Citação literária, para quê?

Lucas Bento Pugliesi

Prática das mais recorrentes, e talvez constitutivas da literatura, é a citação. O meio literário tende a configurar um sistema debruçado sobre si, de modo que os textos frequentemente aludem, comentam, contrastam ou endossam seus antecessores em um gesto validador de uma espécie de série de objetos entendidos como parte de um mesmo todo.

Assim, uma das principais vias pela qual um texto venha a ser considerado “literatura” é justamente a citação. A citação literária erige uma espécie de “aristocracia” textual, um pedigree, que garante, simultaneamente, o citador e o citado. Explico: de um lado, o texto “novo” ao citar uma obra mais antiga, de autoridade, assegura seu próprio estatuto literário, colocando-se em uma série iniciada muito antes de sua composição. Por outro, ao citar, o texto “novo” também valida o espécime da tradição, renova suas forças enquanto autoridade literária. Através da citação garante-se a circulação e a verificação inicial do valor de um texto. Se é (literatura) porque se cita, cita-se porque é literatura. Trata-se de um todo artificial que pressupõe dispositivos discursivos que reiteradamente regulam o campo.

Contudo, a “literatura”, enquanto instituição e conceito, não existiu desde o início dos tempos. Como é sabido, foi só a partir das discussões estéticas do primeiro romantismo alemão, com Friedrich Schlegel e Novalis, que se sedimentou uma “ideia” de literatura mais próxima do que concebemos hoje. Isto é, um campo autocentrado e independente que engloba textos ficcionais (ou não) que se afastam do utilitarismo do mundo em prol de uma visão contemplativa ou, propriamente falando, “estética”. Somente com os românticos se engendra uma concepção de um literário “absoluto” que vise “reencantar” o mundo contra a desilusão racionalista, enxergando no texto literário, em última instância, uma possibilidade de superação das limitações da consciência e da linguagem.

Assim, a partir de um raciocínio historicista, é possível pensar que a despeito das semelhanças – os textos “literários” de diferentes épocas citam-se –, o sentido da citação antes e depois do advento do romantismo, isto é, antes do advento da concepção de “literatura”, é consideravelmente diferente.

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Trabalho de Sam Winston. Disponível em http://www.samwinston.com/.

Para tentar balizar algo dessas diferenças é o caso de retroceder (sempre e tanto) ao mundo clássico. Como bem demonstrado por Francisco Achcar em Lírica e lugar comum, quando, em seu trecho mais célebre, Horácio diz ao interlocutor “Vinhos bebe e colhe o dia” (carpe diem), coloca-se imediatamente em uma larga esteira do costume de lugares comuns (topoi) da poesia lírica. A leitura corrente costuma se focar no sentido dos versos, a exortação hedonista a aproveitar o momento. Entretanto, para pensar a citação, vale observar a mobilização metafórica do léxico latino. Colher o dia implica uma metáfora vegetal que entifica a unidade do presente (dia) em um corpo orgânico que deverá ser consumido de imediato. A exortação se coaduna, pelo léxico, à efemeridade. Deve-se colher o dia antes que o mesmo morra (ou apodreça). Essa junção conceitual entre efemeridade (e mortalidade) e o símile vegetal antecede em ao menos oito séculos a escrita de Horácio.

É em Homero que se dá o primeiro registro de tal comparação, quando no encontro em campo de batalha entre o grego Diomedes e o troiano Glauco, o segundo, em vias de evitar o confronto, lança mão de um ornamentado discurso acerca da efemeridade da vida:

“As gerações dos mortais assemelham-se às folhas das árvores,

Que, umas, os ventos atiram no solo, sem vida, outras, brotam

Na primavera, de novo, por toda a floresta viçosa.

Desaparecem ou nascem os homens da mesma maneira.” (Ilíada, Canto VI, trad: Carlos Alberto Nuenes, 1960)

Do movimento simétrico homérico das folhas que caem em igual medida às folhas que brotam, molda-se um lugar comum do costume greco-latino (que persistirá, com variações ao menos, até o século XVIII) acerca da mortalidade, da fugacidade do momento e da irrelevância da vida humana.

