Machado de Assis e o Teatro de seu Tempo

João Roberto Faria¹

           O prestígio intelectual que Machado de Assis conquistou em sua juventude literária não se deveu aos textos de ficção. Ele já estava com 31 anos de idade quando iniciou a publicação de seus volumes de contos e romances. Como se sabe, Contos Fluminenses é de 1870 e Ressurreição, de 1872. Essas duas obras são o ponto de partida de sua extraordinária produção ficcional, que só foi interrompida no ano de sua morte, em 1908.Machado de Assis [T23]

Antes de se dedicar mais intensamente à atividade literária que o consagrou, Machado tornou-se conhecido como folhetinista, crítico teatral, crítico literário, comediógrafo, poeta, tradutor – de poemas, peças teatrais e romances – e até mesmo como censor do Conservatório Dramático. Os amigos admiravam a inteligência e o brilho do rapaz pobre que começara como tipógrafo e já na casa dos vinte anos de idade era uma peça-chave no debate cultural do seu tempo, com intervenções corajosas e por vezes contundentes nos textos críticos e nos folhetins que publicava em vários jornais do Rio de Janeiro. Foram esses escritos que lhe deram nomeada e que o transformaram no nosso principal crítico literário e teatral da década de 60 do século XIX.

Talvez a maior prova do reconhecimento público conquistado nessa altura seja a carta que lhe endereçou José de Alencar, em 1868, pedindo-lhe que opinasse sobre alguns poemas e o drama Gonzaga ou A Revolução de Minas, de Castro Alves. O poeta baiano estava de passagem pelo Rio de Janeiro, a caminho de São Paulo, onde ia continuar o curso de Direito. Dizia Alencar:

O Sr. foi o único de nossos modernos escritores, que se dedicou sinceramente à cultura dessa difícil ciência, que se chama a crítica. Uma porção do talento que recebeu da natureza, em vez de aproveitá-lo em criações próprias, teve a abnegação de aplicá-lo a formar o gosto e desenvolver a literatura pátria.

Do Sr., pois, do primeiro crítico brasileiro, confio a brilhante vocação literária que se revelou com tanto vigor².

Esclareça-se que a carta de Alencar, o maior escritor brasileiro daquele momento, era uma carta pública, estampada no Correio Mercantil de 22 de fevereiro de 1868. Machado sentiu certamente o peso da responsabilidade, mas não escondeu a satisfação e o orgulho de ver o seu trabalho intelectual reconhecido. Ao responder, uma semana depois, em carta publicada no mesmo jornal, discorreu longamente sobre a obra de Castro Alves, não sem antes agradecer o estímulo recebido: “A tarefa da crítica precisa destes parabéns; é tão árdua de praticar, já pelos estudos que exige, já pelas lutas que impõe, que a palavra eloquente de um chefe é muitas vezes necessária para reavivar as forças exaustas e reerguer o ânimo abatido”.

Para merecer o reconhecimento de Alencar e de seus contemporâneos, Machado trabalhou muito. É preciso recuar pelo menos dez anos para apreender o início de seu percurso como crítico. E para acompanhar o progresso e o amadurecimento rapidamente atingidos é imprescindível consultar a sua enorme produção jornalística no período. Ela começa com a colaboração em pequenos periódicos, como Marmota Fluminense, A Marmota ou O Espelho, e ganha corpo com o ingresso no Diário do Rio de Janeiro, jornal que acolheu a maior parte de seus escritos entre os anos de 1860 e 1867. Lembre-se ainda que Machado escreveu folhetins para O Futuro, entre setembro de 1862 e julho de 1863, e para a Imprensa Acadêmica, de São Paulo, entre abril e outubro de 1864³. A leitura de todos esses textos – incluindo os dezesseis pareceres emitidos para o Conservatório Dramático, entre 1862 e 1864 – é fundamental para se estudar a formação cultural de Machado, na casa dos vinte aos trinta anos de idade, e o desenvolvimento de sua extraordinária capacidade crítica, seja como crítico literário, seja como crítico teatral. No segundo caso, que nos interessa aqui, vale acrescentar que seus escritos não revelam apenas uma individualidade; mais que isso, iluminam um dos períodos mais ricos da história do teatro brasileiro.

Machado de Assis_Capa

A partir de 1870 o interesse de Machado pelo teatro diminui, mas não a ponto de afastá-lo completamente dessa forma de arte. O emprego como funcionário público, desde março de 1867, e o casamento em novembro de 1869, certamente mudaram o seu ritmo de vida. O recolhimento será propício à redação dos contos e romances que formarão a porção principal da sua obra a partir desse momento. No entanto, nos anos seguintes o escritor atenderá a várias solicitações, escrevendo algumas comédias e textos críticos sobre dramaturgos, peças e artistas – sobretudo os artistas estrangeiros em tournée pelo Brasil ou América Latina. Além disso, fará parte do Conservatório Dramático em sua segunda fase, novamente como censor, atividade da qual restam poucos documentos. Por fim, como cronista, em plena maturidade intelectual, Machado não se furtará a dar opiniões sobre algum aspecto da vida teatral no Rio de Janeiro e, não poucas vezes, se lembrará da sua juventude literária, em textos que confirmam a importância do teatro em sua formação.


[1] Texto retirado do volume Machado de Assis: do Teatrode João Roberto Faria.
[2] A carta de Alencar e a resposta de Machado estão transcritas neste livro.
[3] Entre 1860 e 1876, Machado colaborou com a Semana Ilustrada, dividindo, com vários jornalistas, o pseudônimo “Dr. Semana”. No primeiro volume de crônicas da editora Jackson um conjunto desses textos, escritos entre 1861 e 1864, foi reunido, mas evidentemente não se pode dizer quais são de Machado, quais não são, como demonstrou cabalmente R. Magalhães Júnior no artigo “Crônicas que não são de Machado”, em Machado de Assis Desconhecido, 3. ed., Rio de Janeiro:  Civilização Brasileira, 1957, p. 210-222.

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