A Traição das Palavras

por Caio Cesar Esteves de Souza

        Há alguns autores que são velhos conhecidos de muitos leitores, embora pouquíssimo lidos e até mesmo um tanto temidos por eles. Denis Diderot (1713-1784) entra nesse rol de escritores cujos nomes todos conhecemos e cujas obras raramente lemos, talvez por não sabermos muito bem como nos aproximarmos de seus textos. Conhecido por coordenar com D’Alembert (1717-1783) a escrita da Encyclopédie, condenada como subversiva pelo parlamento francês, perseguida por Luis XV e incluída no index da Igreja Católica pelo Papa Clemente XIII em 1759, Diderot produziu obras em diversas áreas das humanidades, sobre os mais variados temas.

Deparado com os muitos volumes dessa obra, o leitor interessado e não-especializado nas letras francesas do século XVIII pode se intimidar e achar que é necessário desenvolver um conhecimento específico das doutrinas estéticas, políticas e filosóficas correntes naquele tempo para que possa estabelecer algum contato interessante com esses textos. Embora esse conhecimento seja muitíssimo relevante para estudos acadêmicos, os textos de Diderot não impõem essa barreira a leitores que se interessem por ter um primeiro contato com essas obras. Para demonstrar isso, neste post vou propor um diálogo arbitrário e artificial entre o conto “Isto Não É um Conto”, presente no segundo volume da compilação das obras de Diderot organizada por Jacó Guinsburg e editada pela Perspectiva, e o famoso quadro de René Magritte (1898-1967) A Traição das Imagens.  

A traição das imagens

A grosso modo, duas histórias são narradas, com o objetivo de ilustrar duas máximas morais: há homens muito bons e mulheres muito más; e há mulheres muito boas e homens muito maus. Em geral, os opostos se atraem, para a desgraça dos bons, que se veem arruinados após se envolverem nessas relações. A primeira máxima é demonstrada pela história do amor de Tanié pela Sra. Reymer, enquanto a segunda se demonstra pelo amor da adorável Srta. La Chaux por Gardeil. Ambas  apresentam a mesma estrutura e repetem os mesmos lugares-comuns: o amor leva o homem e a mulher virtuosos a um esforço radical para satisfazer às necessidades emocionais e financeiras de seus parceiros, que se aproveitam deles a um ponto extremo. Tais abusos culminam na morte de Tanié na Rússia tentando garantir que a Sra. Reymer tivesse as riquezas que desejava e no adoecimento da Srta. La Chaux após Gardeil demonstrar sua profunda repulsa por ela, depois de anos de incessante dedicação aos desejos e necessidades do médico.

Embora essas histórias possam interessar ao leitor, quero chamar a atenção aqui a outro aspecto mais pertinente ao diálogo que estou propondo neste post: logo no início do texto, o narrador afirma que, quando se conta um conto, “é raro que o contador não seja interrompido algumas vezes por seu ouvinte” e que, por isso, decidiu introduzir “uma personagem que faça mais ou menos o papel do leitor”, interrompendo constantemente a narração das histórias (p.307). Isso é interessante porque nos indica algumas coisas logo de cara: em primeiro lugar, esse texto está efetivamente interessado em simular um diálogo oral (como, a propósito, quase todos os textos deste volume das Obras de Diderot); em segundo, a ideia de que o papel do leitor é interromper o conto, e não ouvi-lo silenciosamente de forma passiva, como comumente pensamos; por último, parece propor uma certa naturalidade dos contos, não pensados como textos artificialmente produzidos em determinado gênero literário, mas como “causos” narrados a conhecidos que palpitam sempre que acham que devem.

De fato, as histórias são sistematicamente interrompidas pelo interlocutor de nosso narrador. Essas interrupções são muitas vezes debochadas, indicando que o relato é uma repetição de várias outras narrativas já conhecidas. Por vezes, são interrupções como aquelas que às vezes encontramos nos diálogos platônicos, em que os interlocutores de Sócrates falam apenas para concordar com o filósofo e pedir que ele siga desenvolvendo o argumento que, não houvesse a interrupção, já teria sido desenvolvido. No entanto, elas ficam mais complexas durante o texto, e há um momento específico em que o narrador interrompe o conto para relembrar a anedota de uma paixão de seu interlocutor pela cortesã Deschamps. Ele imediatamente pede que se prossiga com a história contada antes (e que fora interrompida por esse mesmo interlocutor, ao questionar o motivo de La Chaux ter se apaixonado perdidamente por Gardeil, se ele não era homem de posses, beleza ou talentos extraordinários).

O narrador demonstra um certo sadismo, ao recusar os vários pedidos para abandonar o relato do caso de Deschamps e voltar a contar o que aconteceu com La Chaux e Gardeil.

        – E foi isto [= esse homem desinteressante] que virou a cabeça de uma moça encantadora?

            – E isto vos surpreende?

            – Sempre.

            – Vós?

            – Eu.

            – Mas vós não mais vos lembrais pois de vossa aventura com a Deschamps e o profundo desespero em que tombastes quando esta criatura vos fechou a porta?

            – Deixemos isso; continuai.

            – Eu vos dizia: ‘Ela então é muito bonita?’ E vós me respondestes tristemente: ‘Não’ (…)

            – Mas a Srta. de La Chaux?

