O Diário de Korczak Entre Testemunhos

Rafael Rocca

Será que ninguém teve a ideia de colecionar as experiências ou as confissões das pessoas, todas essas cartas e diários escritos nos campos de concentração e prisões, testemunhos daqueles sobre quem pesa uma sentença de morte ou daqueles que relatam as emoções da véspera de uma grande batalha, da Bolsa ou de uma casa de jogo?

Korczak, 2017, pp. 94-95.

        Janusz Korczak hoje é lembrado como um exemplo vivo de um ser humano voltado para a humanidade, especialmente em épocas de intensa crise e perseguição, época a qual ele mesmo viveu intensamente. Médico de profissão, porém educador por vocação, Korczak interessou-se desde a juventude por temas relacionados à educação das crianças tendo em vista uma percepção mais cuidadosa do indivíduo em relação ao outro. Neste breve ensaio, traçaremos alguns comentários acerca de seu diário, publicado por esta editora Perspectiva, em reedição de 2017.

Primeiramente, para melhor compreender as condições nas quais o breve diário foi escrito, e essas condições até certo ponto determinam os pensamentos que estão dispostos no diário, valem algumas notas históricas acerca da situação político-social dos judeus poloneses na cidade de Varsóvia, localidade em que Korczak foi atuante.

KorczakStamp
Selo comemorativo em homenagem a Korczac. Israel, 1962

A Polônia foi invadida no dia primeiro de setembro de 1939 pelos alemães em uma cena posta em palco por ordens do escritório central do Reich. Essa cena consistia em um suposto soldado alemão morto na fronteira com a Polônia, o que fez com que os soldados nazistas marchassem fronteira adiante para dar início ao conflito que se tornaria um dos mais sangrentos, se não o mais, da história do século XX. Em menos de um mês, o exército de Hitler solapou o relativamente fraco exército polonês, instaurando imediatamente medidas que transformavam o território daquele país em uma extensão do Reich em conluio com a União Soviética, que se tornou possuidora de uma porção de seu território. Afora o discurso de obtenção de um “espaço vital” para que a Alemanha pudesse prosperar, os nazistas consideraram o território polonês como uma espécie de depositório para a alocação de populações consideradas “problemáticas” (principalmente judeus, mas também ciganos, associais, homossexuais e outros) para a ideologia e para o alto escalão do partido. Assim, populações judaicas inteiras da Alemanha e de outras localidades seriam deslocadas à força para o que se tornou o “Governo Geral” sob o comando de Hans Frank, um antissemita de antiga data que se tornaria um dos pivôs para o morticínio de judeus europeus, e especialmente por ordem direta, de 21 de setembro de 1939, de Reinhard Heydrich, chefe do departamento de segurança do Reich.

Uma das medidas logísticas para abordar o “problema” que representavam as populações de judeus foi a criação de zonas de concentração judaicas nas cidades polonesas que, antes da guerra, detinham um grande número de judeus, assimilados ou não. O historiador Christopher R. Browning identifica três grandes ondas de criação de zonas de concentração, denominadas contemporaneamente de “guetos”: Łódz na primavera de 1940, Varsóvia no outono de 1940, e Cracóvia na primavera de 1941 (BROWNING, 2005, p. 137). É no gueto de Varsóvia que se encontrava Janusz Korczak.

Graças a um esforço monumental de algumas pessoas, cartas, diários e testemunhos escritos sobreviveram à catástrofe que foi o gueto. Entre os diários canônicos de que dispomos hoje, pode-se citar o de Mary Berg (publicado no Brasil pela editora Amarilys em 2009), o de Adam Czerniaków (infelizmente sem tradução para o português), os registros do arquivo do historiador Emanuel Ringelblum (tradução antiga portuguesa de 1964), os escritos de Marek Edelman (sem tradução para o português, publicado na Espanha sob o título También hubo amor en el gueto, 2013), e o diário de Korczak (publicado pela editora Perspectiva). Mary Berg aponta em seu diário a vida cotidiana no gueto, relatando em pormenores as dificuldades enfrentadas pelos moradores. O diário de Czerniaków tem uma importância singular para a literatura relacionada à Shoá pelo fato de seu autor ter sido nomeado e atuado como o representante da comunidade judaica (Judenrat) dentro do gueto, servindo como o intermediário entre as ordens alemãs e a população judaica confinada em Varsóvia. Seu diário relata as vicissitudes da vida cotidiana do gueto, bem como denuncia à posteridade as condições horrorosas de vida da população encarcerada dentro dos muros. Ringelblum, por sua vez, resolveu estabelecer uma rede de pessoas que se dispuseram, por um altíssimo risco, a documentar tudo o que pudessem sobre a vida no gueto e as medidas tomadas pelos alemães; o resultado é uma extensa compilação que ia de bilhetes a escritos literários produzidos pelos habitantes do gueto e secretamente guardados, felizmente, para a posteridade. O escrito de Marek Edelman, um dos líderes da revolta do gueto de Varsóvia em 1944, oferece uma perspectiva completamente diferente das demais: ao invés de se concentrar nas mortes e nas desgraças, o livro se concentra nas histórias felizes que aconteceram no meio da tragédia. O diário de Korczak, no entanto, é singular entre todos esses outros.

