Com Tinta Vermelha: uma Intersecção entre Memória, História e Ficção

por Juliana Eliezer

Na nona de suas “Teses sobre o conceito de história”, de 1940,  Walter Benjamin examina o desenho expressionista Angelus Novus, do pintor alemão Paul Klee, que retrata um anjo de asas abertas, apresentado como se olhasse para o exterior do quadro, e cuja expressão é de inquietude. O “anjo novo” deveria ser o mensageiro de um novo tempo; entretanto, diz o crítico e filósofo alemão, olha desassossegado para o passado, que não é senão um amontoado de escombros e ruínas. A vontade do anjo é a de parar para reconstruir esses fragmentos, mas não pode, já que uma ventania forte e irresistível o arrasta para o futuro. É a tempestade do progresso, que faz acumular escombros “até o céu” numa velocidade e intensidade tais que se torna impossível reconstruí-los. Se o movimento da História provoca o acúmulo de ruínas, para Benjamin, é tarefa do artista a tentativa de reerguê-las. 

Klee,_Angelus_novus.png
Angelus Novus, Paul Klee.

Com Tinta Vermelha trata dessa reconstrução. A autora, Mireille Abramovici (1944-2016), cineasta e montadora cinematográfica franco-romena pouco conhecida no Brasil, propõe-se a resistir à inexorabilidade do tempo e do furor histórico, partindo de vestígios — cartas, documentos, entrevistas, registros oficiais e não oficiais — para reconstruir seu próprio mundo, preenchendo as lacunas remanescentes com um amálgama ficcional feito de seus sonhos, de sua própria versão do que aconteceu e daquilo que ela desejava que tivesse acontecido. Seu pai, Izu, soldado e violinista judeu que, dizia-se, era membro da resistência na França, foi preso pela Gestapo e deportado 10 dias antes que ela e sua irmã gêmea nascessem. A peregrinação de Mireille Abramovici pela Europa em busca dos lugares de memória que lhe levassem ao fio condutor de sua própria história culminou na Lituânia, no chamado Forte IX, onde seu pai fora assassinado pelo Terceiro Reich com outros 877 homens. Antes disso a autora já esmiuçara Paris, a Côte D’Azur, a Suíça e a Alemanha (descrita como um lugar sinistro e inóspito), em busca de qualquer documento ou relato que a ajudasse na montagem do quebra-cabeças. Todo o trabalho rendeu primeiro um filme-documentário, Dor de tine (2001), expressão romena intraduzível que significa, em linhas gerais, uma saudade muito intensa, terrível. Com Tinta Vermelha, concebido 13 anos depois, reforça a ideia de que esta história trata de uma saudade especial: não só do pai, que Abramovici por pouco deixou de conhecer, mas também de tempos por ela não vividos, de quando os pais eram jovens amantes cheios de esperança, de quando tocavam juntos o violino e o piano, de quando levavam a filha mais velha à confeitaria em Nice. Alicerçada em documentos e baseando-se na própria imaginação (e portanto criando sua própria verdade) coloca-se no papel de observadora a posteriori, quase de uma profetisa do passado que, ao final, frustra-se por não ser capaz de voltar no tempo e avisar aos pais que os nazistas estão prestes a bater à sua porta.

Abramovici faz, assim, uma reconstrução imperfeita, uma espécie de trabalho arqueológico, que lida não com matéria, mas com memória, não apenas como maneira de lembrar o passado, mas principalmente de recusa ao esquecimento e resistência à catástrofe do Holocausto, que tantas famílias levou e tantos mundos dizimou. Sem esse esforço de memória, compartilhado por outros autores tais como Aharon Appelfeld, falecido em 2018, o legado dessas famílias e desses mundos teria sido aniquilado com eles. Como acontece com a interpretação do anjo de Paul Klee dada por Walter Benjamin, o passado também promove desassossego em Abramovici. Ela tem sonhos terríveis, sonha com tempestades, quiçá as mesmas que levaram consigo o Angelus Novus. Resiste, contudo, para narrar não a história de sua família, mas aquilo que os fragmentos lhe permitem recontar. P32 PR-1 (Capa) ComTintaVermelha.indd

O restante da família sobreviveu graças à dedicação da mãe da autora, Sissi, que escondeu as três filhas numa casa para crianças no interior da França, enquanto esforçava-se pela sobrevivência entre esmolas, faxinas e trabalhos como pianista. Após o final da Segunda Guerra, lhes foi possível retornar a Paris, mas mesmo quando  em segurança, Sissi jamais conseguiu dizer senão poucas palavras a respeito de seu marido desaparecido – era a “dor de tine” que também a atingia. No lugar de falar, conservou a “caixa azul”, repleta de fotos, cartas e documentos, dos quais a autora pode partir para desenvolver seu exercício de reedificação da memória tanto da família quanto da tragédia que acometeu milhões. Através dessa intersecção entre memória, história e ficção, realizada pela autora em linguagem literária que beira a cinematográfica — em descrições breves dos cenários e sentenças curtas que se assemelham às de roteiros –, faz-se voltar à vida uma família franco-romena que, sob a ótica do leitor, talvez jamais houvesse existido, tal qual tantas outras famílias, tal qual o mundo judaico da Mitteleuropa, berço de Izu e Sissi, quase totalmente extinto pelo esforço nazista durante a Segunda Guerra. Se aqui a autora representa o mesmo anjo descrito por Benjamin, saiu-se melhor, tendo a habilidade de recontar aquilo que, hoje, só os mortos efetivamente saberiam testemunhar.


 

Um comentário sobre “Com Tinta Vermelha: uma Intersecção entre Memória, História e Ficção

  1. O artista, assim como o filósofo, não tem conseguido dar conta da realidade. Então, ambos vão consertando o que podem, mas não sem deixar restos que se acumulam mais rapidamente do que os consertos que fazem. 😦

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