Tchékhov, Nosso Contemporâneo

Tchékhov ganhou espaço, à sua época, por seu caráter inventivo. Hoje, mais de um século depois de sua morte, prevalece a pergunta: por que Anton Tchékhov ainda nos interessa?

Nas distantes paisagens russas, a figura e a obra de Tchékhov é dominante. Apenas aparentemente fechado em uma sensibilidade de fim de século, foi acusado de decadente por muitos de seus contemporâneos e idolatrado por outros como poeta da delicadeza perdida. Mas, então, o que ele ainda pode oferecer ao leitor brasileiro? Transparece em Tchékhov e os Palcos Brasileiros o oportunismo de Rodrigo Alves do Nascimento em notar a ausência de títulos na bibliografia brasileira que tratem da recepção às obras dos escritores russos no país, e a percepção do alcance, da importância e do interesse da obra  de Tchékhov nos dias de hoje. Tchekhov e os palcos BR_E360

Do encontro com Stanislávski, Nemiróvitch-Dantchenko e Tchékhov no Teatro de Arte de Moscou, o autor de Tchékhov e os Palcos Brasileiros acompanha toda trajetória do teatro russo até sua chegada ao Brasil, em 1946, em um pequeno teatro de estudantes em Pernambuco. Nas palavras de Vilma Arêas “Esse trabalho exaustivo, que também leva em conta realizações estrangeiras, é examinado por um acurado estudo teórico-crítico sobre a recepção de Tchéckhov, sempre ao alcance dos solavancos políticos e das modas interpretativas. Hoje Tchékhov é um clássico. Mas, afinal, o que tem o Brasil a ver com esse autor irônico, crítico e concentrado? É preciso ler este livro para descobrir.”


O MAIS BRASILEIRO DOS RUSSOS
A partir de 1960, o teatro brasileiro viveu transformações intensas. Se nos anos anteriores esteve envolvido em vivas lutas com as condições para sua modernização, nos próximos anos, as questões seriam outras e gravitariam, em maior e menor grau, em torno de outra pergunta: “qual é a modernização necessária?” Tal questão é profundamente histórica. Acompanhava a efervescência social que, guardadas as devidas proporções, assemelhava-se à da geração de 1860, na Rússia. No Nordeste e no Sul brasileiros surgiam organizações campesinas em luta pela Reforma Agrária, as mesmas organizações estudantis que serviram de impulsionadoras para o teatro estudantil e amador ao longo das últimas décadas sincronizavam seu horizonte político e radicalizavam seu discurso de luta contra o imperialismo, bem como organizações operárias que recolocavam a agenda de luta dos trabalhadores em perspectiva nacional. No plano da cultura, esse ambiente foi bastante produtivo. Em fins de 1961, surge o Centro Popular de Cultura (que se ligaria à UNE); Teatro de Arena já havia surgido e colocava o problema do autor nacional e da presença em cena do homem brasileiro, obtendo êxito estrondoso com Eles Não Usam Black-Tie. Em igual medida, o cinema se colocava o imperativo de representar na tela o cotidiano do brasileiro comum e marginalizado. Em um ambiente de tal natureza, palco de polarizações crescentes, que espaço haveria para um dramaturgo estrangeiro que proclamava, antes de tudo, a necessidade do escritor de se manter objetivo e imparcial ante os acontecimentos? Como dizer algo ao público brasileiro, aparentemente mais simpático aos contrastes  dramáticos vivos e, agora, aos contrastes políticos claros com peças de pouca ação dramática, dúbias do ponto de vista ideológico? Tais perguntas operavam com alguma consistência por trás de julgamentos críticos e escolhas de grupos teatrais. No entanto, na tentativa de fazer com que a questão não girasse em falso, Antonio Callado escreveu, em setembro de 1960, um artigo no qual afirmava reiteradamente que Tchékhov é o mais brasileiro dos russos. O problema, colocado nesses termos, despertava interesse. Para ele, Tchékhov, mais que Tolstói ou Dostoiévski, conseguia apresentar os problemas da sociedade por uma óptica brasileira: “A força centrípeta de Moscou causando o êxodo rural, a cegueira das elites, as revoltas de estudantes, tudo do Brasil de hoje está em Chekov.”.

 

O lançamento de Tchékhov e os Palcos Brasileiros acontecerá no dia 17 e contará com com bate-papo “Tchékhov e a experiência do ator”, com o autor Rodrigo Alves Do Nascimento e Carlos Gontijo, além de leitura dramática de “Os Males do Tabaco”, de Anton Tchékhov. Clique e saiba mais: Convite_Tchekhov_Tapera


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RODRIGO ALVES DO NASCIMENTO
é professor de língua portuguesa e literatura formado pela Unicamp, tradutor e pesquisador de dramaturgia e teatro russo e brasileiro. Doutorando no Programa de Literatura e Cultura Russa da Universidade de São Paulo, foi pesquisador visitante na Universidade da Califórnia, em Berkeley, e na Queen Mary – Universidade de Londres.

 


 

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