Weimar: Um Prelúdio

Rafael Rocca Em um texto anterior, falamos das consequências imediatas da supressão da democracia para o povo judeu, principalmente, na Alemanha e na Polônia ocupadas pelas hordas assassinas dos soldados de Hitler. Tomando como exemplo Janusz Korczak, e fazendo dele um merecido símbolo, demos voz à leitura de seu diário e dali extraímos notas sobre o cotidiano de violência e as consequências funestas para si, … Continuar lendo Weimar: Um Prelúdio

Anatol, o construtor

Julia Izumino Qual o papel de um crítico? Seus deveres, responsabilidades, objetivos a cumprir? O que o diferencia de um intelectual? Porque nem todo pensador constrói críticas, isso sabemos, por mais que todo pensamento emita um valor. Criticar e valorar, portanto, são movimentos diferentes. Não excludentes. Às vezes complementares. E o que faz de alguém um bom crítico? Como julgamos aquele que cria categorias de … Continuar lendo Anatol, o construtor

Um Presente Contra o Esquecimento

Julia  Izumino [Um estrondo] Um estrondo: a própria verdade surgiu entre os homens em pleno turbilhão de metáforas. Paul Celan (1967)[1]   Na Hora Zero, a Alemanha, já quase em colapso, foi forçada a render todas as suas forças bélicas e a declarar sua derrota na Segunda Guerra Mundial. Quando o relógio bateu meia-noite no dia 9 de maio de 1945, pessoas foram às ruas … Continuar lendo Um Presente Contra o Esquecimento

Com a Tinta Vermelha de Dor

No imaginário fragmentado de uma personagem narradora, os estilhaços se alinham para restituir, pouco a pouco, algo que lhe foi furtado pelo regime nazista.   Romance-documentário de Mireille Abramovici retoma um tema explorado pela literatura contemporânea: o holocausto. Alguns leitores podem achar que esta é uma pauta em vias do esgotamento, mas Abramovici, em Com Tinta Vermelha, prova que questões como esta dificilmente perdem interesse. Neste relato investigativo, as memórias … Continuar lendo Com a Tinta Vermelha de Dor

A Música e o Crime

Quando a política se apropria da arte, utiliza o apuro técnico de uma orquestra e a tradição musical de um povo para comprovar “cientificamente” sua supremacia racial

 

A Mais Alemã das Artes
A Mais Alemã das Artes

Devastada e humilhada após a Primeira Guerra Mundial, a Alemanha elege um governo nacionalista que rapidamente, mas com sólido apoio popular, destrói sua frágil democracia e instaura um regime de implacável perseguição a minorias e adversários políticos. O III Reich nasce fazendo a apologia da raça ariana pura e usa o protagonismo cultural do país na história como elemento-chave para reerguer o devastado orgulho nacional e estimular o ódio racial, manipulando as realizações de grandes autores e criadores alemães, com interpretações para lá de duvidosas.
A música, e a mítica Orquestra Filarmônica de Berlim em particular, cumpre uma série de incumbências relacionadas ao conceito de identidade nacional, servindo como instrumento conveniente e aproveitável para a ascensão do horror nazista. É esta a história de A Mais Alemã das Artes.

 

Alicerçados por um componente central do orgulho alemão, estudiosos voltaram-se à música como peça integrante de seu conjunto identitário, mas mais do que isso, como uma fonte de entretenimento e distração da qual todos os alemães poderiam desfrutar, uma atividade saudosa de tempos mais certos, nos quais a Alemanha garantia sua superioridade intelectual através da música. Assim, a musicologia, enquanto ciência e didática, percorreu um trajeto bastante particular neste contexto histórico mais particular ainda.

Em A Mais Alemã das Artes: Musicologia e Sociedade da República de Weimar ao Fim da Era Nazista, Pamela M. Potter pretende explorar a relação de causa e efeito que a música alemã partilha com o contexto de conflito mundial, estudando, portanto, a ascensão da musicologia na Alemanha do pós, entre e durante guerras. Para além disso, é possível, ainda, divisar práticas políticas correntes, com formas de atuação muito semelhantes às do regime nazista em relação à orquestra, e que ainda perduram na constituição de grandes projetos culturais e esportivos.

 

Em 1878, Richard Wagner proclamou que a essência alemã encontrava-se na música. Sessenta anos depois, em 1938, na abertura do maior encontro musical do Terceiro Reich, o ministro da propaganda, Joseph Goebbels, reafirmou, frente à multidão, que a música era a arte mais gloriosa do patrimônio cultural alemão. Até hoje, o mito da Alemanha como a “pátria da música” toma o mundo. O catecismo da música clássica requer familiaridade com os três “B’s” – Bach, Beethoven, Brahms, todos alemães; as salas de concerto perpetuam os nomes dos grandes mestres alemães em seus repertórios; a história da música, basicamente, é ensinada como uma progressão rumo à autorrealização alemã; e até hoje, Alemanha e Áustria continuam a atrair estudantes e experts em música, da mesma forma que os governos desses países não param de investir na preservação de suas
impressivas instituições musicais, bem como em eventos e projetos na área musical. A percepção popular da música ocidental assume que os alemães sempre estiveram no centro do enriquecimento da arte musical.

