Poesia de Facebook e Outras Maravilhas do Capitalismo Tardio

Yuri Wittlich Cortez

        Quando eu estava no segundo ano da faculdade, acho que há uns três mil anos já, pegamos pra ler “Narrar ou Descrever?” do Georg Lukács. Recomendo a leitura a qualquer pessoa que goste de literatura; é um ensaio em que Lukács compara as cenas de corrida de cavalos em Ana Karenina e Naná, e demonstra como a posição social dos dois autores interviu no modo como as corridas se amarraram às tramas de cada história: Tólstoi, filho da decadente nobreza russa, arrastado pelo turbilhão que a emergência capitalista provocava nas estruturas feudais de seu país, participou ativamente deste processo, como soldado, como filósofo, fundando escolas para os filhos dos camponeses, e dessa posição escreveu um romance narrativo e dramático, que convidava o leitor a participar das tragédias humanas que a modernidade em ebulição provocava. Zolá, por outro lado, encontrava-se em uma Paris onde o capitalismo e a modernidade já se haviam assentado: a divisão do trabalho estava mais bem estabelecida, e ele era, mais do que qualquer coisa, um escritor profissional. Disto resulta um método de escrita inverso ao de Tolstói: ele não era um participante de processos políticos e existenciais a respeito dos quais escrevia, ele era um observador: para escrever sobre teatro, instalava-se uns meses junto a uma companhia artística, para escrever sobre a vida nas minas, vivia e trabalhava por um tempo com os mineiros. Sua literatura era descritiva e pictórica, demonstrando ao leitor as mazelas humanas por meio de descrições “monográficas”, nas palavras de Lukács. A literatura do observador é, segundo o filósofo, menor que a literatura do participante: ela é incapaz de retratar em profundidade o drama dos seres humanos; ela não apresenta cenas em sucessão dramática entre si, antes naturezas mortas umas ao lado das outras; ela, por retratá-los apenas em sua superfície, suaviza os horrores do capitalismo, apesar de suas intenções em contrário.

Aquela foi a primeira vez da minha vida em que me dei conta da intimidade que havia na relação entre quem escreve e o que é escrito. Não se enganem, eu era um pretendente a escritor desde muito moleque, e já adorava – ainda adoro – estórias, como Shakespeare Apaixonado e coisas assim, que falavam sobre o autor ou autora se inspirando em eventos de seu cotidiano para produzir obras de arte sublimes e não sei quê. Mas a relação que Lukács propunha era muito mais completa e complexa que os filmes gostosinhos de Hollywood me faziam acreditar.

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Fonte: capa do livro “Diário de um Corpo”, de Daniel Pennac. (Ed. Rocco, disponível em http://www.rocco.com.br)

Dessa época e dessa leitura tirei um medo muito grande de me tornar um “escritor profissional”; eu queria ser um Tólstoi, vivendo o turbilhão do mundo e escrevendo sobre o que vivia, não um Zolá, sentado no cantinho dos escritores com um caderno de notas e recebendo um trocado pra isso; mesmo sem entender muito bem ainda as sutilezas da sociologia, a ideia de que minha literatura pudesse, de alguma forma, ser mais uma extensão do funcionamento do “sistema”, de que minha atuação como escritor estivesse perfeitamente conformada à divisão do trabalho, horrorizava muito aquele meu eu de vinte anos, que ainda compartilhava com o meu eu de quinze pelo menos um pouco da radicalidade inconformista da adolescência. 

Saltamos quase uma década para o futuro: Uns meses atrás, acho que no finalzinho do ano passado, eu estava tendo uma conversa – pela internet, mas ainda assim conversa – com a Samanta Esteves, uma poeta de cujo trabalho eu gosto muito, e mais uma amiga dela, em que as duas me explicavam algumas impressões que tinham a respeito do estado corrente da poesia – ou, antes, da poetada em geral. A comparação que acendeu a conversa foi justamente a da semelhança crescente entre a atuação de alguns poetas e a dos “promoters”. Em busca de relevância no mundo digital, os artistas se convertem em marqueteiros de si mesmos, abrindo margem para um ambiente em que a poesia vai para o segundo plano; ao invés de se fazer poesia e de se falar sobre poesia, predomina o puxa-saquismo, a autopromoção, e a presença obrigatória em “eventos literários”. Militância ou quebras aleatórias de linha maquiam textos que tentam convencer seu leitor mais pelo valor sentimental ou de “lacração” que pelo valor estético propriamente.

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Fonte: Instagram

A conversa enveredou para mais um monte de caminhos, e em algum momento me recomendaram a leitura de O Prazer do Texto, do Roland Barthes. A Samanta, que além de poeta é pesquisadora, e trabalha justamente com a obra do Barthes, tinha mesmo a impressão, se me lembro bem, que a leitura do livro viria a calhar também para os próprios poetas-promoters, para ajudá-los a colocarem melhor sua poesia em perspectiva. Então eu fui lá e li.

O Prazer do Texto não é de forma alguma um manual para a poesia – não poderia estar mais longe disso. De fato, eu hesitei bastante, antes de começar este texto, a respeito do formato adequado para comentar um livro dessa natureza: o próprio Barthes nos diz que, sobre um texto que não se entrega facilmente, que exige a leitura comprometida e por vezes mesmo exaustiva, não se pode escrever uma crítica simplesmente: “não se pode falar “sobre” um texto assim, só se pode falar “em ele”, à sua maneira”. No entanto, minha obrigação profissional aqui – o meu eu de vinte anos estaria decepcionado – é a de redigir um texto para que vocês, leitores queridos, se sintam encorajados a lutar contra o texto de Barthes, e provavelmente vocês estariam menos animados se, antes, tivessem também que lutar com o meu.

Mas a poesia não pode estar querendo convencer ninguém a nada, e não pode facilitar seu discurso para se amigar do leitor, e para nos lembrar disso o opúsculo de Barthes serve muito bem. Ele nos instiga a procurar o erótico e a fruição no texto que nos fere, nos “raspa” e nos “acaricia”. Ele é uma proposta estética que se apresenta como quase inevitável diante do mundo da profissionalização da classe artística: antes desta profissionalização, como nos diz Lukács, artistas de todos os ramos eram viventes da modernidade em ebulição, que a representavam; uma vez que se estabelece a cultura de massa, eminentemente pequeno-burguesa conforme Barthes, uma vez que os e as artistas têm uma função social não só cristalizada, como coerente com o funcionamento do todo, à poesia só resta buscar o lugar além da cultura – não a “destruição da cultura” em si, mas uma “fenda” entre o lugar da cultura e o lugar de sua destruição. 

Eu tenho a impressão de que a poesia de autopromoção, e lacração, e versos quebrados à toa, é uma perfeita manifestação desta cultura capitalista tardia que insiste em continuar decaindo, mas parece não acertar nunca um fundo do poço em que se despedaçar: O que faz um poeta, mais que a poesia, é sua representação enquanto poeta nas redes sociais do momento – assim como as relações humanas têm hoje em dia muito mais de representação nas redes sociais do momento que gestos concretos e próximos; encontramos os poetas um nicho não só na divisão social do trabalho, mas uma auréola nova e estranha – um século e meio depois de Baudelaire – nas correntes de uatesape e festas literárias. Aos que escrevemos e lemos, talvez valha a pena lutar contra o texto de Barthes para encontrar, por ali, vislumbres da poesia possível. Aos que poetizam, talvez valha a pena, neste mundo de autoafirmações excessivas, distorcer revolucionariamente o verso revolucionário de Cecília Meirelles, e sempre que perguntados, insistir: “não sou poeta”.            

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