Assim, é com a cabeça em Homero que Horácio inventa uma variação no símile. Se a vida humana é como o destino das folhas, então cabe colhê-las antes de seu desatino. Entre os dois autores, há toda uma linhagem que produz diversidade na imagem readequando-a a usos diversos, algo que passa pelos arcaicos Arquíloco, Alceu, Alcman, Simônides de Ceos, Semônides de Amorgos, Mimnermo e outros. Algo atestável (cito para confirmar a citação) em poema do último:

“E nós, quais as folhas que produz o tempo da primavera florida, quando depressa viçam aos raios do sol, assim por um breve momento gozamos das flores da juventude, nada sabendo do mal e do bem dos deuses.” (Excerto do Fragmento 2, retirado de Achcar)

Em Mimnermo, o símile ganha contornos similares aos que serão tracejados por Horácio. Aqui, o que precisa ser colhido enquanto fruto efêmero é a juventude, sorte de momento paradisíaco aquém do bem e do mal. A mesma reflexão, adquirindo caráter de conselho, surge no poeta latino quando afirma a superioridade em se beber os vinhos ainda não maturados do presente, em relação a postergar a maturação em busca de uma recompensa posterior.

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Trabalho de Sam Winston. Disponível em http://www.samwinston.com/.

Tal mecanismo configura uma lógica de “autoridades”. Horácio imita Mimnermo que por sua vez imitou Homero, sempre reinventando as imagens e temas a partir da lógica da situação de performance (e gênero poético). A imitação das grandes autoridades serve ao propósito de se igualar a elas ou tentar superá-las, praticar a partir de formas fixas e reconhecidas, objetivamente (isto é, socialmente), por seu valor.

Em certo sentido, a citação/imitação “clássica” resguarda sua especificidade por buscar tracejar semelhanças entre o texto atual e aquele oriundo da tradição, em vias de atualizar o passado de modo produtivo no presente.

Por sua vez, a citação, propriamente dita, isto é, a moderna, ou “pós-romântica”, entende que há uma relação disjuntiva entre presente e passado. Ao se aproximar dos textos clássicos, o escritor moderno apenas ressalta a distância que os apartam.

O inclinar-se sobre a tradição tem sempre um quê melancólico, por evocar, precisamente, a autoconsciência de uma ruptura, de um passado que, enquanto processo, só constitui o presente como ruína.

Quando Baudelaire mobilizará o vocabulário vegetal no título de seu livro, “As flores do mal”, a poesia se reafirmará na chave negra da dúvida e do tédio. Os poemas do livro capturam e tomam como base, também, o efêmero, mas sem qualquer exortação a um hedonismo singelo como o de Horácio. Aqui a consciência da passagem do tempo (e da transformação acelerada do espaço) traz consigo apenas a diluição da consciência e certo niilismo. Algo semelhante ao célebre poema de Drummond cuja “flor” que rompe o asfalto e nasce na rua, desestabalizando “melancolias” e “mercadorias”, é uma flor irreconhecível. Sem pétalas ou cor.

A experiência clássica da imitação pressupõe certa continuidade no tempo. Diz Horácio, ao término de seu terceiro livro de Odes, que havia erguido ali um monumento. O ato de imitar (citar) desafia o esquecimento e mantém vivo o passado feito para durar – mais do que o bronze. Se a vida é efêmera, tal qual a geração das folhas e sua corrupção, o poema surge como um desafio, como uma tentativa acertada de imortalização.

A citação moderna apenas constata o fracasso de tal empreitada, já despida de suas glórias. Aquilo que permanece, permanece  de modo absolutamente desfigurado, arruinado e violentamente ressignificado.

Em última instância, os grandes monumentos do passado são convertidos em relíquias, incompreensíveis para muitos, já tolidas de sua significação por uma lógica do esquecimento.

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