Desvendando Stanley Kubrick

Guilherme Novelli

O cineasta nova-iorquino nascido no Bronx em 1928, Stanley Kubrick, não é uma figura fácil de ser retratada. De difícil trato com os atores, pelo seu perfeccionismo atroz, que virou tema de livro de diversos astros que se submeteram à sua batuta de diretor, deixou de figurar com tanta frequência nos jornais quando se recolheu com a família em sua casa de campo na Inglaterra, a partir dos anos de 1970.

Seu maior trauma, talvez, tenha sido a briga com a filha caçula, Vivian Kubrick, por ela ter se apaixonado pelo galã de Barry Lindon (1975), Ryan O’Neal, no meio das filmagens. A paquera entre os dois não teve sua aprovação. Tal desentendimento se agravou durante as filmagens de O Iluminado (1980), clássico que inovou o gênero terror, com a célebre interpretação de Jack Nicholson. Ela rompeu com a família e foi morar na Califórnia, onde foi cooptada pela cientologia, seita da qual também fazem parte Tom Cruise, personagem principal de De Olhos Bem Fechados (1999), sua última obra prima, e John Travolta, que não chegou a figurar em nenhum de seus filmes. Vivian só reviu o pai já falecido, em seu enterro, em 12 de março de 1999, pouco antes da finalização de De Olhos Bem Fechados.

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Stanley Kubrick: o Monstro de Coração Mole, livro editado pela Perspectiva, vale como material de pesquisa para cinéfilos, cineastas e amantes da boa arte. Também vale como um guia de filmes que compõem a história do cinema e povoam o imaginário humano desde as primeiras décadas do século XX até hoje. O autor procura captar a atmosfera e o espírito do tempo que influencia cada uma das 13 películas de Kubrick, com rico material de pesquisa tirado de jornais, revistas, livros, filmes, palestras, programas de TV e dados de Internet.

Monstro, vendedor de balões, enxadrista, garoto do Bronx. São vários os adjetivos que Marcius Cortez – publicitário de sucesso, sociólogo e escritor – usa para retratar seu Stanley Kubrick. Embora traços da personalidade de Kubrick sejam descritos, a obra cinematográfica aparece em primeiro plano, assim como suas várias influências artísticas desde Orson Welles, Federico Fellini, Fritz Lang até Ingmar Bergman.

Iniciou sua carreira como fotógrafo da revista norte-americana Look. A temática de seus filmes liberta-se do senso comum, da lógica, de fórmulas e da moral. Talvez sua característica mais marcante tenha sido a obsessão pelo perfeito, beirando a loucura. Ateu convicto, é caracterizado por Cortez como pessimista transcendido: “Kubrick explorava temas nos quais transitam a penúria, a irracionalidade e a pequenez humana. No entanto, isso é só uma moldura, porque no conjunto, a sua obra visa à mesma meta propagada pelo escritor russo Lev Tolstoi: uma lei que estabeleça a ordem na terra”. O cineasta transitou por todas as funções do seu fazer. Suas maiores obsessões foram a fotografia, luz e sombra, e o tempo-ritmo das obras.

O livro de Marcius Cortez apresenta, após 1 capítulo de apresentação, 13 capítulos, em ordem cronológica, cada um sobre um filme do artista que, segundo ele, deixou as mais belas pérolas cinematográficas da história.

2001: uma Odisseia no Espaço (1968), foi considerado o segundo melhor filme de toda a história, por um ranking da revista Sound and Site, de 2015, em que 358 diretores de cinema de todo mundo foram consultados. 2001 perdeu apenas para Viagem a Tóquio, de Ozu. Alguns especialistas acreditam que a criança estelar, mostrada numa gestação do tamanho do planeta terra, representa o nascimento do Super Homem de Nietzsche, descrito em Assim Falou Zaratustra.

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Laranja Mecânica (1971) é considerado por alguns críticos como a consolidação da estética da violência no cinema. Kubrick teria se inspirado em clássicos do gênero Faroeste norte-americano para concebê-lo. O personagem principal, Alex DeLarge, interpretado por Malcolm Mcdowell, foi coautor do roteiro, ajudando a compor as gírias e a estética dos cenários, além de desenhos de cena dos atores. Acredita-se que o diretor relacionou os dois filmes, 2001 e Laranja Mecânica, e que Alex DeLarge seria a personificação do seu Super Homem, pela correspondência que existe entre as cenas da gangue de  DeLarge e a batalha dos hominídeos em 2001, no que tange violência física.

Seu primeiro filme fracassou. Medo e Desejo (1953) foi considerado, pelo próprio Kubrick, pretensioso, chato e amador. Muitos anos depois, nos anos de 1990, quando o diretor já havia se consagrado, estourou na Internet, TV aberta e cinema. É um filme de guerra, avesso ao heroísmo e ao patriotismo, em que a loucura é abordada. Kubrick considerou, erroneamente, que o público entenderia o simbolismo do filme. Mas a semente do cineasta genial havia sido plantada.

Nos anos de 1990, o cineasta já era uma figura um tanto quanto mistificada, pelo seu gênio e por permanecer exilado com a família em sua casa de Hertfordshire. Isso deu margem para a proliferação de impostores que agiam em seu nome. Foi o caso de uma figura chamada Alan Conway, agente de viagens, inglês, que tinha visto apenas alguns filmes de Kubrick, mas que persuadiu muitas pessoas influentes de Londres, incluindo críticos de cinema. Ele desfrutou da fama por algum tempo, ganhou jantares, entradas em boates, até ser desmascarado por um artigo da revista Vanity Fair e admitir a farsa num programa de TV chamado The Lying Game. O colunista do jornal inglês The Guardian, Andrew Anthony, escreveu sobre isso, em 14 de março de 1999, em homenagem a Kubrick: “Se Kubrick não quisesse existir em público, então, alguém teria de inventá-lo…  As pessoas acreditavam que Conway era Kubrick, porque queriam acreditar que um dos homens mais secretos do planeta havia decidido se revelar para elas”.

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