A Sombra de Outubro: A Revolução Russa e o Espectro dos Sovietes

Outubro de 1917, Esse “Pesadelo Oprimindo o Cérebro dos Vivos”
Prólogo à edição brasileira de A Sombra de Outubro

No início de O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, Marx observa que “a tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos”. Os homens desempenham seu novo papel histórico tomando emprestado de antepassados ilustres os trajes e a linguagem, em vez de confrontar lucidamente as tarefas que seu tempo lhes prescreve. Dessa “conspiração histórica dos Mortos” ele dá vários exemplos: Lutero “envergou a máscara do apóstolo Paulo”; os homens da Revolução Francesa tomaram de empréstimo o traje e as frases da Roma antiga, enquanto os da Revolução de 1848 “não sabiam fazer nada além de parodiar” 1789 ou 1793. Podemos acrescentar, no espírito das observações feitas por Marx em 1871, os da Comuna de Paris, notadamente a maioria jacobina em favor de um Comitê de Segurança Pública, ainda em grande parte prisioneira da “grande memória” de 1792-1793. No entanto, diz Marx, se os homens da Revolução Francesa estavam à altura do presente, os de 1848-1851 deixaram o campo livre para o “espectro” da revolução, em vez de encontrar o “espírito”. Por isso foram incapazes de realizar a tarefa que o seu próprio tempo lhes atribuiu. O que faz toda a diferença é, portanto, a relação prática com a “tarefa do momento”. Contudo, é precisamente o lugar que continua a ocupar outubro de 1917 no imaginário de boa parte da esquerda hoje que constitui um obstáculo ao entendimento do presente. Ao longo de todo o século XX, aqueles que se autodenominaram “revolucionários” continuaram tomando emprestado os trajes e a linguagem passados, a ponto de repetir a peça de outubro no palco da história. É com toda uma ideia de revolução que precisamos romper de uma vez por todas, não para abandoná-la, mas, ao contrário, para pensar de forma renovada o que é uma “revolução” a fim de confrontar lucidamente as exigências do nosso presente. 

O QUE É UMA REVOLUÇÃO?
O que queremos dizer quando falamos sobre a “Revolução Russa de 1917”? A historiografia soviética teve o prazer de glorificar a “Grande Revolução de Outubro”, que teria conseguido o que a de fevereiro, reduzida na melhor das hipóteses à posição de episódio preparatório, fora impotente para alcançar. É certo que fevereiro e outubro eram “insurreições”, mas, seguindo essa tradição, não o foram da mesma maneira. Fevereiro seria uma revolução política ou uma simples mudança de governo que teria afetado a “superestrutura” da sociedade, ao passo que Outubro fora uma revolução social, uma mudança na sociedade, estabelecendo novas relações de produção e propriedade. Essa interpretação prevaleceu amplamente na esquerda durante todo o século XX, mesmo na crítica trotskista do estalinismo. Daniel Bensaid afirma que o levante de outubro 1917 representa “o culminar e o resultado provisório de um confronto que amadurecera ao longo de todo o ano”, mas quando se trata de dar ideia do que foi a revolução enquanto “impulso transformador vindo de baixo”, não lhe ocorre nada de melhor do que tomar de Marc Ferro exemplos relacionados à revolta popular de fevereiro O que ocorreu realmente? Tudo depende do significado do termo “revolução”. Por isso podemos entender uma ação de curto prazo emanada da própria sociedade, por meio da qual a sociedade se autoinstitui. Castoriadis nos oferece uma definição notavelmente clara nesse sentido: “A melhor definição que podemos dar de uma revolução nos tempos modernos seria esta: nem barricadas nem aceitação do Palácio de Inverno (que não era senão um ‘golpe de Estado’), mas a reconstituição da unidade política da sociedade na ação. Um período revolucionário é quando cada um deixa de ficar em casa, sendo apenas o que se é, sapateiro, jornalista, trabalhador ou médico, e se torna um cidadão ativo que quer algo para a sociedade e sua instituição, e considera que a realização desse algo depende diretamente dele e dos outros e não de uma votação ou do que seus representantes farão em seu lugar”. Se mantivermos essa definição, então devemos concordar que ela se aplica plenamente a fevereiro: de 23 a 27 de fevereiro, e nas semanas que se seguiram, a sociedade dividida e esmagada pela opressão tsarista reconstituiu sua unidade política na ação e fez isso concedendo a si mesma as instituições de autogoverno que eram os sovietes. No entanto, essa definição não se aplica mais a outubro: a insurreição bolchevique rompeu com a unidade da sociedade, restaurando o princípio do Estado contra os sovietes, e essa ruptura ocorreu a partir do momento em que tomou o poder, sem esperar a vitória de Stálin sobre Trótski. Em 25 de outubro Lênin coloca o Congresso dos Sovietes diante do fato consumado da formação de um governo bolchevique bem quando a legalidade revolucionária exigia a formação de um governo emanado do Congresso dos Sovietes e responsável perante ele. É verdade, levou mais quatro anos para os sovietes serem permanentemente proscritos com a revolta de Kronstadt, em 1921. Contudo, foi a partir de outubro de 1917 que a atividade autoinstituinte da sociedade acabou, se não brutalmente interrompida, ao menos seriamente solapada. Não que Stálin esteja já embrionário em Lênin à maneira de um filho em seu pai, mas porque os germes da morte já estão presentes nas práticas autoritárias do bolchevismo e seu fetichismo do “poder de Estado”.

