Gilberto Mendes* Foi preciso um francês, Claude Lelouch, para imortalizar no cinema uma coisa que é nossa: a atitude desprendida, “nobre e sentimen­tal”, a simplicidade no viver a grandeza da vida cotidiana, a fidelidade ao maior amor “que não seja imor­tal posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”. O sentimento drumondiano do mundo, o homem e a vida em primeiro lugar são … Continuar lendo Um Homem, uma Mulher e a Bossa Nova

Huxley Crítico Musical

por João Marcos Coelho * O mundo conhece o escritor britânico Aldous Huxley (1894-1963) como o autor da maior distopia do século xx, Admirável Mundo Novo (1932), e ao mesmo tempo ícone da geração beatnik com seus livros As Portas da Percepção (1954) e Céu e Inferno (1956) sobre os efeitos da mescalina. Fala-se muito de sua amizade com o compositor Igor Stravínski e também … Continuar lendo Huxley Crítico Musical

Despede-se a Vanguarda

Os anos tendem à crueldade. Pelos últimos deixamos nomes de peso e o cenário cultural de vanguarda se vê cada vez mais leve e pálido. 2016, com menos de duas semanas de idade, já se mostrou tão frio e impiedoso quanto seus antecessores, e reúne pelo caminho os grandes mestres da geração de 1920. Entre cinco dias de fôlego, nos despedimos de dois dos maiores nomes … Continuar lendo Despede-se a Vanguarda

A Música e o Crime

Quando a política se apropria da arte, utiliza o apuro técnico de uma orquestra e a tradição musical de um povo para comprovar “cientificamente” sua supremacia racial

 

A Mais Alemã das Artes
A Mais Alemã das Artes

Devastada e humilhada após a Primeira Guerra Mundial, a Alemanha elege um governo nacionalista que rapidamente, mas com sólido apoio popular, destrói sua frágil democracia e instaura um regime de implacável perseguição a minorias e adversários políticos. O III Reich nasce fazendo a apologia da raça ariana pura e usa o protagonismo cultural do país na história como elemento-chave para reerguer o devastado orgulho nacional e estimular o ódio racial, manipulando as realizações de grandes autores e criadores alemães, com interpretações para lá de duvidosas.
A música, e a mítica Orquestra Filarmônica de Berlim em particular, cumpre uma série de incumbências relacionadas ao conceito de identidade nacional, servindo como instrumento conveniente e aproveitável para a ascensão do horror nazista. É esta a história de A Mais Alemã das Artes.

 

Alicerçados por um componente central do orgulho alemão, estudiosos voltaram-se à música como peça integrante de seu conjunto identitário, mas mais do que isso, como uma fonte de entretenimento e distração da qual todos os alemães poderiam desfrutar, uma atividade saudosa de tempos mais certos, nos quais a Alemanha garantia sua superioridade intelectual através da música. Assim, a musicologia, enquanto ciência e didática, percorreu um trajeto bastante particular neste contexto histórico mais particular ainda.

Em A Mais Alemã das Artes: Musicologia e Sociedade da República de Weimar ao Fim da Era Nazista, Pamela M. Potter pretende explorar a relação de causa e efeito que a música alemã partilha com o contexto de conflito mundial, estudando, portanto, a ascensão da musicologia na Alemanha do pós, entre e durante guerras. Para além disso, é possível, ainda, divisar práticas políticas correntes, com formas de atuação muito semelhantes às do regime nazista em relação à orquestra, e que ainda perduram na constituição de grandes projetos culturais e esportivos.

 

Em 1878, Richard Wagner proclamou que a essência alemã encontrava-se na música. Sessenta anos depois, em 1938, na abertura do maior encontro musical do Terceiro Reich, o ministro da propaganda, Joseph Goebbels, reafirmou, frente à multidão, que a música era a arte mais gloriosa do patrimônio cultural alemão. Até hoje, o mito da Alemanha como a “pátria da música” toma o mundo. O catecismo da música clássica requer familiaridade com os três “B’s” – Bach, Beethoven, Brahms, todos alemães; as salas de concerto perpetuam os nomes dos grandes mestres alemães em seus repertórios; a história da música, basicamente, é ensinada como uma progressão rumo à autorrealização alemã; e até hoje, Alemanha e Áustria continuam a atrair estudantes e experts em música, da mesma forma que os governos desses países não param de investir na preservação de suas
impressivas instituições musicais, bem como em eventos e projetos na área musical. A percepção popular da música ocidental assume que os alemães sempre estiveram no centro do enriquecimento da arte musical.

 

 

A AUTORA:

Pamela M. Potter é professora de musicologia na Universidade de Wisconsin-Madison e diretora do Centro de Estudos Alemães e Europeus. Sua pesquisa concentra-se na relação entre as artes e as condições ideologias, políticas, sociais e econômicas, do século XX. Além de A Mais Alemã das Artes, Potter também escreveu Music and German National Identity e Art of Suppression: Confronting the Nazi Past in Histories of the Visual and Performing Arts, obras que também suscitam questões acerca da cultura nazista e suas estéticas.

 Pamela Potter
Pamela Potter

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