A Filosofia Crítica de Foucault

por Lucas Bento Pugliesi

Desde de que Kant, na Crítica da Razão Pura, sepultou a exterioridade de nossa mente, relegando-a ao campo do conhecimento especulativo, a questão maior da filosofia se deslocou, talvez, do questionamento acerca da natureza das coisas – a pergunta socrática por excelência –, para uma reflexão sobre o que podemos conhecer e, em última instância, como podemos enunciar este conhecimento.

        A filosofia crítica inaugurada por Kant, isto é, aquela que reflete sobre os limites do conhecimento, é um dos saldos inescapáveis da condição moderna, insuflando angústias em quase todos os pensadores que o sucederam. Possivelmente, encontram-se aí as bases da problemática central da obra de Michel Foucault. Mais do que a preocupação em investigar o estatuto de verdade dos discursos, Foucault parece elaborar uma crítica, na acepção kantiana, dos sentidos. Qual seriam as condicionantes não explícitas que possibilitam um enunciado? Ou, quais são as regras não ditas que possibilitam/limitam aquilo que é dito?

        Como para Kant, em Foucault a possibilidade de exterioridade se ausenta. Não conhecemos as coisas em si. Nosso acesso ao real é mediado por nossa mente. Só é possível conhecer das coisas aquilo que nelas colocamos. E assim como em Kant, esse processo se dá a despeito de nossa consciência. Isso implica dizer que nossa mente operaria sob um nível mais fundamental de razão, universal, que seria responsável por garantir a legibilidade do mundo. Ao filósofo alemão, essa base elementar diz respeito a condicionantes muito simples: o espaço, o tempo, a causalidade, a quantidade etc. Esses parâmetros mediariam nosso contato com os objetos, garantindo sua aparência para nós. Seu salto é afirmar que o que está para além dessas aparências é incognoscível. Do mesmo modo, expandindo a ótica kantiana, Foucault observa o que há de não voluntário em nossas acepções sobre os objetos. Ao entrarmos no mundo simbólico, nos seria incutido um conjunto de possibilidades discursivas, estabelecidas historicamente por aquilo que o filósofo francês chama de “dispositivos de poder”, que seriam em certa medida inescapáveis. Essas condicionantes, historicizadas pelo autor da História da Loucura, mediariam também, em uma segunda instância, nosso contato com os objetos.

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A mudança de tom que separa os dois pensadores diz respeito a um desdobramento da pergunta “do que podemos conhecer?” para “o que viemos conhecendo?”. Nesse sentido, seria lógico pensar que a condicionante kantiana mais relevante para Foucault seria a categoria do “tempo”. Ou seja, seria o tempo que faria permanecer estruturas simbólicas que regulariam o discurso e o modo como acessamos o mundo. O tempo estaria pressuposto no próprio léxico utilizado por Foucault para nomear seu método, a “arqueologia”. Arqueologia, evidentemente, não no sentido estrito, mas no etimológico. O logos, discurso, sobre a arkhé, os começos. O estudo sobre o começo de uma discursividade.

        Esse é o gesto que permeia sua reflexão em A História da Loucura, por exemplo. Sua crítica não incide sobre o conceito da “loucura”, mas visa analisar os regimes históricos em suas múltiplas proposições latentes da silhueta do “louco”. Em termos práticos, quando o louco passou a ser percebido enquanto tal e como. Quais as diferentes condicionantes da percepção da loucura, enquanto esta se apresenta (aparece) para nós.

        Entretanto, como propõe Tomás Prado em Foucault e a Linguagem do Espaço, talvez o problema central do autor seja não o tempo, mas a espacialidade. Mais do que um pensamento histórico em profundidade que traceja continuidades no modo de ler os eventos, Foucault pensaria nos discursos enquanto um campo, um mapa topográfico com seus limites bem definidos. Como se, subjacente aos discursos, existisse uma sorte de cenário no qual os mesmos podem se dar. Nesse sentido, seu método o aproximaria mais da arqueologia estrito senso. Foucault e a linguagem do espaco_E357

        O arqueólogo, ao se deparar com um pedaço de cerâmica, provavelmente não se preocupará, em um primeiro momento, em inserir aquele fragmento na história da cerâmica, pensando a transformação das formas e técnicas ceramistas. Mas ao contrário, pensará espacialmente, recompondo, a partir do fragmento, o possível todo ao qual ele pertenceu. Remontando, como um mosaico, a estrutura do objeto de cerâmica (perdido, inexistente) da qual aquele fragmento fez parte.

        A arqueologia de Foucault, a partir dos fragmentos de discurso, visaria remontar esse mapa topográfico da discursividade, recolocar o fragmento de cerâmica na estrutura de onde se desprendeu. Método, portanto, fadado à especulação e  à incompletude. Assim, como propõe Tomás Prado, o procedimento foucaultiano diria respeito a encontrar entre diversos fragmentos uma lógica espacial de semelhanças. Encontrar entre diversos discursos os índices que os uniriam a um mesmo espaço. Mais preocupado do que em ler a conceituação abstrata da filosofia, Foucault se voltaria às analogias possíveis, ao espelhamento constante, que dá legibilidade tanto ao enunciado do filósofo quanto ao do leigo. Sua arqueologia da loucura, para permanecer no mesmo exemplo, não se preocupará exclusivamente com os tratados especializados da medicina, mas na lógica de semelhanças entre tais tratados e as práticas das pessoas comuns no que tange o tratamento do louco. O que há entre esses aparentes extremos que permite sua coligação em um mesmo espaço.

        Seu método mostra-se então indutivo. A partir de uma análise extensiva de um corpus vasto de dizeres e ditos, recompor – ainda que assumindo a radical incompletude – os limites daquilo que é possível ou não dizer.

        Também por uma lógica de semelhanças, o que parece unir Foucault a Kant é uma certa tomada de consciência que colocará como baliza para qualquer investigação sobre o saber, a ideia de uma crítica. Preocupada antes de tudo com as condições de um espaço discursivo mínimo, sem o qual, verdade alguma pode se dar.


Imagem em destaque: Suprematist Composition – Airplane Flying. Kazimir Malevich

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