Muito Além do Teatro da Revolução

Uma Poética em Cena traz, pela primeira vez em língua portuguesa, os frutos da parceria de três dos maiores nomes do teatro e da poesia Vladímir Maiakóvski, Vsévolod Meierhold e Aleksándr Blók foram das personagens mais inquietas e inovadoras das artes russas.

De suas parcerias nasceram A Barraca de Feira e Os Banhos escritas por Blók e Maiakóvski respectivamente, e encenadas por Meierhold, frutos do mesmo ímpeto vanguardista que os acompanhou por toda a vida. A Barraca de Feira, vista hoje como síntese do trabalho de Meierhold, traz a discussão sobre a relação entre o escrito e o encenado em linguagem simbolista. Os Banhos, peça futurista corajosa, satirizava a burocracia da administração pública da URSS stalinista, causando grande polêmica em sua recepção.


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Este é um livro em duas chaves. Além das traduções de dois textos importantes da cena
teatral russa do período revolucionário, fundamentais para o estabelecimento de uma nova forma de encenar, Uma Poética em Cena põe em destaque o trabalho da pesquisadora Reni Chaves Cardoso e seu esforço de oferecer ao público brasileiro o encanto radicalmente transformador do vigoroso teatro da Rússia revolucionária da primeira metade do século XX. Por meio de depoimentos, debates públicos, críticas, fotos e estudos de cena e figurinos, a pesquisadora, com delicada maestria, expõe os elementos constituintes da atuação revolucionária e iconoclasta de Maiakóvski, Blók e Meierhold, resgatando inclusive a conturbada atmosfera ideológico-política em que foi gerada a União Soviética.


O que se pode perceber na maioria das intervenções tanto de Maiakóvski como de Meierhold, nos debates públicos sobre Os Banhos, é antes de mais nada uma defesa da peça de Maiakóvski: no primeiro debate, realizado em 23 de setembro de 1929, no Teatro Meierhold, para um conselho artístico-político – na verdade estava-se fazendo uma leitura para um conselho de censura. A peça seria ou não aprovada para ser montada? As anotações taquigráficas das intervenções de Maiakóvski não foram corrigidas por ele, o que lhes dá um tom de linguagem falada. As notas da edição das Polnoe Cobrenie Sotchinenii v 13 Tomakh (Obras Completas em Treze Volumes) são absolutamente acadêmicas, escritas em uma linguagem de comunicados oficiais. Entretanto, mesmo assim, percebe-se em vários momentos a posição de sempre do poeta frente ao teatro: a defesa do teatro-espetáculo, da sátira, do antipsicologismo, a oposição violenta ao teatro do século XIX. Na verdade, Maiakóvski nunca chegou a expor de maneira sistemática, organizada, seu pensamento sobre teatro. Seus princípios se organizam na própria dramaturgia (como é o caso em Os Banhos) e, esparsamente, nos diversos debates sobre as encenações, principalmente as de Meierhold.

Mas, o que chama a atenção nesses escritos, é mesmo a maneira burocrática como os debates se realizavam. As intervenções de Meierhold foram revistas e publicadas, à época dos ensaios e leituras da peça. No entanto, quase todas as considerações de Meierhold são endereçadas à dramaturgia e quase nada às suas ideias sobre a montagem de Os Banhos, o que dificulta o estudo de sua direção para a peça. Mas, entende-se: o que interessava era muito mais que o texto escrito fosse aprovado para ter seu texto- espetáculo.


 

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