O Diário do Gueto cobre um período curto: inicia-se em maio de 1942 e sua última entrada é de 4 de agosto do mesmo ano. Não está organizado em dias exatos; contém uma série de pensamentos e reflexões acerca da posição do homem no mundo e, particularmente, reflete a posição desse homem em meio ao confinamento e à catástrofe. O homem público Korczak, educador humanista e médico, cede lugar ao homem íntimo, amante da noite e dos pensamentos que ela incita. Naturalmente, sua experiência como diretor de um orfanato dentro do gueto está refletida e comentada, principalmente ressaltando as dificuldades apresentadas pela escassez, tema que perpassa seus pensamentos, e pelas barreiras, físicas e psicológicas, da vida em confinamento.Diario do Gueto_Capa

No entanto, o que salta aos olhos à leitura é a profundidade com que as divagações, a uma primeira vista aleatórias, são condizentes com o caos do mundo à sua volta. Comida, doença, pão, atitudes cotidianas, suicídio, eutanásia, contos infantis, picuinhas diárias, fome, miséria e o futuro são temas que se entrelaçam com uma fluidez e naturalidade que somente ao fluxo de consciência é permitido: “Esse recolhimento, esta liberdade, este conto de fadas entremeado com o cinzento da vida cotidiana” (p. 35). A liberdade a que se refere Korczak não é, obviamente, a física: é a liberdade propugnada por ele em relação a uma educação que visa ampliar as fronteiras da criança e fazer com que ela observe o mundo à sua volta como responsabilidade, não somente como ferramenta para o desenvolvimento. Recolher-se também faz parte do cotidiano do gueto: desumanizadas, as pessoas buscam no individualismo da sobrevivência uma forma de se manterem tão sãs quanto possível em um mundo tornado ao avesso: “Li em algum lugar que não há nada com que as pessoas se habituem mais facilmente que a desgraça alheia” (p. 45).

Mais do que relatar os acontecimentos cotidianos, Korczak buscou refletir sobre eles, devanear em suas noites em claro sobre uma tentativa de buscar um significado para tudo aquilo que estava acontecendo. Por isso, sonha com o “astropsicomicrômetro”, em um conto entremeado ao fluxo de pensamentos, inventado pelo hipotético professor Ro para “regular a energia psíquica e de mudar raios térmicos em raios espirituais ou mais exatamente em raios morais” (p. 87). Buscar no cosmo exterior a resposta para o caos presente: o mesmo movimento de buscar na educação humanizadora a resposta para transformar o caos instaurado em paz, talvez. Em meio a seus pensamentos, Korczak se revelou, como cabe a qualquer educador, uma pessoa de visão prospectiva: imaginou um mundo dominado pelas máquinas, ou seja, pelo automatismo que se verifica cancelando a proximidade humana: “Não há mais necessidade de trabalhar fisicamente: é a máquina que distribui alojamento, alimento, vestuário. Não somos mais que administradores. / Novos métodos de cultura e de pecuária. Novos produtos sintéticos. A colonização das terras até agora inacessíveis, como as do equador e dos polos, abre novas possibilidades demográficas: o número de habitantes da Terra poderá atingir cinco bilhões” (pp. 103-104). Em meio a nosso tempo conturbado, em que o antissemitismo e novos movimentos irracionais estão ressurgindo, a leitura do diário de Korczak se faz quase clarividente. Quem Foi Janusz Korczak [EL 56]

Korczak não sobreviveu ao mundo assassino do Terceiro Reich. Seu diário termina em 4 de agosto de 1942, momentos antes de a Operação Reinhard, deflagrada pelo homicídio do assassino Reinhard Heydrich em Praga em 4 de junho de 1942, ser posta em prática. Korczak viu-se diante da deportação de todos os seus órfãos e resolveu não os abandonar: de mãos dadas com um deles, rumou ao trem de carga a caminho do campo de extermínio de Treblinka e à morte no dia seguinte (5 ou 6 de agosto de 1942).

Por fim, a interpretação do mundo disposta no diário o estabelece como um dos documentos históricos mais relevantes para o estudo e tentativa de compreensão da Shoá. De um ponto de vista subjetivo, vai além dos acontecimentos rumo a uma tentativa de entendimento do mundo ao redor. É um testemunho vivo, atual, do que o ódio pode causar mediado por uma ideologia totalizadora. Presta-se homenagem, portanto, àqueles que resolveram colecionar essas “experiências e as confissões das pessoas” para dar testemunho às “sentenças de morte” que pairaram sobre as cabeças de tantas vítimas.


Dois testemunhos dos últimos momentos de Janusz Korczak:

Władysław Szpilman, O pianista.[1]

Um dia, por volta de 5 de agosto, quando eu fizera uma pausa do trabalho e estava andando pela rua Gęsia, vi Janusz Korczak e seus órfãos saindo do gueto.

