Compreendamos Nossa Pequenez

Elisa Alves

Os seres humanos são seres culturais. Nascemos em um mundo preexistente, com uma história e regras já instituídas. Nascemos em um local específico, com determinado clima, tipo de paisagem, hábitos alimentares e sob a responsabilidade de uma ou mais pessoas. É importante dar-se conta de uma certa aleatoriedade e imprevisibilidade das experiências que nos definem, que nos fazem ser quem somos. A religião de nossos cuidadores, a classe social/renda destes, o fato de termos sido filhos planejados ou não, a relação entre as duas pessoas que nos conceberam, a presença ou a ausência delas no nosso cotidiano, a renda e a disponibilidade de recursos. Todos esses elementos vão ditar nossas experiências de mundo, nossos pontos de vista, limitações, possibilidades (nesses últimos dois quesitos acrescento também o sentido de que, falando de um certo lugar, temos acessos e restrições, do que conseguimos e do que não conseguimos enxergar).

Aí aparece a questão da interação social, mas além dessas peculiaridades, que estabelecem a estrutura de acessos e possibilidades de cada indivíduo, passamos por outra loteria: a genética. Essa vai sortear os elementos da sua aparência física e, considerando que o mundo em que vivemos é um de pré-concepções, os elementos físicos acabam por delinear a forma como as pessoas supõe umas às outras.

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Para cada característica sobre as quais não temos controle existe uma leitura social que interage com o indivíduo e que varia de acordo com as particularidades que o marcam. Isso faz com que cada serzinho humano tenha uma inserção no ambiente onde nasceu ou vive e, por isso, cada um terá  um desenvolvimento psicológico, motor, emocional, físico, diferente.

Proponho um exemplo:

Uma jovem, de seus vinte e poucos anos entra em casa apressadamente, afoita e com a respiração difícil. Depressa se joga no sofá soltando uma expressão de alívio e lhe escorrem algumas lágrimas.

Seu colega, habitante daquela mesma residência, igualmente branco e de classe média, porém do gênero masculino, lhe indaga o desespero.

“….eu estava vindo de bike, voltando da aula na universidade, e tinha que passar por aquelas ruas escuras. Um carro emparelhou comigo e me acompanhou por algum tempo. Acelerei o máximo que pude, alterei o caminho, passei pela grama… não sei se o cara queria alguma coisa, mas fiquei desesperada!”

Sem entender o colega comenta: “não sei por que você tem tanto medo de andar a noite, eu acho tão tranquilo”.

Qual é a lição desse pequeno conto verídico? A experiência do espaço rua é muito diferente para cada sujeito. Quando conversam, a incompreensão de ambos os lados se evidencia no que podem parecer opiniões pessoais, mas na verdade tratam-se de experiências de classe/raça/gênero/sexualidade/etc. A jovem achou que o simples fato de descrever a cena seria o suficiente para que seu colega compreendesse seu desespero. Mas esse rapaz não teve uma infância marcada por adjetivos como frágil ou delicado, ou por conselhos de não andar desacompanhado à noite. Ele simplesmente não sente sua vida ameaçada quando precisa voltar para casa em qualquer horário, e é muito esquisito encontrar uma amiga esbaforida por causa de um carro que, por acaso, estava andando mais devagar do que o normal.

Da mesma forma, uma pessoa branca não se preocupa em carregar consigo um documento com foto toda vez que coloca o pé na rua.  Mas, para a população negra, que convive com a possibilidade de ser parada e interrogada em qualquer lugar, pela polícia ou por qualquer um, ter uma identidade em mãos é indispensável.

Esse é um bom exemplo para entendermos a questão de pontos de vista. Somos seres limitados. Não temos a experiência de um narrador onisciente e, como todos os seres humanos, estamos sujeitos às nossas próprias subjetividades.  

Nesse sentido  O Racismo e o Negro no Brasil: Questões Para a Psicanálise, organizado pelas psicanalistas Noemi Moritz Kon, Maria Lúcia da Silva e Cristiane Curi Abud, é uma fonte de estudo e reflexão.  O livro levanta análises e descrições de como uma característica física inscreve marcadores sociais nos indivíduos, de modo que estes afetam toda sua experiência pessoal. Pelo viés da psicanálise é possível revelar que um discurso é capaz de atingir esferas muito profundas na constituição do indivíduo. Mexe com sua autoestima e, consequentemente, com sua performance. O Racismo e o Negro no Brasil procura trazer à tona o viés psicanalítico para analisar o racismo por uma perspectiva subjetiva e atuante sobre a individualidade do sujeito, sua autoestima e percepção do próprio corpo.

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O Racismo e o Negro no Brasil

 Em um documentário intitulado The Eye of the Storm (traduzido para o português como Olhos Azuis), mencionado neste livro, a educadora Jane Elliot mostra como a discriminação de uma pessoa mesmo que por um aspecto físico do qual ela não tem controle e que não interfira diretamente na sua capacidade cognitiva ou motora pode afetar negativamente seu desempenho. O simples fato de dizer que crianças com olhos azuis não têm capacidade de realizar certa atividade faz com que elas percam o rendimento. Isso se prova quando, no dia seguinte, a educadora inverte as regras: os “subjugados” tornam-se os “opressores” e, como por mágica, passam a apresentar uma boa performance na mesma atividade em que antes falharam.

 

A constatação de que marcadores sociais inscrevem-se no corpo e nos sentimentos das pessoas, de forma a delinear sua experiência no espaço e no tempo, é de suma importância. Nos permite entender que o racismo, presente nas nossas estruturas sociais, também marca percepções e interações. A possibilidade de falar de um lugar absoluto e de apreender a verdade como fato concreto é nula, pois cada sujeito percebe o espaço, e o outro, a partir de sua subjetividade.

Apesar dos avanços da internet e da democratização da produção de conteúdos, estamos hoje em um momento de extrema polarização. As redes sociais são exemplos disso, pois os usuários acabam mantendo na sua lista de amigos somente aqueles com visões similares, o que propicia  uma troca de textos, vídeos e fotos que chovem no molhado, repetindo opiniões similares sobre diversos temas. Por um lado essa ferramenta possibilitou que pessoas de diversas esferas sociais e locais geograficamente distantes se comunicassem e trocassem informações. Por outro, da forma como as utilizamos, cada pessoa encontra seu clubinho e se fecha nessa bolha de ‘iguais’, onde todos se sentem representados, pertencentes a um grupo e acolhidos pela visão de mundo reiterada.

E por que que isso é problemático? Quando olhamos para pessoas diferentes de nós, de forma que as diferenças sejam motivos para afastamento, criamos aversão à imagem do outro e perdemos a possibilidade de respeitá-lo como um ser pensante¹.

É muito revelador perceber que esses marcadores alteram a experiência do espaço e das vivências (inclusive reduzindo a identidade de uma pessoa a um único traço) e que para respeitar o outro e tentarmos alterar essa realidade de discriminação e desigualdades de acessos, precisamos ouvir e tentar entender pelo viés do anunciante, e não do nosso próprio.

É um movimento impossível, porém no caminho aprendemos imensamente. Tanto sobre o outro, quanto sobre nós mesmos.

 



[1] – Para tratar desse tópico especificamente recomendo o último episódio da terceira temporada de Black Mirror que vai levar isso às últimas consequências, contrapondo nossa incrível capacidade de ter empatia e compaixão pelo outro com a nossa necessidade de encontrar um inimigo comum para nos sentirmos fortalecidos e vinculados ao grupo.

 

 

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