Ética do Amor

Emmanuel Lévinas é o filósofo da ética da alteridade, do outro, da percepção e respeito às diferenças.

O binômio amor e justiça em Lévinas se distancia tanto do caráter abstrato ou de conceitos vazios como abandona a visão do indivíduo e da justiça pensada em função dele. Amor e justiça, segundo Lévinas, brotam do reconhecimento do rosto e da proximidade do próximo e do próximo do outro. Amor e justiça não existem sem o apelo ético, sem o mandamento do rosto de outrem que vem de alhures. Amor e Justiça se encarnam nas instituições, na sociedade, com suas tramas de corpos, na intriga da substituição e da maternidade ética, nas culturas, no Estado, na política e no direito.Amor e justica em Levinas_E362_2018

Graças à compreensão corpórea de alteridade em Lévinas, vive neste conceito a possibilidade de repensar práticas de inclusão social por meio do acolhimento de diferenças, especialmente no que diz respeito ao estrangeiro, ao apátrida e às minorias vulneráveis. São esses rostos que, no contato físico, permitem construções filosóficas baseadas na harmonia entre amor e justiça. Em Amor e Justiça em Lévinas, importantes autores brasileiros e estrangeiros, estudiosos da obra do filósofo francês, trazem a questão da transdisciplinaridade ultrapassando os horizontes da filosofia reflexiva a ponto de poder inspirar outros campos do conhecimento, como o direito, a psicanálise, a literatura, a teologia, a antropologia cultural, a sociologia, a bioética e também a ecologia. Da mesma forma, partilham do sentimento de que as temáticas da alteridade, vivamente abordadas pelos autores, auxiliam a repensar novas práticas de inclusão social graças à incidência da óptica levinasiana no corpo e na carnalidade. Pois permitem acolher as diferenças, especialmente o estrangeiro, o apátrida, as minorias e os rostos humanos mais vulneráveis, de todos os que atravessam nossos campos e nossas ruas, avenidas, grandes centros urbanos e favelas.


A Dignidade Do Outro
Não há como pensar a dignidade sem começar pela dignidade do outro; antes de perguntar quanto à minha dignidade, é a dignidade do outro que já me demanda respeito. Lévinas insiste na sua “fenomenologia” do rosto numa certa ambiguidade. Ao mesmo tempo que o visage (rosto) é a parte mais nua, mais vulnerável do corpo, alguma coisa nele parece causar em mim um certo temor. Uma espécie de dimensão normativa parece sobressair do rosto me comandando fazer alguma coisa. A sensação mesma é a de que o rosto tem sobre mim alguma autoridade. Uma autoridade frágil, porque em todo caso posso muito rapidamente dele desviar meu olhar. Não sem alguma explicação, uma vertigem toma conta de quem vê um rosto. O rosto desequilibra. Nele, o mais baixo estrato do humano se cruza com o mais alto. Uma miséria humana entreabre uma dimensão de altura humana: “A dimensão de altura em que outrem se coloca é como que a inflexão primeira do ser a que está ligado o privilégio de outrem, o desnivelamento da transcendência.”. O rosto fala comigo, mesmo quando outrem permanece com os lábios cerrados. Lévinas faz referência a uma “voz que vem de uma outra margem [autre rive]”, uma terceira talvez, como a de Guimarães Rosa. O fato é que a voz do rosto, tão silenciosa quanto possa ser, é voz imperativa. Nela, um imperativo se manifesta. Imperativo estranho, porque se fazendo e se desfazendo entre uma humildade e uma altura. Outrem “situa-se numa dimensão de altura [hauteur] e de abaixamento [abaissement] – glorioso abaixamento; ele tem a face do pobre, do estrangeiro, da viúva e do órfão, e, ao mesmo tempo, do mestre chamado a investir e a justificar minha liberdade”. Dizer que o rosto do outro me interpela só pode significar, então, que “suplica e exige – que só pode suplicar porque exige – privado de tudo porque, mesmo tendo direito a tudo, se rende dando tudo (tal como ‘se coloca as coisas em questão dando-as’)”.

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