 

 

A AUTORA:

Pamela M. Potter é professora de musicologia na Universidade de Wisconsin-Madison e diretora do Centro de Estudos Alemães e Europeus. Sua pesquisa concentra-se na relação entre as artes e as condições ideologias, políticas, sociais e econômicas, do século XX. Além de A Mais Alemã das Artes, Potter também escreveu Music and German National Identity e Art of Suppression: Confronting the Nazi Past in Histories of the Visual and Performing Arts, obras que também suscitam questões acerca da cultura nazista e suas estéticas.

 Pamela Potter
Pamela Potter

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Temidos 70

Aos otimistas de plantão, aqueles que contam com a calmaria de um novo ano, é hora de ficar desassossegado. O fim de 2015 marca os 70 anos da morte de Hitler, e com isso, sua polêmica e tão temida obra Mein Kampf cai em domínio público.

 

O que isso significa?

Já há alguns anos um grupo de pesquisadores do Instituto de História Contemporânea de Munique vem trabalhando em uma nova versão do livro, um estudo que pretende tratar a chamada “bíblia do antissemitismo” como um documento histórico, que merece ser revisto e comentado. A obra contará com 3500 notas e comentários e chega a quase duas mil páginas. O dia 1 de janeiro de 2016 já conta com este estrondo nas livrarias, porém com um número controlado de exemplares, que não deve passar de quatro mil, sem a certeza de uma segunda tiragem.

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Mein quempf???

Mein Kampf (em português, Minha Luta) foi escrito oito anos antes da chegada de Hitler ao poder e traz uma compilação de ideias que o ditador julgava necessárias e apropriadas para o restabelecimento da Alemanha enquanto potência. O cunho nazista e devastador do livro é inegável, e durante 70 anos o Estado da Baviera proibiu e restringiu o acesso a ele, tanto quanto foi possível.

Durante os tempos áureos do nazismo, o livro passou a ser um item básico de coleção, chegando a quatro milhões de exemplares vendidos. Inegavelmente um grande best-seller, era considerado um excelente presente para toda e qualquer ocasião. Sabemos que recém-casados e crianças ganhavam exemplares do livro, como se fosse tão bom presente quanto CDs e meias.

Mas logo os números mudam de figura. Durante os 70 anos em que esteve sob domínio da Braviera, o livro só esteve acessível via meios outros, como por exemplo, a internet, sebos, lojas de antiguidade, e é claro, o mercado negro.

 

O debate é irrecusável.

A discussão acerca da publicação do livro pode ser vista por diversos ângulos, mas o alcance da internet é um dos pontos em debate. Os pesquisadores do Instituto de História Contemporânea de Munique argumentam que a publicação comentada de Mein Kampf procura cercar o pensamento de Hitler por todos os lados, cerceando ideias totalitárias que devem ser combatidas.

Por outro lado, judeus e autoridades acreditam que a discussão já não se faz necessária. Tendo em vista o peso histórico e a tragicidade da Shoá, a divulgação do livro pode ser entendida como um enorme desrespeito às vítimas da guerra, além de um grande incitador ao ódio, não devendo nunca chegar às mãos de quem quer que seja. A autorização da leitura de uma obra como essa pode resultar no incentivo ao pensamento nazista, tanto para conhecimento e uso histórico quanto para discursos de ódio, nacionalismo e totalitarismo.

Outros argumentam ainda que o livro deva ser disponibilizado, porém somente no ambiente virtual, de forma a evitar a fetichização da obra e garantir que não encontraremos filas de compradores nas livrarias.

Resta a questão: publicar é cercear ou incentivar?

O estudo de uma obra tão nefasta pode gerar lucros intelectuais e históricos? Os pensamentos de Hitler devem ser tidos como uma relíquia de uma das maiores tragédias da história, ou será que devemos encará-la como um monstro a ser guardado a sete chaves, temendo novos descaminhos? Até onde chega a liberdade de expressão, e como evitar que ela seja usada como instrumento de ataque?

Discussões como esta figuram no contexto atual como parte de um todo muito maior, mas por fim, 70 anos após o término do conflito mundial, a questão que realmente está em pauta é: o contexto político global de 2016 aceitará a publicação de Mein Kampf, ou não existe tempo o suficiente que nos capacite e fortaleça para que este torne-se um campo seguro?

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A Editora

Em seus primórdios, a Editora Perspectiva veio ao mundo com a coleção Judaica, que pretendia abordar, tanto em ficção como em pensamento, a produção milenar da existência do povo judeu.  Nosso catálogo é, mesmo com 50 anos nas costas, exclusivamente fiel ao debate de ideias e aberto ao futuro, tendo como um de seus ramos principais o judaísmo como cultura.

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