Manoel de Oliveira e sua Vertente Épica

Teatro. Política. Arte. Cinema. O épico brechtiano do cineasta português, suas múltiplas referências, seus múltiplos sentidos.

O Cinema Épico de Manoel de Oliveira é claro em suas pretensões: comprovar que o cinema de Oliveira também se explica pela utilização e influência do teatro épico moderno, cujo maior teórico foi Bertolt Brecht. Para tanto, Junqueira perpassa toda a relação e admiração que tanto o cineasta quanto o dramaturgo nutriam pelos mestres do cinema soviético, Dziga Vertov e Eisenstein para, em seguida, justificar a rejeição aos padrões estabelecidos pelo mercado e, mais especificamente, por Hollywood.

Cinema epico de Manoel de Oliveira_E359

 

O diálogo crítico com o cinema e o teatro levou Brecht a consolidar a teoria e a prática que elevaram seu nome ao patamar em que se encontra atualmente. Oliveira, por sua vez grande admirador das artes cênicas, colocou sua obra a serviço do teatro e da literatura, partindo do uso sistemático das técnicas elaboradas por Brecht e sem nunca perder de vista o valor documental que o cinema perpetua de modo tão característico.


Há pelo menos uma curiosa aparição de Brecht na extensa carreira cinematográfica de Manoel de Oliveira. Em maio de 1974, depois de ter convidado para protagonizar o filme Benilde ou a Virgem-Mãe o ator Luís Miguel Cintra – que afinal se tornaria assíduo nos filmes do cineasta a partir de Le Soulier de satin (O Sapato de Cetim), longa-metragem de 1985 –, o realizador português recebeu de Cintra uma carta em que, embora grato e honrado pelo convite, recusava a proposta e justificava a negativa em função do excesso de trabalho que tinha então no Teatro da Cornucópia – companhia teatral por ele fundada em 1973 juntamente com Jorge Silva Melo –, pois ensaiava uma peça de Brecht: Terror e Miseria no III Reich. Muito entusiasmado com o projeto de encenar uma obra de Brecht em palco português logo após o 25 de Abril, dizia o então jovem ator que, além da enorme responsabilidade de apresentar tal peça em Portugal num momento tão importante e propício da história política do país, havia também muito trabalho político em sindicatos etc. E, por isso, protagonizar naquele momento um filme como Benilde não lhe parecia urgente: “Mas fazer agora um filme como a Benilde não me parece urgente”. Contudo, não descartava a possibilidade de vir a se arrepender dessa recusa: “E quem sabe se não me vou arrepender?” Talvez o ator tenha mesmo se arrependido depois de ver quão brechtiana foi a realização de Benilde, película que estreou em novembro de 1975 – ainda no rescaldo da Revolução dos Cravos e pouco menos de um ano e meio após a estreia, em 13 de julho de 1974, da peça de Brecht encenada em Portugal por Luís Miguel Cintra e Jorge Silva Melo. Mas à primeira vista poderia, de fato, parecer inoportuno propor, em momento de efervescência revolucionária, um filme de interesse psicológico, “de um certo realismofantástico”, cuja protagonista, uma jovem sonâmbula pertencente à burguesia rural do Alentejo na década de 1930, descobre-se grávida, sem mais nem menos, por intervenção divina, segundo ela crê; por mais atraente que pudesse ser “o lado visual e cinematográfico da história”, “os passeios noturnos” da protagonista sonâmbula “de vela na mão pelos corredores do solar, e essas coisas fantasmagóricas” que não chegam a ganhar corpo na peça homônima de José Régio, mas que aparecem significativamente no filme, por mais atraentes que fossem, do ponto de vista cinematográfico, tais fantasmagorias e ainda a oportunidade de atuar num filme de Manoel de Oliveira, a Luís Miguel Cintra parecia mais urgente aproveitar o ímpeto revolucionário daquele momento histórico para confrontar ideologias e encaminhar o trabalho de pôr Portugal “em termos e em paz”.


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