Escotoma – Omissão e Negligência na Ciência

Oliver Sacks¹

Passei, como médico, quinze anos efetuando observações neurológicas, mas, em 1974, eu mesmo vivi uma experiência neurológica – experienciei, por assim dizer, a “interioridade” de uma síndrome neuropsicológica. Eu machucara gravemente os nervos e os músculos de minha perna esquerda ao realizar uma escalada numa parte remota da Noruega. Necessitava de uma cirurgia para ligar os tendões do músculo e de tempo para curar os nervos. Durante o período de duas semanas, no qual minha perna estava desenervada e engessada, não só fiquei privado de movimento e sensibilidade, mas senti como se ela deixasse de fazer parte de mim. Parecia-me que se tornara algo sem vida, quase um objeto inorgânico, não real, não meu, uma inconcebível coisa alheia e estranha. Mas, quando tentei comunicar a experiência ao meu cirurgião, ele disse: “Sacks, você é excepcional. Nunca ouvi antes coisa semelhante de um paciente”.

Achei isso um absurdo. Como poderia eu ser “excepcional”? Deve haver outros casos, pensei, mesmo que meu cirurgião nunca tivesse ouvido falar deles. Assim que consegui movimentar-me o suficiente, comecei a conversar com outros pacientes, com meus companheiros de hospital, e muitos deles, verifiquei, haviam passado, como eu, pela experiência de não sentir os membros como sendo seus, ou seja, “alheios”. Para alguns, a experiência pareceu tão sinistra e horrível que tentaram expulsá-la de suas cabeças; outros se preocuparam com ela em segredo, mas não tentaram expô-la. Quando deixei o hospital, dirigi-me à biblioteca, decidido a buscar alguma referência sobre o assunto. Durante três anos, não encontrei nada. Mas um dia me deparei com um relato de Silas Weir Mitchell, o grande neurologista americano do século dezenove, que descrevia de maneira completa e cuidadosa membros fantasmas (“fantasmas sensoriais”, como ele os chamou). Mitchell também escreveu acerca de “fantasmas negativos”, experiências de aniquilação e alienação subjetivas de membros após um grave ferimento ou uma cirurgia. Ele encontrou um vasto número de casos durante a Guerra Civil e ficou tão impressionado com esses casos que de pronto publicou uma circular especial sobre o tema Reflex Paralysis (Paralisia Reflexa), a qual foi distribuída pelo escritório do Cirurgião Geral em 1864. Suas observações suscitaram um breve interesse que logo depois se extinguiu. Mais de cinquenta anos decorreram até que a síndrome fosse redescoberta. 4277553a619ebc1e0724d71e4ab75e94.jpg

Isto ocorreu, mais uma vez, durante um tempo de guerra, quando milhares de novos casos de trauma neurológico foram notados na frente de combate. Em 1917, o eminente neurologista J. Babinski publicou (com J. Froment) uma monografia intitulada Syndrome Physiopathique (Síndrome Psicopática), na qual, ignorando, ao que tudo indica, o relato de Mitchell, descreveu a síndrome que eu sofri. De novo, as observações malograram sem deixar rastro (quando, em 1975, finalmente dei com o livro em nossa biblioteca, descobri que eu era a primeira pessoa a tomá-lo emprestado, desde 1918). Durante a Segunda Grande Guerra, a síndrome foi plena e ricamente descrita pela terceira vez por dois neurologistas soviéticos, A. N. Leont’ev e A. V. Zaporozhets, que, mais uma vez, ignoravam seus predecessores. Embora o livro deles, Rehabilitation of Hand Function (Reabilitação da Função da Mão), tivesse sido traduzido para o inglês em 1960, suas observações não foram de modo algum incorporadas aos conhecimentos dos neurologistas nem dos especialistas em reabilitação. À medida que eu reunia as peças desta extraordinária, e até mesmo bizarra, história, comecei a sentir maior simpatia por meu cirurgião e por sua declaração de que nunca ouvira falar antes de algo semelhante aos meus sintomas. E, no entanto, a síndrome não é uma ocorrência tão incomum: ela acontece sempre que há uma dissolução significativa da imagem do corpo. Mas, por que é tão difícil registrá-la e dar à síndrome seu devido lugar em nosso conhecimento e consciência neurológicos?

O termo escotoma (escuridão, sombra) – como utilizado pelos neurologistas – denota uma desconexão ou um hiato na percepção, essencialmente uma fissura na consciência produzida por uma lesão neurológica. Tais lesões podem ser de qualquer nível e ocorrer nos nervos periféricos, como foi no meu próprio caso, e até no córtex sensório do cérebro. Portanto, é muito difícil para um paciente com semelhante escotoma estar apto a comunicar o que está acontecendo. Ele próprio, por assim dizer, escotomiza a experiência. É igualmente difícil, para seu médico e seus ouvintes, adentrar-se no que ele está falando, porque eles, por sua vez, tendem a escotimi-zar o que estão escutando. Tal escotoma é literalmente inimaginável, a não ser que o indivíduo o esteja experienciando (daí porque sugiro, meio jocosamente, que as pessoas leiam A Leg to Stand On (Uma Perna para Ficar de Pé), enquanto estiverem sob anestesia raquidiana, de modo que poderão saber por si próprios sobre o que estou falando). Se, de alguma forma, por um esforço quase sobre-humano, tais barreiras de comunicação forem transcendidas, como o foram por Mitchell, Babinski, Leont’ev e Zaporozhets – ninguém, segundo parece, leu ou se lembra do que eles escreveram. Há um escotoma histórico ou cultural, um “buraco de memória”, como diria Orwell.


¹Excerto extraído do volume Prematuridade na Descoberta Científica, organizado por Ernest B. Hook. Versão revista e atualizada de um ensaio mais longo publicado em 1995 no livro de R. Silvers.

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Prematuridade na Descoberta Científica. Ernest B. Hook (org.) Tradutor: Gita K. Guinsburg .

“Prematuridade na Descoberta Científica ” reúne os textos da fascinante discussão de que participaram os mais renomados pesquisadores de diferentes campos da ciência moderna, no que a sua investigação vem propondo de mais intrigante e desafiador ao debate não só da comunidade científica, mas também do público interessado em conhecer os sinuosos caminhos da criação, da descoberta e da renovação do conhecimento humano.

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