Um Ator do Nosso Tempo

A trajetória de um dos grandes artistas brasileiros no contexto de um país que enfrenta grandes transformações.

O percurso, nos palcos e além, de um dos principais atores brasileiros é revisitado tendo como pano de fundo discussões e problemas que o Brasil, como sociedade, e o teatro brasileiro, como forma de expressão, enfrentaram nos últimos cinquenta anos. Os anos de chumbo e a censura; a política cultural ou a falta dela; o significado –e o juízo de valor acerca – de engajamento e entretenimento; enfim, as conhecidas dificuldades de se fazer teatro entre nós e o questionamento sobre o papel do artista são todas questões esmiuçadas e que balizam esta visão ao mesmo tempo panorâmica e detalhista da nossa cena e de uma das trajetórias artísticas mais representativas de nossa época.

Antonio Fagundes no palco da historia_LSC
Nascido como desdobramento do projeto sobre a resistência democrática e o espaço cênico, político e cultural, Antonio Fagundes no Palco da História: Um Ator, ampliou-se para abranger não só a atuação e as realizações da Companhia Estável de Repertório (CER), mas também todo um período histórico e artístico tão fecundo quanto problemático. Para além de marcos cronológicos, Rosangela Patriota discute o teatro e seu papel numa sociedade permanentemente em crise e  reflete acerca do fazer teatral no mundo contemporâneo, tendo como parâmetro as ideias e embates de um de seus principais protagonistas.

 



Estimado(a) leitor(a), eis-me aqui, novamente, envolvida com os desafios que a escrita dessa obra me coloca. O protagonista foi apresentado e as possibilidades interpretativas também. Agora não há alternativas: a palavra de ordem é retornar ao processo e compreender as oportunidades e as escolhas oferecidas àquele rapaz nascido no Rio de Janeiro, mas que cresceu e viveu na cidade de São Paulo. Pelas informações divulgadas pelo próprio Fagundes, e disponíveis nos depoimentos dados para este livro e em inúmeras outras entrevistas, o seu encontro com o teatro e mais especificamente com a arte de representar deu-se no espaço educacional, no colégio Rio Branco, situado no bairro de Higienópolis. Todavia, antes de centrar nossas atenções para o percurso profissional desenhado por Antonio Fagundes, no decorrer das décadas de 1960 e 1970, é preciso destacar alguns aspectos do país e da cidade em que Fagundes cresceu. Para isso, recorde-se que durante a sua infância, na década de 1950, estímulos artísticos, políticos, culturais, sociais e econômicos concorriam para dar ao Brasil uma expectativa de futuro. Vivia-se a euforia do projeto desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek, cinquenta anos em cinco, em meio à construção e à inauguração da nova sede do poder da República, Brasília, encravada no coração do país, na região centro-oeste, idealizada pelo presidente bossa-nova, projetada por Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, materializada pela força e pelo trabalho de milhares de migrantes que vieram de todas as partes do país. Tal empreitada, sem dúvida, deu novos contornos à geografia política e cultural. Enquanto isso, no Rio de Janeiro, o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), criado em 1955 pelo presidente Café Filho, estimulava o debate de ideias, em especial aquelas organizadas e torno do desenvolvimentismo, ao mesmo tempo em que nas telas do cinema explodiam as imagens de filmes como Rio, 40 Graus (1955) e Rio, Zona Norte (1957), ambos dirigidos por Nelson Pereira dos Santos. Em apartamentos da zona sul, como o da cantora Nara Leão, jovens compositores reuniam-se para ouvir e produzir
música. Tal associação posteriormente ficou conhecida como Bossa Nova, apesar de o seu marco inaugural ter sido fixado, em 1958, com o lançamento do compacto simples do músico baiano João Gilberto cantando Chega de Saudade (Tom Jobim e Vinícius de Moraes) e Bim Bom ( João Gilberto). Já na cidade de São Paulo, ao espírito de modernidade invocado pela Semana de Arte Moderna de 1922, somaram-se propostas intelectuais e artísticas de setores da burguesia paulistana derrotada, em 1932, pelas armas de Getúlio Vargas. Assim, por intermédio de inúmeras associações e segmentos sociais, a capital do estado assumiu para si, especialmente a partir da década de 1940, a tarefa de construir um repertório em consonância com os anseios das grandes metrópoles, dando origem a um projeto cultural e político de grande abrangência e envergadura.

Excerto extraído do capítulo “O Teatro de Arena, os Espetáculos da Resistência Democrática e a Formação de um Ator e de um Cidadão”

 

SOBRE A AUTORA:

Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação, Artes e História da Cultura (ppgeahc) da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Professora titular aposentada da Universidade Federal de Uberlândia (ufu), na qual atua como servidora voluntária no Programa de Pós-Graduação em História. É bolsista produtividade do CNPq.

ROSANGELA 03 (1)

Pesquisa o diálogo entre história e teatro e tem vasta obra publicada, com destaque para “Vianinha: Um Dramaturgo no Coração de Seu Tempo” (Hucitec, 1999); “A Crítica de um Teatro Crítico (Perspectiva, 2007)”; “Teatro Brasileiro: Ideias de uma História” (em coautoria com J. Guinsburg; Perspectiva, 2012). Organizou, em parceria, várias coletâneas, como “Narrativas Ficcionais e Escrita da História” (Hucitec, 2013). É uma das coordenadoras da série “A História Invade a Cena” da editora Hucitec e coordenadora editorial das Edições Verona, além de integrar o conselho editorial do selo História da Editora Fino Traço e de periódicos especializados.


 


 

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