Weimar: Um Prelúdio

Rafael Rocca

Em um texto anterior, falamos das consequências imediatas da supressão da democracia para o povo judeu, principalmente, na Alemanha e na Polônia ocupadas pelas hordas assassinas dos soldados de Hitler. Tomando como exemplo Janusz Korczak, e fazendo dele um merecido símbolo, demos voz à leitura de seu diário e dali extraímos notas sobre o cotidiano de violência e as consequências funestas para si, para seu grupo de crianças e para todo um povo. As possivelmente eternas perguntas ainda permanecem tanto entre interessados quanto entre estudiosos, apesar da imensa bibliografia dedicada a elas: como pôde acontecer? Quais foram as bases para sustentar a condução do assassínio industrial? Qual foi seu progresso (e acentuo a ironia dessa palavra) até culminar nas “fábricas de cadáveres” (expressão de Hannah Arendt) que foram os campos de concentração e de extermínio e os guetos em centenas de cidades pela Europa Ocidental e Central?

A busca pela resposta a essas perguntas pode resultar em angústia diante da dificuldade de abarcar racionalmente, dentro de nossos parâmetros atuais, o desenrolar dos atos que levaram à concretização do mais específico crime da História. Um bom caminho para começar a entender a cadeia de eventos que levaram àquele crime é iniciar o estudo no período pós-primeira guerra mundial na Alemanha recém-republicana instalada em Weimar.

Para tanto, um livro editado já há algum tempo por esta Perspectiva pode ser uma fagulha ao entendimento do que foram as bases para o Terceiro Reich e dos fatores que o promoveram e o instalaram no poder em 30 de janeiro de 1933. Claude Klein, atualmente professor de Direito Público na Universidade Hebraica de Jerusalém, escreveu uma pequena obra em que conjuga os aspectos sociais, econômicos e jurídicos presentes no nascimento da curta república alemã em 1919 e sua derrocada fatal em 1933. O livro chama-se Weimar e foi publicado originalmente em 1968 na França e em 1995 em tradução brasileira de Geraldo Gerson de Souza.Weimar (K18)

Klein traça o panorama de uma Alemanha arrasada pela recém-terminada guerra mundial (guerra cujo desfecho completou cem anos neste novembro de 2018): crise econômica com inflações avassaladoras, uma sociedade tendo de lidar com os milhões de mortos nos campos de batalha e lutas entre a esquerda impulsionada pelo sucesso da Revolução Russa de 1917 e a direita religiosa e liberal que se firmava como uma das opções para o futuro da jovem Alemanha unificada. Em um segundo plano, porém não menos importante na tessitura dos acontecimentos do ano de 1919, a relação entre civis e militares havia se deteriorado a ponto de haver uma desconfiança entre ambos. Os militares acusavam os socialistas, em especial, por terem abandonado as posições do front em nome de uma paz que significaria, segundo sua visão, uma derrota moral para as forças alemãs (na literatura, esse embate se daria entre um grupo belicoso – como o fora o primeiro Ernst Jünger – e os pacifistas, que denunciavam os horrores da guerra – como o fora Erich Maria Remarque).

Revoluções e lutas civis armadas marcaram o fim de 1918 até a assinatura da primeira Constituição alemã na cidade de Weimar em 11 de novembro de 1919. Espartaquistas, Freikorps (milícias livres) e outros grupos digladiavam-se nas ruas, resultando em centenas de mortos. Os primeiros, socialistas na Baviera, inspirados no novo regime russo, lutavam contra os veteranos da primeira guerra mundial, em sua maioria ex-militares e desempregados. O Tratado de Versalhes, considerado por muitos civis alemães como uma imposição rigorosa demais e pelos nacionalistas alemães como uma humilhação levada a cabo pelos “vermelhos” traidores e pelos judeus, incendiou a recém-formada república. No entanto, como mostra o autor (p. 35), a disposição da sociedade alemã para uma república não era intensa, e os embates entre os grupos políticos e suas respectivas massas continuaram até 1923. Neste ano, uma nova crise inflacionária se instala e faz a população questionar a segurança de um sistema político muito pouco praticado até então no país. É nesse ano, igualmente, que Hitler começa a ganhar proeminência como uma das vozes da direita nacionalista e ganha ampla projeção na tentativa de golpe fracassada em novembro de 1923 em Munique, ocasião em que é preso.

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Claude Klein mostra que, em 1923, a república alemã não conseguiu sustentar as múltiplas crises que vinham abalando seus já fracos fundamentos. Movimentos separatistas, inflação, ocupações do vale do rio Ruhr e lutas entre a direita e a esquerda agitam o ambiente político. Eles são impulsionados por uma crise econômica que se aprofunda naquele ano.

No entanto, durante o período seguinte, de 1923 a 1929, a economia conseguiu ter uma relativa estabilização e a agitação política arrefeceu perante uma nova situação geral. A política externa, levada principalmente por Gustav Stresemann, chanceler e posteriormente ministro das relações exteriores, conheceu uma época de conquistas, o que permitiu, internamente, relativa estabilização da situação.

Caminhando em direção aos anos 1930, surge uma crescente insatisfação com a política predominante praticada no regime republicano. A direita reaparece na figura de nacionalistas de toda espécie, acompanhada de um anti-intelectualismo de base (ainda que as artes em geral tenham tido um grande desenvolvimento nesses anos) que se relacionava a um sentimento antidemocrático que crescia pouco a pouco.

 

Nesse caldeirão, Hitler se adequava perfeitamente a esses sentimentos. Crises internas na chancelaria do Reich, que vinha acumulando chanceleres empossados, destituídos e substituídos, fizeram com que Hitler fosse apoiado como um representante de uma parte do povo (o partido nazista não obtivera resultados significativos nas eleições populares) e nomeado como chanceler. O desenvolvimento dessa nomeação, como se sabe, seria desastroso para a Europa, para os judeus em específico e, sem incorrer em exageros, para o mundo, já que suas ideias, apesar de revelados os crimes cometidos sob seu chicote de aço, continuam a sofrer metástase nas mentes menos conscientes ao redor do mundo.

Um dos trunfos do livro de Claude Klein é apresentar, em sua segunda parte, a transcrição de fontes para a compreensão do período abrangido pelo texto. Dados de anuários estatísticos, fragmentos do Tratado de Versalhes e da Constituição Alemã de 1919, trechos de manifestos de partidos e recortes com reações da imprensa aos acontecimentos dos anos entre 1918 e 1933 permitem compreender melhor o caos, termo usado pelo autor, que levou à ascensão fatal da extrema-direita ao poder.

Como dito no início, as consequências desse desenrolar de acontecimentos já foram exemplificadas pelo texto anterior. O próximo texto saltará algumas décadas após a segunda guerra mundial e lidará com a forma como a memória desses eventos se instalou na cultura mundial, abordando o aspecto traumático da experiência concentracionária e o legado de destruição total operado pelas forças atuantes nessa guerra.

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