Breve História do Cálculo Literário

Lucas Bento Pugliesi

Nada, à primeira vista, parece mais avesso à literatura do quê a matemática. Ecoa Horácio, como exortação em sua mais famosa ode, 1.11, que não devemos consultar “babilônios números” para saber o porvir. A referência à escrita interpretativa do futuro nos números é tida como ímpia; afinal, saber o futuro é desafiar as Parcas, a quem todos devem prestar contas no que tange a manipulação da Roda da Fortuna que gira, a despeito do saber mortal. Nada mais estranho seria à poesia, enquanto repositório da teologia antiga, do que a matematização; não haveria espaço para a predicabilidade frente ao culto do acaso e da impossibilidade de seu escrutínio.

Não obstante, os epigramatistas antigos já mobilizavam razões lógicas para criar uma progressão geometrizada de seus versos, oferecendo ao leitor – o epigrama é o gênero escrito por excelência – como que um enigma agudo que precisasse ser descoberto no ato não de interpretação, mas de decodificação.Literatura e matematica_BB

Esse tipo de arqueologia das relações insuspeitas entre letras e números é empreendido por Jacques Fux em Literatura e Matemática: Jorge Luis Borges, Georges Perec e o Oulipo, de modo a contemplar nomes como de Arnault Daniel, Edgard Allan Poe, Mallarmè até a consolidação do grupo francês, Oulipo que, na concepção apresentada pelo autor, foi o primeiro momento de exploração sistemática das relações entre os dois campos, literatura e matemática, a primeira vista, inoponíveis.

A discussão de Jacques Fux, até certo ponto, parece movida ou mesmo atrelada às discussões do grupo Oulipo, neovanguarda do século XX que em reação organizada ao surrealismo – parodiando a vanguarda encabeçada por Andrè Breton ninguém poderia ser expulso do grupo –, vai pensar uma escrita regida por regras matemáticas, vendo na forma livremente fixada um caminho de interesse para a literatura.

A ressalva do Oulipo, com refinamento psicanalítico, é pensar até que ponto o acaso da escrita automática surrealista apenas não mantém as velhas estruturas inconscientes enquanto um aprisionamento do sujeito na escrita. A liberdade, portanto, não derivaria da recusa às regras, mas sim, de um jogo consciente com as mesmas.

A ruptura essencial do Oulipo é com a “tradição delirante” herdada do romantismo pelo surrealismo, do escritor “inspirado” que não obedece à regra alguma senão ao sentimentalismo exacerbado da subjetividade e do inconsciente. Não escapa a ironia da própria postura do grupo que, num lampejo antirromântico, preocupado em romper com a ruptura, traceja uma nova proposta em relação à tradição da inovação, colocando-se como marco zero de uma abordagem literária. Para os membros do Oulipo, falar com o passado é jogar soberanamente com a tradição, mover as peças de xadrez, compor a partir do já dito, a partir de um ato voluntário.

Resultante dessa prática é certa concepção da literatura como inacabada, sempre dependente de uma recepção. O Oulipo coloca o público na posição do jogador que move as peças do tabuleiro e permite o rearranjo interpretativo. Nesse sentido, é tarefa do escritor produzir uma “literatura potencial” cujo expoente inaugural é o livro Cent mille milliards de poèmes de Raymond Queneu, um apanhado de dez sonetos compostos sob o mesmo esquema rímico de modo a possibilitar ao leitor, pelo intercâmbio entre versos, um poema que se propõe sempre de modo novo no ato da leitura.

 

O lúdico da literatura, contudo, não é novo ou puramente oulipiano, lembremos o epigrama de Marcial, composto sob a recusa aos gêneros sérios e à afirmação dos lúdicos. Esses “plagiadores por antecipação” podem ser rastreados no próprio romantismo que teria iniciado o irracionalismo da escrita. Basta pensar na arquitetura complexa proporcionada por Pushkin em “A dama de Espadas”, no qual os capítulos duplicam os eventos narrados de modo a, no plano da estrutura narrativa, espelhar as decisões duplas do protagonista sob a égide do misterioso jogo de baralho.

A pergunta de Pushkin não está tão distante da pergunta oulipiana ou da dúvida dos antigos, isto é, se não haveria ali, entranhado na matemática, um sentido a ser decifrado. Se de posse da matemática e de seus babilônios números, não estaríamos também de posse do destino. Pergunta que se avulta nos tempos de tecnocracia e estatística, de cosmogonias falidas e do levantar de olhos para os matemáticos, na busca, sempre frustrada, de algum sentido.

Talvez aí esteja o aspecto mais fascinante do grupo Oulipo, conforme formulado por um de seus membros mais notáveis, Georges Perec, alvo do estudo cuidadoso de Jacques Fux. Ao voltar-se à Cabala, Perec vai pensar o contrainte – sistema de composição literário segundo uma regra arbitrariamente afixada –, como uma via de restituição de uma verdade primordial perdida:

De acordo com algumas interpretações e estudos sobre a Cabala, como a teoria dos círculos cósmicos, a Torá atual não é a Torá primordial, ou seja, falta ou há uma lacuna na compreensão da escritura. Gershom Scholem, a quem Perec cita como sua fonte para o estudo desse texto, relaciona tal lacuna à letra faltante: ‘a letra incompleta e falsa da Torá  seria a consoante schin, que escrevemos agora com três cabeças, mas que, na sua forma completa, deveria possuir quatro.

A analogia usada pelo próprio Fux para iluminar esse viés da mística judaica é a lenda do golem que ganha vida com a escrita da palavra verdade, emet, em sua testa; ao passo que é desativado com o apagamento da letra inicial. A escrita completa, total, reservaria algo de mágico, da possibilidade de um saber inaudito, mas rasurado pela forma rasteira que temos acesso. Nesse sentido, o livro é defectivo, impede a ascese, o contato com o sagrado por intermédio do conhecimento, justamente em razão da letra que falta.

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Oulipo, la littérature en jeu(x). Disponível em www.bnf.fr/fr

Para ocupar esse locus, a criação de regras surge como um caminho válido. Desafiando a experiência moderna do não sentido, da impossibilidade de sentido e da radical arbitrariedade dos eventos, o contrainte é assunção da arbitrariedade, sua incorporação e a devolução de uma superfície sólida na qual se possa assentar alguma certeza – ainda que consciente das aporias e limitações da própria matemática que, não mais, exprime a constância newtoniana.

Se o sentido permanece defectivo, ao menos, Oulipo e seus defensores matemáticos permitem a reativação do lúdico e do lugar clássico da literatura associada ao deleite. O texto como um modo de usar para a recepção, para vasculhar espaços inauditos de resquícios lógicos, ainda que aqueles produzidos por equações.

 

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