Metáforas Espaciais, Saber e Poder

Com “intuição radical”, Michel Foucault conceitua a escrita como “coisa de espaço”, abrindo uma nova perspectiva para o entendimento da linguagem.

De Hölderlin a Heidegger, a linguagem sempre esteve ancorada na ideia do tempo. Em Foucault e a Linguagem do Espaço, Tomás Prado explora a ideia fundamental de que é o espaço, e não o tempo, um dos elementos norteadores da relação entre linguagem, saber e poder, como acreditava um dos pensadores mais transgressivos do século passado. Partindo de “A Linguagem do Espaço”, um pequeno artigo publicado por Foucault em 1964, Prado oferece uma análise tão instigante quanto dinâmica, fazendo jus à inquietude própria do autor de História da Loucura. 

Dividindo seu estudo em quatro partes, Prado revê as relações entre a linguagem e o
Foucault e a linguagem do espaco_E357pensamento crítico, fundamentais na obra de Foucault, desde a experiência da própria escrita até a formação da trama que envolve linguagem, espaço e morte.


Não sugerimos que na trajetória de Foucault não haja uma multiplicidade de análises, interesses e referências. Certamente, o campo é amplo e há desvios. Porém, não é preciso fazer uma escolha entre respeitar o desafio de cada obra ou recolher um traço recorrente. A marca arqueológica resgatada para essa investigação é a linguagem do espaço. Todo recorte de um tempo, de um objeto, de uma experiência; todo acontecimento singular é revelado na distribuição e na variabilidade do espaço. As suas formas não concernem somente aos domínios da física ou da metafísica. O próprio movimento do pensamento não escapa de uma disposição espacial que atua como uma referência limítrofe e como a sua condição de possibilidade, o que, em Foucault, não implica um deslocamento para uma análise psicológica, das dimensões da psiquê ou dos atos da consciência.

É preciso lembrar que nos posicionamos no plano da linguagem, solo mais arcaico da experiência; é lá que encontramos a sua arqueologia, e então poderemos compreender a razão pela qual abordá-la com uma topologia constitui um diferencial. Se não uma topologia de espaços homogêneos, como encontramos na matemática e na metafísica, então de espaços heterogêneos, de coexistência dos semelhantes. Antes da divisão entre teoria e prática, vida do espírito e vida ativa, supomos no rastro do filósofo a existência dessa outra experiência, que nos lega formas mistas, dotadas de força e intensidade por acúmulos inesperados e contingentes. Nas obras aqui enfocadas, a linguagem e o espaço são tanto o que imprime as distâncias, o que demarca os limites, as formas da alteridade quanto o que já promoveu encontros. Investigamos essa relação como base ontológica de seu pensamento, não conforme as suas intenções, mas de acordo com elementos dispostos em seus textos, e mais precisamente no conjunto de trabalhos arqueológicos, ainda que haja reverberações desse domínio em obras tardias. Este trabalho possui, em diversos aspectos, a ambição do deciframento – ambição própria da hermenêutica arqueológica. Destarte, analisaremos também algo que, na obra de Foucault, talvez pertença ao subsolo, a uma suspeita algumas vezes enunciada, mas possivelmente não esgotada e não inteiramente esclarecida: a estância da morte. A esse tema reservaremos um epílogo no qual também elementos exteriores serão trazidos para este estudo. Por ora, basta assumir que na relação entre linguagem e espaço se encontra a experiência crítica por excelência – não da ordem de um artifício intelectual, mas conforme as fronteiras que defrontamos, que nos atravessam e subtraem nossa atenção. E no suposto dualismo de linguagem e espaço, a morte emergirá como um terceiro termo.


Saiba mais sobre o evento de lançamento de Foucault e a Linguagem do Espaço em São Paulo:

Foucault e a Linguagem_LivrariadaVila_Convite.jpg

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