Bandido Funkeiro, Maestro Nazista

Thiago Alves de Souza

Muito se fala da associação entre o crime e o funk brasileiro. Um gênero musical aliado a uma atividade de transgressão moral e ética. Quem ousaria defender o funk, com suas letras e batidas agressivas, quando da acusação de sua associação ao tráfico e ao crime de modo geral?

Para aqueles que acham que fazer um funk com conteúdo explícito é atestado de bandidagem, vou contar uma historinha vinda do imaculado mundo da música erudita.

Em 1982, os departamentos de música da Universidade de Duke e da Universidade da Carolina do Norte organizaram uma conferência sobre Mendelssohn e Schumann e convidaram o musicólogo alemão Wolfgang Boetticher para participar. Estaria tudo perfeito se o jornalista Anthony Lewis, do New York Times, não tivesse exposto, dois meses antes, a colaboração de Boetticher com o Terceiro Reich. Depois de ter seu  passado sórdido exposto, foi melhor sair de fininho e não participar da conferência.

Quem expôs este acontecimento foi Pamela M. Potter no artigo Musicology Under Hitler: New Sources In Context [Musicologia Sob Hitler: Novas Fontes em Contexto]. Esta autora expõe em suas pesquisas a relação entre a música erudita alemã e o nazismo, e quem conhece um pouco o mundo da música de concerto sabe que a Alemanha não só ocupa um lugar privilegiado da área, mas é também  a pátria-mãe dos três “bês” da História da Música: Bach, Beethoven e Brahms. 

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Bach, Brahms e Beethoven

 

E mesmo entre tantas condecorações e grandes produções da história universal da música, a  orquestra filarmônica de Berlim, a mais famosa das orquestras, tem sua história marcada pelo partido de Adolf Hitler, tendo sido fundada pelo ministério da propaganda nazista.

É preciso frisar: não há nada na história de  Bach, Beethoven e Brahms que os conecte ao movimento fascista. Os três “bês” não eram, e não poderiam ser, nazistas. Aliás, nem Wagner, um antissemita declarado, pode ser chamado de nazista, pois, sendo rigorosamente cronológico, este compositor morreu mais de 30 anos antes da primeira guerra mundial eclodir. Mas a música desses grandes serviu pra dar um up ao discurso de superioridade da mente ariana.

O fato é que até hoje a Alemanha desperta um fascínio em quem gosta e estuda a música erudita. E esse império musical germânico tomou carona com a propaganda nazista. É isso que faz desta a mais alemã das artes, conforme o título do importante livro de Potter, traduzido recentemente para português pela editora Perspectiva.A Mais Alemã das Artes

Por que a música e não qualquer outra arte? Conforme a autora mostra em seu livro, o processo de unificação da Alemanha foi muito complexo, pois havia grandes diferenças culturais em cada uma de suas regiões. Mas, por algumas razões, a música era ponto em comum entre elas.

Acredito que se as questões relacionadas à música e sua ciência, a musicologia, fossem mais acessíveis ao grande público, Pamela Potter seria uma espécie de Hannah Arendt, que virou filme. Mas seria uma Hannah em sentido contrário. Pois, se esta demonstrou que os nazistas não eram monstros, eram apenas pessoas normais, como qualquer um de nós, cumprindo ordens e seguindo a ideologia vigente, Potter nos mostra quão suja foi a história da musicologia, uma disciplina aparentemente técnica e acética.

As autoras têm em comum, fora o fato de serem mulheres, a quebra de dois ideais que circulam como consenso. Arendt destruiu a visão pequena, que terceiriza o mal, de que os nazistas eram diferentes de qualquer ser humano. Potter contribuiu para tirar a ideia de que o mundo da música erudita é algo puro, sublime e imaculado.

Ainda hoje circulam discursos que associam a música clássica a uma elevação moral e intelectual. Exemplo claro é o discurso salvacionista do maestro João Carlos Martins: “não vá para o crime, criança carente, venha tocar violino em minha orquestra”.

Comparar o funk ao universo da música de concerto – o lixo e o luxo, para alguns “letrados” – nos mostra quão complexa é a realidade e quão pobre é o pensamento que divide o mundo entre bem e mal. Não há santos em nenhum destes gêneros musicais. Santos estão na religião e não na Arte.

Mais um pouco sobre o funk nos dias de hoje:

E mesmo que alguns funks tragam conteúdo bruto, que, para alguns puritanos, beiram a barbárie, cabe esclarecer algo para estes fiscais da boa conduta verbal. Existe ética (comportamento) e existe estética (sensação), isto é: o que se faz na arte em busca de sensações não é o que se faz na vida. Falar não é fazer. Muitos funkeiros que cantam letras ousadas são, em suas vidas privadas, responsáveis e monogâmicos. Quem ouve uma música como Estilo Sacana de Mc Gregs, nem imagina quão sério e comprometido com o trabalho é este cantor. Sei bem, porque o conheço pessoalmente.

Artistas e amantes de qualquer forma de arte compreendem bem que a polêmica e o tabu, quando numa obra artística, vertem-se em objeto estético. Os funk considerados condenáveis hoje em dia não estão no contexto de um manual de comportamento ético (felizmente), mas dentro um produto artístico.

Não nos faltam exemplos de polêmica e tabu na história da arte, tanto quanto na história do funk. Na pintura, o quadro Sünde (Pecado) de Heinrich Lossow, na literatura, os Sonetos Luxuriosos de Pietro Aretino e a História do Olho de Georges Bataille, e, no cinema, o extremo Serbian Film.

Obrigado pela leitura.

 

 

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