Henri Meschonnic: Europa Entre Literatura e Tradução

Pacelli Dias Alves de Sousa

Henri Meschonnic (1932 – 2009) foi poeta, professor e linguista. A função que o consagrou e levou seu nome e obra adiante, por sua vez, foi a de tradutor, conhecido especialmente pela tradução do Antigo Testamento da Bíblia. Para o professor francês, traduzir era um trabalho basilar dentro do pensamento, nunca algo mecânico ou somente técnico, mas disciplina e laboratório experimental que deveria estar continuamente no jogo da História das Idéias no Velho Mundo, não só a produção de traduções, mas juntamente a reflexão sobre a área.

Originalmente publicado em 1999, como coletânea de textos veiculados nas décadas anteriores, Poética do Traduzir (2010) é uma entrada nesse complexo proposto por Meschonnic, no qual a tradução é vista em sua autonomia, mas também em seus cruzamentos com a teoria literária, a linguística, a filosofia e a própria escritura, como porta de entrada para uma revisão da cultura literária européia desde uma poética centrada na oralidade, no ritmo e na diferença: “Para a póetica, a tradução não é nem uma ciência nem uma arte, mas uma atividade que coloca em curso um pensamento da literatura, um pensamento da linguagem. Toda uma teoria insciente, como dizia Flaubert, do sujeito e da sociedade.”

Babel [barra] PR-4

A discussão sobre a tradução esteve por séculos estancada em um lugar-comum: deve-se traduzir o sentido ou a camada mais material do texto, o significado ou o significante? O questionamento foi central, por exemplo em “A tarefa do tradutor”, publicado por Walter Benjamin em 1921 – um texto importante para a área, retomado diversas vezes ao longo do século XX, inclusive por Meschonnic. Em linhas gerais, o filósofo alemão defendia que as traduções não deveriam ser literais, já que a significação literária não residiria ali, senão que no “modo de visar”. A afirmação aparece como parte de um debate sobre técnicas boas ou ruins para se chegar à fidelidade com o texto original, objetivo final assumido por Benjamin. Para alcançá-la, o tradutor deveria buscar conformar o olhar da língua original na língua de chegada: “a tradução deve, ao invés de procurar assemelhar-se ao sentido do original, conformar-se amorosamente, e nos mínimos detalhes, em sua própria língua, ao modo de visar do original, fazendo com que ambos sejam reconhecidos como fragmentos de uma língua maior”, língua maior como aspiração, algo quase da ordem do incapturável. Se o filósofo se posicionava contra o apego ao significante, afirmava a importância da fidelidade ao texto original e uma literariedade na sintaxe, unidade formal que deveria estar na base do trabalho.

Ao final do século, Meschonnic propôs outro caminho, o de uma poética da tradução, na qual traduzir é também, e necessariamente, um processo de interpretar o outro texto, entender não só seus mecanismos como estrutura, mas sua significação em relação a outros discursos e instituições. Daí a importância do uso não só do termo poética, mas também de “discurso”:

“A unidade da poética é da ordem do contínuo, não dos binarismos, elabora-se algo na linguagem, o que fica por traduzir. Contínuo porque se lê desde o discurso e o sujeito do poema, como ‘subjetivação máxima de um discurso’. Não desde o signo, ou a língua. “contínuo da linguagem ao seu sujeito. Contínuo de língua à literatura, de discurso à cultura, de linguagem à história”.

O autor busca desconstruir o binarismo que parecia barrar a discussão sobre o papel da tradução, aquele de língua versus sentido, ao propor como unidade o discurso, em toda a expansão que o conceito propõe de Benveniste a Foucault. De certa maneira, a leitura de Meschonnic intui um tradutor crítico de literatura, conhecedor dos caminhos da produção de significados nos textos, assim como das lógicas de construção literária, componente que se impõe e pede espaço ante o sentido (objeto do modo de significar) e a língua (meio, instrumento).  