A evacuação do orfanato judeu dirigido por Janusz Korczak havia sido ordenada para aquela manhã. As crianças deveriam ser levadas sozinhas. Ele teve a chance de se salvar, e foi com dificuldade que persuadiu os alemães a levarem-no também. Ele passara longos anos de sua vida com crianças, e agora, nessa última viagem, não as deixaria sozinhas. Queria aliviar as coisas para elas. Disse aos órfãos que estavam indo para o campo, então deveriam ficar animados. Finalmente seriam capazes de trocar os muros horríveis e sufocantes da cidade pelas pradarias de flores e riachos onde poderiam se banhar, bosques cheios de frutinhas e cogumelos. Ele lhes disse para usar suas melhores roupas, e assim elas entraram no pátio, duas a duas, bem-vestidas e de bom humor. A pequena coluna era conduzida por um homem da SS que amava crianças, como os alemães as amam, até mesmo aquelas que ele estava prestes a ver a caminho do próximo mundo. Gostou especialmente de um garoto de doze anos, um violinista que trazia seu instrumento sob o braço. O homem da SS disse-lhe para ir à frente da procissão de crianças e tocar – e assim eles partiram.

Quando eu os encontrei na rua Gęsia, as crianças sorridentes estavam cantando em coro, o pequeno violinista estava tocando para elas, e Korczak estava carregando duas das menores crianças, que também estavam radiantes, contando-lhes alguma história divertida.

Tenho certeza de que, até mesmo na câmara de gás, à medida que o Zyklon B estava sufocando gargantas infantis e provocando terror ao invés de esperança no coração dos órfãos, o Velho Doutor [apelido de Korczak] deve ter sussurrado em um último esforço: “Está tudo bem, crianças, tudo ficará bem”, para que, ao menos, ele pudesse poupar seus protegidos do medo de passar da vida para a morte.

Joshua Perle[2]

As crianças estavam vestidas com suas melhores roupas, e cada uma carregava uma trouxa azul e um livro ou brinquedo favorito. Elas andavam em filas de quatro com Korczak à sua frente. Isso não era uma marcha para um vagão de carga, mas um protesto silencioso, disciplinado, contra o assassinato… Um milagre ocorreu. Duas centenas de crianças não gritaram. Duas centenas de almas puras, condenadas à morte, não choraram. Nenhuma delas fugiu. Nenhuma tentou se esconder. Como andorinhas abatidas, elas se agarraram a seu professor e mentor, a seu pai e irmão, Janusz Korczak, para que ele pudesse protegê-las e preservá-las. Janusz Korczak estava marchando com sua cabeça inclinada para frente, sem chapéu, um cinto de couro em torno de sua cintura e usando botas de cano alto, segurando a mão de uma criança. Algumas enfermeiras eram seguidas por duas centenas de crianças vestidas em roupas limpas e meticulosamente cuidadas, como se estivessem sendo levadas ao altar. Por todos os lados, as crianças estavam cercadas por alemães, ucranianos, e também pela polícia judaica do gueto. Eles as chicoteavam e tiros eram dados na direção delas. Até as pedras da rua choraram com a visão da procissão. De acordo com uma lenda popular, quando o grupo chegou finalmente na Umschlagplatz [ponto de embarque ou reunião], um oficial da SS reconheceu Korczak como o autor de um de seus livros infantis favoritos e ofereceu-lhe escapar. Segundo outra versão, o oficial estava agindo oficialmente, pois as autoridades nazistas tinham em mente algum tipo de tratamento especial para Korczak. Seja qual for a oferta, Korczak novamente a recusou. Ele embarcou nos trens com as crianças e nunca mais se ouviu falar dele.

[1] Władysław Szpilman, The pianist. Grã-Bretanha: Picador, 2000. (edição digital)

[2] Citado em: Gita Arian Baack, The Inheritors: moving forward from generational trauma. Phoenix: She Writes Press, 2017. (edição digital)


REFERÊNCIAS E SUGESTÕES DE LEITURA
ARNON, Joseph. Quem foi Janusz Korczak?. São Paulo: Perspectiva, 2005.
BERG, Mary. O diário de Mary Berg: Memórias do Gueto de Varsóvia. São Paulo: Manole/Amarilys, 2009.
BROWNING, Christopher R. The Origins of the Final Solution: The Evolution of Nazi Jewish Policy 1939-1942. Londres: Arrow Books, 2005.
EDELMAN, Marek. También hubo amor en el gueto. Trad. Agata Orzeszek. Barcelona: Galaxia Gutenberg, 2013.
HILBERG, Raul et al. The Warsaw Diary of Adam Czerniakow. Trad. Stanislaw Staron e membros do Yad Vashem. Chicago: Elephant Paperbacks, 1999.
KORCZAK, Janusz. Diário do Gueto. Trad. Jorge Rochtlitz. São Paulo: Perspectiva, 2017.
REES, Laurence. O Holocausto: uma nova história. Trad. Luis Reyes Gil. São Paulo: Vestígio, 2018.
RINGELBLUM, Emanuel. Crônica do ghetto de Varsóvia. Lisboa: Morais, 1964.


 

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