UMA CRISE HISTÓRICA DA ESQUERDAAlexander-Rodchenko-Leningrad-State-Publishing-House-1925
Como isso nos afeta hoje? A crise global da esquerda no início do século XXI é sem precedentes. Não se trata de mera eventualidade devido a um lapso temporário das pessoas ou a uma lacuna nos programas, é uma crise existencial, que se deve principalmente a um colapso do imaginário face à ofensiva neoliberal que se dá sob as formas mais diversas (pensemos nas figuras complementares de Trump nos Estados Unidos e de Macron na França), muitas vezes muito confusas para quem continua a olhar para o presente com os velhos óculos do passado. Com o colapso do comunismo de Estado e o alinhamento da social-democracia às políticas neoliberais, a esquerda em  muitos países já não parece mais portadora da esperança em uma sociedade mais igualitária e menos violenta.

A  isso acrescenta-se uma crise estratégica: o modelo de tomada do poder estatal por um partido com uma “ciência da história e da sociedade” não funciona mais. Temos que reinventar uma nova imaginação e outra estratégia. Para isso, o conhecimento crítico do passado é indispensável. A “esquerda global” não pode impunemente agir como se pudesse esquecer o que foi o século XX e ignorar a forma como a experiência revolucionária foi tirada de seu curso pelo destino sinistro da revolução russa e pelo estalinismo. A tradução para o português do nosso livro aparece em um momento dramático na história do Brasil. A esquerda brasileira está hoje em uma encruzilhada. Após o golpe parlamentar de 2016, o governo neoliberal de Temer impôs uma política de austeridade e repressão bastante alinhada com o neoliberalismo autoritário. O efeito da desorientação produzida na esquerda é tanto mais profundo quanto a violência dessa política a desafia a definir alternativas que a forçariam a enfrentar o sistema de poder mundial neoliberal, tarefa que os presidentes anteriores, Lula ou Dilma Rousseff, não assumiram totalmente. Para não “ser cego ao seu próprio objeto”, como diria Marx, e conseguir redefinir uma via política original, a esquerda  brasileira, assim como o resto da esquerda internacional, deve libertar-se completamente de suas ilusões constitucionalistas”, estatistas, assim como da fé no poder de um “homem providencial”. A receita da mudança  social por meio da “conquista do poder do Estado” acaba por ser uma miragem fatal. Seja a defesa dos direitos sociais, do movimento de camponeses sem terra, da luta pelo direito à moradia ou daquela das comunidades tradicionais, em todos os lugares é preciso favorecer, estimular e coordenar práticas do comum como práticas de autogoverno. Em suma, como este livro convida, é hora de reconstruir uma nova forma de comunismo, isto é, nas palavras de Marx, um movimento real que, para verdadeiramente abolir o estado de coisas existente, não mais  porá os meios ao fim. O novo comunismo começa com a instituição de comuns aqui e agora.

[8 de setembro de 2018.]


A Sombra de Outubro será lançado no dia 27/11. Clique e saiba mais sobre o evento.

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