A relação, que não é da de uma subordinação do tradutor e da língua de chegada ao texto original, implica, por sua vez, a inscrição do sujeito no texto traduzido: “Quanto mais o tradutor se inscreve como sujeito na tradução, mais, paradoxalmente, traduzir pode continuar o texto. Quer dizer, em um outro tempo e uma outra língua, dele fazer um texto. Poética pela poética”. Meschonnic responde desde a sua área às discussões sobre a inevitabilidade da presença do sujeito tradutor nos textos – tanto o original, como o traduzido. Propondo, a sua vez, uma revisão dessa função, suas tarefas e possibilidades.

Se pode parecer demasiado abstrato em uma primeira leitura, talvez o melhor exemplo para visualizar o modelo seja tomar a própria tradução feita por Meschonnic da Bíblia Sagrada. Em Poética do Traduzir, o leitor encontra a tradução para o português da versão do crítico do episódio da Torre de Babel, do Gênesis, acompanhado de uma leitura analítica. Outra opção também seria consultar as transcriações de Haroldo de Campos para o livro sagrado, fortemente inspiradas pelas leituras do pensador francês. Campos publicou Bere’shith, versão do Gênesis, e Qohelet, tradução do Eclesiastes. Depois de sua morte, também publicou-se Éden: um Tríptico Bíblico, conjunto de trechos de diversos livros do Antigo Testamento, organizado por Trajano Vieira.         

Há uma especificidade de sua tradução do livro sagrado. À primeira vista: está escrita em versos, com marcados espaçamentos. A leitura também surpreende pelas metáforas inusitadas, a quantidade de imagens e de quebras: Meschonnic desvela, mais do que uma poesia, uma rítmica e uma oralidade estranhas à leitura ocidental acostumada a uma Bíblia em prosa e seus decorrentes procedimentos de leitura. Revelam-se ao mesmo tempo novas possibilidades interpretativas para o texto, enquanto se questiona a própria gênesis e historicidade da famosa narrativa. Por esse entremeio, inclusive, pode-se ver a importância que assume a oralidade para o autor: não se trata de só mais um componente do significante, senão que parte estruturante da significação e aspecto revelador da historicidade do texto.  

A tradução de Meschonnic do Antigo Testamento é, assim, não só uma crítica do próprio texto – no sentido de uma leitura criteriosa, que recuperou estruturas e dispôs de soluções para a tradução, mas também das outras traduções e da recepção do texto, desde uma rígida análise: “Na Bíblia, tomar uma parataxe por uma subordinação transforma um movimento semítico, oral, num procedimento indo-europeu escrito. A tradução transforma o outro no mesmo. A tradução é, então, aquilo que ela é muitas vezes, o etnocentrismo e a lógica da identidade – apagamento da alteridade.”. O ritmo e a oralidade não são importantes apenas na leitura da Bíblia, mas são analisados e defendidos como critério de leitura para a literatura em geral, e assim aparecem em toda a obra do autor, na teoria da leitura literária que esboça em Critique du rythme (1982) e La rime et la vie (1989), entre outros livros. Os conceitos, especialmente ritmo, aparecem também desde uma leitura menos convencional, fora de arcaísmos: “Ritmo como organização do movimento na palavra, organização de um discurso por um sujeito e de um sujeito por um discurso”. A oralidade, no que lhe diz respeito, não aparece como uma característica perdida, somente recuperada por uma arqueologia nostálgica, senão que como componente da escritura, parte do contínuo da escritura, cuja descoberta e análise deve ser função do tradutor.

Henri Meschonnic (1932 – 2009)
Henri Meschonnic (1932 – 2009)

A leitura da obra de Meschonnic abre caminhos para reavaliar a cultura européia, em primeira instância, e a cultura ocidental, de modo mais amplo: há uma certa descentralização do pensamento europeu, que passa a ser visto desde sua base como espaço de tradução, e não só de produção. Desse modo, seus estudos ampliam as possibilidades e caminhos de leitura não só para os estudos da tradução, mas também para a crítica e a teoria literária.  

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