O Ciclo do Totalitarismo

Ruy Fausto¹

Com a plena adesão da China a um capitalismo autoritário e com o governo autocrático “não comunista” de Putin, termina, pode-se dizer, um ciclo. Um ciclo que conduziu a China e a Rússia de sociedades oligárquicas com capitalismo incipiente e grande base agrária a sociedades de capitalismo selvagem e, consideravelmente, mafioso. É sobre esse processo que se trata de refletir. Eu o tomo em bloco, em continuidade, se se quiser, embora, é claro, haja no interior dele rupturas ou descontinuidades.

De imediato, algumas questões: em que sentido poder-se-ia falar em “ciclo”? E, por outro lado, seria realmente importante discutir, hoje, a questão do totalitarismo?

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Começo pelo segundo ponto. Aparentemente, o problema pertence ao passado – esta é a opinião de muita gente. De fato, conforme a definição que se dê de totalitarismo, hoje não restam muitos governos totalitários no mundo. Se a definição for bem estrita, a rigor, só um: a Coreia do Norte. Ela tem os seus defensores (!), mas esses são minoritários. Porém, restam, por um lado, os autoritarismos populistas e o que poderíamos chamar, na falta de um melhor termo, de “pós-totalitarismos” (a China, por exemplo, a Rússia, em parte), entendendo esse “pós” como inclusivo, e não exclusivo, sem o que, a expressão seria um truísmo. Assim, embora o totalitarismo enquanto tal (na sua forma pura) quase não subsista mais, a questão do totalitarismo continua sendo absolutamente atual. É que o “pós-totalitarismo” e também os populismos trazem as marcas do totalitarismo, e não são pensáveis (sobretudo o primeiro) sem referência a este último. Os pós-totalitarismos do nosso tempo, e mesmo lá onde eles não são mais fiéis a uma prática “comunista”, reivindicam frequentemente as experiências do que teriam sido as revoluções russa ou chinesa, reclamam uma conexão histórica e ideológica com elas. Por outro lado, ou por isso mesmo, eles conservam traços herdados do stalinismo e do maoísmo. Ou, dizendo de outro modo: o totalitarismo interessa porque, se ele desapareceu, o seu desaparecimento não foi total. Ele antes se transmutou. E a forma transmutada guarda laços com a forma original, conserva traços dela. Quanto aos populismos, eles têm um parentesco não propriamente histórico, mas estrutural, com o totalitarismo. De outro modo, a sua compreensão exige também a referência ao totalitarismo.

Por que falar em “ciclo”? Poderíamos dizer o seguinte. Os poderes comunistas – o russo, por exemplo – começam com formas que são autoritárias (pré-totalitárias, se se quiser) e depois evoluem (involuem) para formas totalitárias. Essas formas, por sua vez, envelhecem ou se rompem e dão origem a um pós-totalitarismo que tem alguma coisa em comum com o pré-totalitarismo (ou autoritarismo) de que partiu. Há aí uma espécie de ciclo. Há também um ciclo no sentido de que se parte de sociedades se não capitalistas, pelo menos com presença capitalista (as sociedades russa e chinesa do ancien régime), e se volta ao capitalismo, agora pleno ou suficientemente desenvolvido.

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Pierre Voisin. Disponivel em theultralinx.com

De uma forma mais geral, seria preciso observar: a partir de outubro de 1917, constituíram-se grandes poderes ditos “comunistas”, mas esses poderes não tinham disso (e hoje têm menos ainda) muito mais do que o nome. É como se, a partir de outubro de 1917, tivesse surgido um descompasso fantástico entre as coisas (as formações históricas) e o nome das coisas. Os nomes não têm mais muito que ver com o objeto nomeado. Talvez o melhor exemplo singular desse fenômeno esteja na expressão “União das Repúblicas Socialistas Soviéticas”. Como escreveram alguns (não sei quem foi o primeiro a dizer isso, talvez Souvarine) não se tratava nem de “união”, nem de “repúblicas”, e elas não eram “socialistas”, nem “soviéticas”… O que seria fácil mostrar. Assim, como afirmou uma vez Bentham (a propósito de fenômenos históricos do seu tempo), as coisas se separam dos nomes. (Com a agravante, eu diria, de que, em muitos casos, os nomes já na origem não correspondiam às coisas.) Só que os indivíduos continuam acreditando que a correspondência se conservou, crença que teve e tem as consequências mais desastrosas. Raciocina-se não na base das coisas, mas dos nomes. É o que acontece com parte da esquerda europeia, e com uma parte considerável da esquerda dos países emergentes.

Bem entendido, um balanço desse totalitarismo (refiro-me, neste primeiro capítulo, quase sempre ao que chamei de “totalitarismo igualitarista”, não ao totalitarismo de direita, o nazismo)[²], deveria ser completado com um balanço da social-democracia. A situação da esquerda atual só é compreensível se fizermos a comparação. Eu a fiz, em alguma medida, em outros textos, indicados mais adiante. Aqui, sem fazer silêncio sobre a social-democracia, concentro-me no seu outro. Mas não posso deixar de dizer duas palavras sobre a situação global. Hoje, fala-se muito no “fim” ou na “decomposição” da social-democracia, principalmente depois da experiência negativa do governo Hollande. Há ali, efetivamente, um mergulho capitulacionista. E na história da social-democracia há coisas muito sinistras. Porém: 1. essa história não se reduz a esses desastres, e a experiência do socialismo nórdico, para falar da sua realização mais bem-sucedida, experiência que, aliás, durou muito tempo, não pode ser liquidada sem mais; 2. not least, os erros e crimes da social-democracia (ou de uma parte dela) têm de ser comparados com o balanço de horror do “comunismo”. O comunismo conduziu a uma catástrofe histórica cujo custo para a humanidade, principalmente na pessoa de camponeses, foi de algumas dezenas de milhões de mortos. Essa história é um livro fechado para muita gente de extrema-esquerda, inclusive especialistas, particularmente nos países emergentes.

