Encanto que Embriaga

Estaria a arte sonora realmente apta a comunicar um sentido? Em que consistiria a expressividade de uma composição musical?

Ao apresentar um modo singular de atuar sobre o ouvinte e de transmitir seu sentido, a música torna-se, com frequência, alvo de suspeita para uma cultura guiada pelo lógos demonstrativo e por uma “razão viril”. Contudo, estaria a arte sonora realmente apta a comunicar um sentido? Em que consistiria a expressividade de uma composição musical? A fim de responder estas questões, Vladimir Jankélévitch distingue as possibilidades musicais das verbais, desembocando na categoria estética do “encanto”, que remete ao caráter atmosférico, impreciso e radicalmente temporal da arte sonora, incapturável por análises teóricas. Musica e o Inefavel_SM18

Atento às particularidades da música intuídas por obras musicais impressionistas e modernas, o filósofo constrói uma reflexão indispensável para aqueles que buscam, senão pensar a música, pensar em sintonia com sua inefável dinâmica, que desafia, mas não impossibilita, o discurso filosófico.


“No silêncio”: estas duas palavras encerram o Tratado de Metafisica de Jean Wahl. Aplicálas à música sob o pretexto de que, nascida do silêncio, ela se recolhe no silêncio, seria, talvez, confundir o metafísico com o metafórico, desfigurando, assim, o pensamento do poeta-filósofo. Não somos menos tentados, como certa escatologia nos sugere, a imaginar uma tela de fundo sobre a qual, posteriormente, inscrever-se-iam tanto os ruídos da vida e da natureza quanto os sons melodiosos da música. Assim como a experiência, de acordo com as gnosiologias sensualistas e substancialistas, preenche com seus signos a tabula rasa da nesciência original, assim como o pincel do pintor deposita sobre a tela incolor e uniforme a pitoresca variegação das cores, a página branca do silêncio, nada original, viria a ser gradualmente povoada pelo tumulto. Nesse caso, é o mundo dos ruídos e dos sons que se revela como um parêntese sobre o fundo de silêncio, que emerge no oceano do silêncio como um raio de luz a clarear por alguns minutos o negro vazio da khōra e do espaço homogêneo. É assim que percebemos, na obra de Louis Vuillemin, essas badaladas de sinos esparsos e discordantes, provenientes de um litoral distante, deslizando sobre a baía por entre fiapos de nuvens. O ruído está ligado aqui à presença humana: esta, por mais barulhenta que seja, com sua tagarelice e suas gritarias, seus trompetes e suas matracas, é um suspiro que quase não se ouve no silêncio eterno dos espaços infinitos. Essa presença, como a própria civilização, deve se afirmar e se reafirmar sem cessar, por uma tensão e uma atitude defensiva, a fim de resistir ao nada invasor. E, assim como os lugares abandonados se recobrem de mato ao mínimo descuido e as cidades mais efervescentes logo teriam desaparecido abaixo da areia se o homem, por um esforço contínuo de reconquista, não velasse por sua manutenção, as estrondosas celebridades terminarão, mais cedo ou mais tarde, por se extinguir na imensidão oceânica do tempo infinito.

 

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VLADIMIR JANKÉLÉVITCH
(Bourges, 1903– Paris, 1985). Estuda filosofia na Escola Normal Superior de Paris tendo como professores, entre outros, Léon Brunschvicg e Émile Bréhier, recebendo paralelamente marcante influência do pensamento de Henri Bergson. Após se formar, transfere-se para Praga, onde leciona no Instituto Francês, e conclui sua tese principal de doutorado sobre Schelling. De volta à França, leciona em Caen, Lyon, Toulose e Lille antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, quando então passa à clandestinidade e se junta à Resistência. Retoma seu posto de professor em Lille em 1947, indo em seguida para a Sorbonne, onde, entre 1951 e 1979, dá aulas de filosofia moral. Em português foram publicados o Curso de Filosofia Moral, O Paradoxo da Moral (ambos pela WMF Martins Fontes) e Primeiras e Últimas Páginas (Papirus).


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Créditos da imagem: Petrônio Bax, Paisagem Submersa I.

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