O Diário de um Mercador Viajante

Juliana Eliezer

        Em sua extensa e famosa obra sobre o antissemitismo, o historiador Leon Poliakov esclareceu que foi necessária a passagem de séculos para que compreendêssemos a dimensão da herança cultural que foi deixada por Al-Andalus – a Península Ibérica sob o domínio dos Califados – aos cristãos ocidentais. Fato é que, muito antes da Renascença, período conhecido pelo florescimento das artes, das ciências, do comércio e do humanismo, a Península Ibérica foi palco de uma era que não apenas propiciou o desenvolvimento da cultura, mas também foi marcada por uma simbiose entre árabes e judeus que é difícil de imaginar em nossos dias. Esse relacionamento bem-sucedido provavelmente teve início, segundo o autor, no ano 711, com a invasão de Al-Andalus, assinalando um período de tolerância étnica e religiosa resultante num mosaico variado de raças, religiões e idiomas. Foi esse status de minoria étnica tolerada pelos árabes que deu aos judeus ibéricos a oportunidade de praticar livremente sua religião, de compor uma produção científica e cultural apta a deixar marcas nos anos futuros e, ainda, de desempenhar suas atividades comerciais. Itinerario de BTudela

Foi o caso do mercador judeu Benjamin ben Ioná de Tudela, que documenta seu périplo, iniciado em 1160, em um diário, a demonstrar ao leitor suas motivações tanto comerciais quanto religiosas: se por um lado era vantajoso viajar e travar conhecimento com os demais judeus que encontrasse pelo caminho (de acordo com o relato, havia judeus em quase todas as cidades importantes pelas quais passou), reunindo informações úteis a si e a seus pares, nota-se em rabi Benjamin o interesse de peregrinar pelos locais que o judaísmo considerava sagrados. O Itinerário de Benjamin de Tudela acaba por extrapolar as intenções mercantis e espirituais de seu autor, contribuindo, segundo o organizador e tradutor J. Guinsburg, para desenhar o mapa múndi da época medieval, já que são raras as obras que tratam da geografia daquele tempo, ainda anterior a Marco Polo, em que não se possuíam as ferramentas modernas para o estudo dos fenômenos geográficos, físicos, biológicos e humanos que constituem e modificam a paisagem do planeta.

Embora o autor do Itinerário não tivesse grandes pretensões eruditas, foi contemporâneo de grandes pensadores judeus, tais como Yehudá Halevi e Moshe Ibn Ezra, expoentes da Idade de Ouro Judaica em Al-Andalus. À época,  as artes eram tremendamente valorizadas e só puderam se desenvolver com a chegada dos árabes, que trouxeram aos judeus ibéricos uma nova realidade de tolerância e abundância. Há notícia de manuscritos árabes da época dos Califados que documentam a presença de  judeus em todas as principais cidades ibéricas, possuindo eles tino para os negócios e gosto pelas viagens. E se é verdade que Benjamin de Tudela pretendia, com seus escritos, bem menos do que a importância que de fato lhe foi dada, enquadra-se não na categoria dos estudiosos, mas na dos viajantes que correram mundo e contaram suas histórias. O resultado é uma exposição realista dos locais visitados, cuja aparente falta de poesia é, por vezes, compensada por demonstrações de verdadeiro fascínio, como no caso da descrição apaixonada – e apaixonante – que faz da cidade de Constantinopla:

Constantinopla é uma cidade movimentada e mercadores de todos os países ali chegam por mar e por terra, e não há outra como ela no mundo, exceto Bagdá, a grande cidade do Islã. Em Constantinopla fica a igreja de Santa Sofia, e a sé do papa dos gregos, visto que os gregos não obedecem ao papa de Roma. Há também igrejas de acordo com o número de dias do ano. Uma quantidade de riqueza incontável é trazida para lá, ano após ano, como tributo das duas ilhas, e dos castelos e das povoações que lá existem. E o equivalente dessa riqueza não pode ser encontrado em qualquer outra igreja no mundo. E nessa igreja há pilares de ouro e de prata e lâmpadas de prata e ouro mais do que um homem pode contar. (pp. 61-62).

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Cidade de Pisa

É certo que, em algumas passagens, Benjamin de Tudela não apenas descreve o que viu, mas também o que ouviu falar – como no trecho em que caracteriza as ruínas do palácio de Nabucodonosor, relatando, a seguir, ter ouvido que as pessoas têm medo de entrar ali por causa das serpentes e escorpiões. E apesar das controvérsias sobre a questão da veracidade dos relatos do viajante, A. Asher, cujos comentários à publicação em alemão do texto compõem a introdução desta edição, defende que o exame dos detalhes da narrativa, incluindo nomes e datas, leva a concluir pela autenticidade dos escritos, mesmo que a versão que tenha chegado até nós seja apenas uma espécie de condensação do diário original.

Além da relevância histórica e geográfica dos relatos quase jornalísticos permeados por momentos de entusiasmo, O Itinerário de Benjamin de Tudela desperta interesse na medida em que retrata um curioso universo onde a Europa, a África e o Oriente Médio convergem a tal ponto que, muitas vezes, suas fronteiras não parecem claras. Viajando, o rabi Benjamin encontra, ao mesmo tempo, um mundo estranho e um mundo familiar, que hoje não mais existem – basta comparar, por exemplo, as descrições de Damasco e de Alepo contidas no texto à atual situação da Síria. O simples fato, porém, de que tais comparações sejam possíveis, deve-se em grande medida à existência de documentos como este. De acordo com o professor Moacir Amâncio, da Universidade de São Paulo, Rabi Benjamin escreveu notícias “para todos os tempos” sobre a vida naquela região, de modo que os contornos da história e da geografia de então possam desenhar-se na mente do leitor, em contraposição ao que existe hoje. É este, afinal, um dos grandes propósitos da literatura de viagens através dos tempos.

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