De fato, a primeira coisa a observar é o quanto esse processo foi e é mal compreendido pelo “grande público” de esquerda (e por certo número de teóricos). E, aquém da compreensão, o quanto ele é desconhecido. O objeto data de quase cem anos – ele “nasce” em outubro de 1917 –, e a literatura a respeito, de valor desigual, sem dúvida, mas na qual se encontram obras de algum ou de muito valor, data mais ou menos da mesma época. Um ano após outubro, já se publicavam livros ou brochuras importantes sobre o regime revolucionário russo. Poder-se-ia dizer que essa literatura é, apesar de tudo, relativamente mal conhecida na Europa; e, com exceção dos textos que vão no sentido do que são hoje ortodoxias, como a História da Revolução Russa de Trotski, ela é essencialmente desconhecida em países como o Brasil. A razão profunda do desconhecimento e dos mal-entendidos em relação a esse grande pedaço de história é o fato de que, mesmo se, muitas vezes de modo mais ou menos inconsciente, o marxismo continua sendo hegemônico em grandes setores da intelectualidade dos países emergentes. Ora, ainda que isso possa surpreender alguns, eu diria que o marxismo está muito mal situado para entender aqueles fenômenos. E isso não só porque eles se situam num tempo bem posterior ao da morte de Marx, mas porque o autor de O Capital pouco teorizou o destino de governos pós-revoluções comunistas, e quando o fez, fez mal. Diria que, por paradoxal que possa parecer, outubro (novembro) de 1917 é uma data decisiva na história do envelhecimento do marxismo. É que ela assinala o ponto de partida de uma história que o marxismo estava muito mal preparado para teorizar, diria mais, uma história (futura, eventual) cuja realidade fora simplesmente denegada por Marx[³].

O ciclo do totalitarismo começa quando começam também outros ciclos. Coincide, em parte, com ele o ciclo do totalitarismo de direita, e também o da social-democracia. A história do totalitarismo se imbrica, por outro lado, com outra história, que emerge mais ou menos no mesmo momento em que ele nasce: uma história que se poderia chamar de “antropológica”, isto é, uma história que põe – e não apenas pressupõe – uma relação dos homens com a natureza, e com o conjunto da espécie humana. A primeira manifestação dessa emergência é a grande catástrofe que representou a Primeira Guerra Mundial, guerra que é, aliás, um elemento decisivo, se não o elemento decisivo, do nascimento das duas vertentes do totalitarismo.


[1] Trecho introdutório do volume O Ciclo do Totalitarismo, de Ruy Fausto. Publicado em 2017 pela editora Perspectiva.
[2] Para simplificar, escreverei frequentemente “totalitarismo” em lugar de “totalitarismo igualitarista”. Quando me referir ao totalitarismo de direita ou a totalitarismo em geral, di-lo-ei expressamente.
[3] Nada mais característico a respeito do que o texto em que Marx critica Bakunin, a propósito da preocupação deste com o destino de um Estado pós-revolucionário. Marx não vê problema aí: num governo revolucionário, os indivíduos que assumissem funções administrativas seriam sempre controlados pelos trabalhadores, sua posição seria semelhante a “de um numa fábrica [organizada em] cooperativa de trabalhadores” (Marx-Engels, Werke, Berlin: Dietz, v. 18, 1972, p. 635. Ver o meu A Esquerda Difícil: Em Torno do Paradigma e do Destino das Revoluções do Século XX e Alguns Outros Temas, São Paulo: Perspectiva, 2007, p. 237). Não mais do que isso. Marx afirma – o que é uma maneira de liquidar a discussão – que estaríamos diante de uma situação em que “o proletariado […] obteve força e organização suficiente para utilizar meios de coerção universais contra [as classes privilegiadas]” (Ibidem, p. 634). Bakunin precisa que só uma minoria poderia exercer o poder e não “o conjunto do proletariado”. Porém, essa minoria, continua Bakunin, assumindo um momento o que poderia ser um argumento do adversário – na realidade, Marx quer evitar toda ideia de representação popular, refugiando-se no modelo problemático da “vontade efetiva da cooperativa” –, seria “constituída de operários”. Argumento que Bakunin comenta, excelentemente: “Sim, com licença, [seria constituída] por ex-trabalhadores (grifo nosso), os quais, entretanto, no momento em que se tornaram apenas representantes ou governantes do povo, deixaram de ser trabalhadores” (Ibidem, p. 635). Sem idealizar a figura de Bakunin, cuja teoria política tem aspectos desastrosos, é indiscutível que ele é muito mais realista do que Marx no que se refere à reflexão sobre o destino incerto dos governos pós-revolucionários. Marx se refugia numa espécie de “robinsonada” otimista e ilusória.

RFausto

RUY FAUSTO

Nascido em São Paulo, em 1935, estudou filosofia e direito na USP e doutorou-se em filosofia pela Universidade de Paris I. Ensinou no Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, da qual é professor emérito, na Universidade de Paris VIII e na Universidade Católica do Chile. Publicou, com a editora Perspectiva, A Esquerda Difícil (2007) e Outro Dia (2009).

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