A Performance Como Linguagem

Chayenne Orru Mubarack

           A segunda metade do século XX representou, para as artes, o momento de dessacralização da instituição em que estava acomodada até então. Para contestar, por exemplo, a possibilidade de reprodução de uma obra, sua consequente venda e transformação em algo lucrativo, nada mais efetivo que uma experiência irreproduzível, algo que pertencesse unicamente ao momento presente, ao aqui e ao agora. Dentro desses parâmetros, cada vez mais as manifestações artísticas que utilizavam a performance como linguagem aumentaram.

A linguagem da performance pode ser entendida como uma maneira de se expressar cenicamente que relaciona arte e vida. Essa linguagem aplica-se a distintas vertentes como a literatura, o teatro, a música, as artes plásticas, entre outras. Ao relacionar arte e vida, rompem-se as barreiras que garantem a comodidade tanto do público quanto dos atores/performers. Alguns exemplos: começamos com os famosos Parangolés de Hélio Oiticica. O público deveria ser parte da obra enquanto ela acontecia, vestindo as capas feitas pelo artista. Só assim a obra poderia adquirir sentido.O público  deixa de ser contemplativo e torna-se parte da ação. Expostas em um museu, os Parangolés perdem sua função.

A experiência aconteceu no final da década de 60, como uma colaboração do artista com a escola de samba Estação Primeira de Mangueira. Em uma declaração posterior, Oiticica alegou que a noção de Parangolé poderia alcançar a de “antiarte”, a arte que se apropria das coisas do mundo e, em última instância, da própria vida:

Chamarei então Parangolé, de agora em diante, a todos os princípios formulados aqui […]. Parangolé é a antiarte por excelência; inclusive pretendo estender o sentido de ‘apropriação’ às coisas do mundo com que deparo nas ruas, terrenos baldios, campos, o mundo ambiente enfim […]¹.

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Parangolés, de Hélio Oiticica.²

Considerada uma das intervenções pioneiras da performance no Brasil, a “Experiência nº 2” de Flávio de Carvalho, realizada em 1931, na Rua São Bento, em São Paulo, é outro caso interessante. A obra consistia no caminhar do artista/performer no sentido oposto à uma procissão católica de Corpus Christi. Ao fazê-lo, Flávio usava um chapéu verde. A reação do público foi de vaias e linchamentos, o que obrigou o artista a esconder-se e fugir dos presentes e, mais tarde, prestar declarações à polícia. Depois desse acontecimento, Flávio descreveu tudo em um livro de mesmo nome, mas a ação artística em si já havia acontecido e era de caráter irreproduzível.

Por fim, menciono a performance/instalação “Pancake”, de Marcia X, realizada em 2001. A descrição da obra fica por conta do programa elaborado pela própria performer:

Em pé, dentro de uma bacia de alumínio (80cm de diâmetro), abro uma lata de Leite Moça utilizando uma marreta pequena e um ponteiro. Derramo o leite condensado sobre minha cabeça e corpo. Repito a ação com todas as latas. Em seguida abro um pacote de confeitos coloridos colocando o conteúdo numa peneira. Peneiro os confeitos sobre minha cabeça e corpo. Repito a ação com todos os sacos de confeito. Os vestígios resultantes da performance permanecem em instalação.³

      

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Pancake, Marcia X.4

Os três exemplos citados permitem-nos elencar algumas características do que chamei anteriormente “linguagem da performance”. Corpo do artista, obra e público são de igual relevância durante a ocorrência da experiência. Pensemos nos exemplos elencados acima: nos casos de Marcia X e Flávio de Carvalho, os corpos deles coincidem com a obra. Por outro lado, o público faz parte da ação tanto nos Parangolés de Oiticica quanto na “Experiência” de Flávio. Inclusive, nesses dois casos, o público integra a obra em si, que acontece exclusivamente no momento da ação deles, no aqui e agora. O tempo é fundamental para pensarmos a performance, pois a experiência vivida não é passível de reprodução. Arte e vida acontecem simultaneamente e momentaneamente. Nas palavras de Eduardo Flores, citadas e comentadas por Eleonora Fabião: “[…] “a matéria da performance é a vida, seja do espectador, do artista, ou ambas”. A arte do performer, eu arrisco, trata de evidenciar e potencializar a mutabilidade e a vulnerabilidade do vivo e da vivência”5. Experiências e vivências podem substantivar as obras que se apropriam de tal linguagem.

Essa “virada performativa” (PAVIS, 2014), ou seja, a influência que a linguagem da performance exerceu em distintas produções artísticas, alcançou também o teatro.Dicionario da Performance_DIC

Com isso surgiram diversas conceituações como “pós-dramático”, “teatro performativo”, “teatro pós-moderno” e assim por diante. No intuito de auxiliar os artistas, diretores, dramaturgos, críticos e pesquisadores da área a localizarem-se dentro desse novo universo, o professor Patrice Pavis, aposentado na área de estudos teatrais da Universidade de Paris, lançou O Dicionário da Performance e do Teatro Contemporâneo. Publicado originalmente em 2014, o Dictionnaire de la performance et du théâtre contemporain busca situar o leitor  nas novas discussões metodológicas e analíticas que derivam de tal “virada”. O livro apresenta 350 verbetes e, mais do que significados, se debruça sobre a natureza das discussões, permitindo que o leitor adentre nesses novos debates com o preparo teórico necessário. Cada verbete apresenta desdobramentos com referências teóricas para expandir a bibliografia sobre o tema e indicações que inter-relacionam os verbetes entre si. O livro se delineia a partir de vários campos, como filosofia, antropologia, sociologia, política e estética, mas a linguagem é simples e informal, o que mantém a leitura e a compreensão fluídas. 

No prefácio à edição brasileira, Patrice Pavis escreve:

Dada a riqueza e a diversidade das experiências espetaculares cotidianas do público brasileiro, tenho confiança de que meu leitor há de querer de fato me seguir nessas novas reflexões sobre a diversidade das performances e das obras teatrais. Gostaria de convidá-lo a construir e a desconstruir objetos estéticos e críticos com as ferramentas aqui propostas […]. É com essa esperança que saúdo meus queridos leitores brasileiros, tão distantes, mas tão próximos naquilo que nos une, no coração mesmo de nosso teatro contemporâneo em vias de se fazer e já em vias de mudar.

Quase vinte anos depois da publicação da tradução do Dicionário de Teatro (1999), também de Pavis, a editora Perspectiva acompanha as mudanças nesse campo de estudos e convida os leitores a se aprofundarem no desdobramento performativo que essa arte nos oferece.


REFERÊNCIAS
[1] HÉLIO Oiticica. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa48/helio-oiticica&gt;. Acesso em: 07 de Jun. 2018.
[2] Imagem disponível em < http://institutobybrasil.org.br/helio-oiticica-corpo-movimento-e-arte/ >.
[3] Disponível em < http://marciax.art.br/mxObra.asp?sMenu=1&sObra=1 >.
[4] Imagem disponível em < http://marciax.art.br/mxObra.asp?sMenu=1&sObra=1 >
[5] FABIÃO, Eleonora. Performance e teatro: poéticas e políticas da cena contemporânea. Revista Sala Preta, vol. 8, 2008, p. 239.

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