Vivências da Shoah Sob o Olhar de uma Psicóloga

por Juliana Eliezer

Em Badenheim 1939, o escritor judeu Aharon Appelfeld, morto no início deste ano, retrata um balneário austríaco emblemático da cultura hedonista do Império Austro-Húngaro, bem como os viajantes que para ali se dirigiam a fim de passarem a primavera e o verão apreciando o clima, a natureza e o festival de cultura germânica que ocorria todos os anos, religiosamente. Entretanto, a ansiedade natural provocada pela organização das atrações culturais mistura-se na obra a outro tipo de inquietação, mais sombria, relacionada ao crescente papel da autoridade do Departamento Sanitário naquele espaço, infiltrando-se sutilmente no cotidiano da cidade: primeiro visitando os estabelecimentos comerciais; passando a colocar cercas de arame e bandeiras nos espaços públicos; depois determinando que todos os cidadãos judeus presentes na cidade deveriam registrar-se; e, por fim, transformando a cidade em um campo de trânsito, de onde todos os judeus seriam deportados. No curso desse processo, a apreensão dos habitantes e veranistas também cresce paulatinamente, mas a cada exame ou debate acerca do assunto, sempre acabam por concluir que as autoridades dificilmente seriam passíveis de erro, e as medidas tomadas provavelmente configurariam melhorias e ajustes para a realização do festival. Quando aquelas pessoas dão-se conta, já se encontram na estação ferroviária, aguardando a deportação. Comenta uma delas sobre o trem de gado, “se os vagões são tão sujos, é porque o caminho não é longo”, mantendo no autoengano um fio de esperança, característico, segundo Berta Waldman, daquele que não conhece as regras do jogo.

      Holocausto Vivencia e Retransmissao [E317]  A noção de que os judeus encaminharam-se para o matadouro sem oferecer resistência, assim como o gado que fora transportado naqueles mesmos trens, ainda é largamente propagada. Em Holocausto: Vivência e Retransmissão, Sofia Débora Levy põe em xeque essa maneira de pensar, relacionando-a com “a maneira pela qual os nazistas trataram os judeus durante o Holocausto: como não humanos. Assim, à medida que estigmatizaram os judeus, os nazistas os discriminaram e reduziram suas chances de vida.” (p. 41). Esse estigma foi construído pelos nazistas no bojo de um sistema em que os mais caros valores não eram igualdade e justiça, mas antes poder e obediência (ocultando as reais forças motoras dessa sociedade, o medo e a violência). E o fato de que esse estigma tenha perpetuado-se por tanto tempo faz com que seja necessária, de acordo com a autora, uma mudança de ponto de vista, de modo que o processo de estigmatização possa ser desconstruído pela via empática.

        Holocausto: Vivência e Retransmissão é uma obra de psicologia lançada pela Editora Perspectiva com o apoio da Confederação Israelita do Brasil (CONIB), que se propõe a analisar depoimentos de dez sobreviventes da Shoah, residentes no Rio de Janeiro à época das entrevistas, sob o ponto de vista de um método fenomenológico de investigação, com ênfase na compreensão empática. Norteiam essa análise os ensinamentos de Dilthey e Buber, no sentido de que o homem é um ser dialógico, um ser de relação, a fim de que as entrevistas sejam assimiladas por meio do engajamento entre aquele que está sendo entrevistado e aquele que o lê. Grosso modo, a autora convida o leitor, leigo ou não, a colocar-se no lugar do sobrevivente, esperando assim conscientizá-lo e fazê-lo refletir sobre até que ponto pode um homem chegar quando não é possuidor de consciência crítica ética e moral. Peça chave nesse exercício de empatia é a vivência: aos nazistas foi impossível tirar das vítimas o direito à vivência das atrocidades, e essa vivência, transmitida e retransmitida, atua na tomada de consciência e no posicionamento do leitor acerca daquilo que contam os sobreviventes.

07 [prisioneiros dormit]

De acordo com Luis Sergio Krausz, a perspectiva da autora a respeito do tema do Holocausto é original, tanto por analisar histórias individuais, quanto por tomar como ponto de partida o relato humano, procurando entender a psiquê daqueles que foram despersonalizados pelo nazismo. De fato, é uma obra que demonstra que histórias de vida são formadas por um amálgama entre os aspectos individuais (tratados pela psicologia) e os aspectos sociais e coletivos (tratados pela sociologia), e que a narração dessas histórias, por sua vez, torna possível não apenas que se desenhe uma teoria, mas que se compreenda efetivamente processos psicológicos e sociológicos que ocorrem nos grupos e nos indivíduos, especialmente porque os entrevistados foram perguntados sobre sua visão de mundo antes e depois dos acontecimentos do Holocausto. Tendo em vista as atrocidades das quais foram vítimas essas pessoas, sugere a autora que deixemos de querer saber como os judeus foram tão passivos face à própria aniquilação, e passemos a indagar como esses mesmos judeus foram capazes de sobreviver a condições tão inóspitas. É uma mudança de ponto de vista completamente factível, mas que depende da mesma reflexão empática que a autora nos pede, a ser aplicada não apenas aos depoimentos trazidos por este livro, mas a qualquer material relacionado ao genocídio dos judeus com que viermos a nos deparar.

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