            – A honesta, a sensível Srta. de La Chaux esperava, por instinto, à sua revelia, a ventura que vós conheceis e que vos fazia dizer da Deschamps ‘Se esta desgraçada (…) se obstina em me expulsar de sua casa, eu pego uma pistola e me estouro o cérebro em sua antecâmara’. Vós lhe dissestes isto ou não?

            – Eu lhe disse, sim, e mesmo agora não sei por que não o fiz.

            – Concordais, portanto.

            – Concordo com tudo o que vos aprouver.” (p.315).

Depois dessa interrupção sádica do próprio narrador, as intervenções que o interlocutor fará durante o texto demonstram todas um profundo interesse na narrativa e até mesmo em suas implicações morais.

Lembro, de volta às primeiras frases desse conto, que o narrador nos diz com todas as letras que o personagem com quem dialoga foi artificialmente inserido no texto para que simulasse o nosso papel, enquanto leitores. As interrupções que ele faz, portanto, são aquelas que o autor supõe que nós faríamos, caso ouvíssemos à história diretamente, sem o intermédio do papel e dos mais de duzentos anos que nos separam. Somos seu interlocutor. Esse ato de insistência em causar constrangimento pode ser visto, também, como uma tentativa de nos constranger, enquanto leitores, lembrando-nos que todos somos dominados em algum momento pelos caprichos de um amor que não precisa de justificativas racionais para conduzir uma pessoa à sua ruína. Todos temos nossa Deschamps ou nosso Gardeil. Ao assumir as rédeas da interrupção e nos atacar, enquanto seus interlocutores, fazendo-nos reviver o constrangimento desses amores passados, o narrador não nos deixa outra alternativa além de demonstrar um profundo interesse pela narrativa exemplar de Gardeil e de La Chaux, para que o ataque cesse e para que possamos compreender as implicações morais dessa história que é, também, nossa. 

Denis Diderot
Retrato de Denis Diderot, por Louis-Michel van Loo – 1767

 

O texto transcende, assim, o que se espera de um conto: a moldura que garante que o conto seja um texto puramente ficcional é rompida, quando o narrador nos faz ocupar a posição de seu interlocutor. Esse texto assume explicitamente o papel filosófico de definir as possíveis relações amorosas entre pessoas viciosas e virtuosas, ultrapassando os limites de um conto. O leitor se vê aprisionado pela traição das palavras, assim como quem observa o quadro de Magritte se vê posto diante do abismo de tentar entender o paradoxo do desenho de um cachimbo com a inscrição “isto não é um cachimbo”. O desenho de Magritte é muito simples, não apresenta ambiguidade ou complexidade de associação com o signo “cachimbo”. Da mesma forma, o conto de Diderot não faz experimentações formais que nos levem a questionar o aspecto ficcional daquele texto. O título do conto, assim como a frase de Magritte, parece um gracejo do autor, sem maiores implicações em nossa leitura. Tanto o texto de Diderot quanto o quadro surrealista podem ser entendidos, portanto, como um jogo com as molduras que garantem seu aspecto de representação. Tradicionalmente, ao narrar uma história, o contista quer envolver o seu leitor e fazer com que ele se esqueça inclusive do aspecto ficcional do conto. Um quadro que representa um objeto tradicionalmente busca que o seu observador identifique, na representação, o próprio objeto representado. Ao explicitar o artifício de incluir uma personagem para nos mimetizar, Diderot propõe um protocolo de leitura que nós, leitores habituados às narrativas tradicionais, decidimos ignorar. Magritte, ao negar a representação da imagem por meio de sua legenda, força o observador a compor seu próprio protocolo de leitura diante do aparente nonsense daquela informação paradoxal. Nos dois casos, o leitor se vê traído diante das palavras de Diderot e da tinta da Magritte, e é impelido a lidar com os efeitos dessa traição como lhe convier.

Esta interpretação do conto de Diderot é uma entre infinitas leituras possíveis. Certamente apresenta anacronismos ao aproximar coisas tão distantes em suas propostas e em seus tempos. Ao leitor acadêmico, cumpre desviar desse tipo de anacronismo para resgatar os sentidos que esse texto poderia ter em sua época. Ao leitor que se interesse puramente pela fruição de grandes textos sem um comprometimento de desenvolver pesquisas acadêmicas, cabe aproveitar ao máximo todas as possibilidades de interpretação desse e de outros contos e textos de estética e poética compilados no segundo volume das obras de Diderot. O mar de possibilidades de sentido é virtualmente infinito. Convém a esse leitor explorá-lo ao máximo, sem medo de cruzar a fronteira dos séculos.


 

3 comentários sobre “A Traição das Palavras

  1. Infelizmente hoje poucos, lêem ou conhecem texto, filosóficos ou pouco saberão que, foi, Sócrates, Platão, Aristóteles ou mais recente Sartre, ou intermediário de ambos Shakespeare, mas gosto do texto Caio, sim é interessante a narrativa de um conto sendo interrompida, pelo pseudo ouvidor.

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  2. Texto convidativo à leitura de Diderot.
    Nada arbitrário para mim, fazendo todo sentido às questões do meu dia.
    Grata pelo sincronismo.

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