Quando o Filósofo É Sofista

Lucas Bento Pugliesi

             Quem adquirir a nova edição de Protágoras da Editora Perspectiva se beneficiará, como nas alardeadas promoções de hipermercados, com dois livros em um. Além da excepcional tradução bilíngue de um dos diálogos mais complexos de Platão, pontuada por notas que tornam acessíveis as múltiplas camadas do texto (em suas alusões, ironias ou subversões paródicas), o leitor se deparará também com um ensaio de fôlego, fruto do projeto de pós-doutorado de Daniel R. N. Lopes. Na medida das limitações do intérprete, do meio (e da sofística indissociável do gênero “resenha”), tentarei comentar ambos.

Protágoras contempla, desde o início, a contraposição entre a figura paradigmática do “sofista” e a do filósofo. Essa oposição constitutiva é básica para a sedimentação de um campo de saber, a filosofia. Assim, a filosofia só se constitui como vetor que se distancia de um conjunto de práticas discursivas localizadas à época de Platão, que o autor vai nomear de “sofística”; ou seja, fazeres discursivos que não apresentam um método definido, que não se pautam por uma equanimidade entre os discursos e que não retém um compromisso sincero com a verdade. Nessa moldura, Protágoras se encontra a meio do caminho da discussão sobre a “virtude”, problema maior de Mênon, e da categorização do adversário discursivo, como em O Sofista e Górgias. Ou seja, em apresentar uma discussão que leve à verdade sobre a “virtude” (o problema grego da moral) e configurar a silhueta do adversário que se quer superar, o sofista. Protagoras_T19-III

Assim, há no diálogo uma ambiguidade de temas, isto é, concentrados tanto a discussão da virtude, quanto no lugar discursivo que permita alcançá-la.  Neste diálogo, essas questões desfilam diretamente para o olhar ativo do leitor que é apresentado dramaticamente na figura de uma “plateia” que assiste a contenda entre Sócrates e a personagem título. E nesse sentido, a atenção da plateia parece se focar mais no método argumentativo das personagens e menos na matéria de seus discursos. Assim, é a ocasião para o desdobramento de diversos modos de apresentação, diversos modos que deem a ver as formas de estruturação de um argumento.

O Sócrates que aparece nesse diálogo é, talvez, a versão mais paradigmática da personagem ao ironizar ludicamente seus adversários, ao passo em que retoma suas posições intelectuais de modo paródico para o deleite do público. Isso se dá, por exemplo, quando imita jocosamente o interesse pelas nuances do sentido das palavras que caracterizaria a personagem Pródico, outro dos sofistas presente em cena. Pródico, como nos esclarece o tradutor, está mais preocupado em definir as pequenas diferenças de sentido do léxico, ou seja, mais preocupado com certa correção dicionarística no emprego das palavras, do que com a verdade. Sustentando suspeitas em relação ao pensamento de Pródico, Sócrates satiriza-o para provar a superioridade de seu próprio método.

Em outro momento,  posiciona-se em uma extensa discussão sobre a poesia apenas para, ao final, desprestigiar o interesse por tais objetos banais. Desse modo, mais do que em alguns diálogos mais famosos – e propositivos, como A República –, Sócrates imita para evidenciar seu conhecimento verdadeiro, parodia o ridículo para constatá-lo.

A despeito da impaciência de seu interlocutor que progride exponencialmente ao longo do texto, o jogo lúdico de Sócrates apresenta alguma reticência. Em dois momentos-chave, é o filósofo e não Protágoras que se afasta de  uma resposta simples à pergunta inquisitória. Essa aparente dificuldade em responder às perguntas do interlocutor se resolverá numa suspeita posição conciliatória do final do diálogo. Diferentemente de textos anteriores, ao cabo não se tem a diluição de um pretenso “saber” num acertado “não-saber”, mas uma espécie de posição de síntese (em sentido lato), na qual parte da proposição fundamental de Sócrates se prova verdadeira, assim como parte da proposição de Protágoras.  

Se o debate principia justamente pela investigação acerca do potencial de “ensino” das virtudes, então, quem sai triunfante (a despeito da exposição ao ridículo sofrida ao longo da jornada) é o sofista e não o filósofo. Afinal, ensinar a virtude, mediante pagamento, é a própria condição de existência do sofista. À possibilidade do ensino  Sócrates é obrigado a se curvar. Contudo, o pulo do gato dá-se ao remeter ao fato de que a verdade do sofista é apenas parcial; isto é, que apesar de saber que se deve ensinar, Protágoras nada pode ensinar na medida em que ele mesmo não sabe o que é a virtude. De algum modo, a resolução do diálogo se adensa quando Sócrates, sempre jocosamente, observa que a posição de Protágoras (“pode-se ensinar a virtude”) tem como pressuposto lógico a ideia de que a virtude se pauta no conhecimento; do mesmo modo, a proposição socrática (virtude é conhecimento) teria como implicação sua necessária transmissibilidade. Assim, Sócrates evidencia que a oposição que move o diálogo é, na verdade, uma falsa oposição que serve a fins didáticos: expor, dialeticamente, um conhecimento transmissível. É das entranhas de uma dicotomia falsa, que Sócrates arranca um enunciado verdadeiro.

Nesse sentido, o texto ganha em riqueza à luz da interpretação provocativa (mas sempre, aristotelicamente, comedida, sem recair na tentação de leituras, digamos, mais abertas, como as de Derrida) de Daniel Lopes. Ao longo do ensaio introdutório, o estudioso aponta as inconsistências lógicas da argumentação socrática para então colocar em suspenso o valor de “verdade” que o discurso da personagem pode ter dentro do contexto dramático da obra.

egitim-siyaseti-nedir-sorusunun-ardından
A Morte de Sócrates – Jacques-Louis David (1787)

Lopes observa como nos momentos de reticência, ou seja, quando Sócrates hesita em responder ao seu interlocutor, a personagem lança mão de recursos associados, no contexto de outros diálogos, à figura arquetípica do sofista. Mas, mais do que isso, Sócrates assume em seu éthos traços da erística, isto é, a arte discursiva que visa o triunfo sobre o adversário, entendido como obstáculo a ser superado ou liame de uma contenda.

Esse é o caso da equivalência posta por Sócrates (e aceita sumariamente por um já desgastado Protágoras que se recusa a ouvir com atenção seu adversário) entre a coragem e o conhecimento. Para o filósofo, o saber sobre os riscos (sobre as causas do temor) intensificaria a virtude da coragem proporcionalmente. Quanto mais se conhece aquilo que se deve temer, mais se é corajoso ao agir em relação às causas do temor. Contudo, como aponta Lopes, o conhecimento seria a condição que possibilitaria a coragem, não sendo, contudo, suficiente para impelir alguém a agir corajosamente. Seria necessário algo mais para propor ao agente a ação. Essa argumentação já aparece em um diálogo anterior, Laques. Desconsiderando esse “algo mais” que leva a aporia no Laques, aqui, em rápido jogo de linguagem, Sócrates faz a coragem equivaler ao conhecimento para a aceitação incauta de Protágoras.

Com isso sua superioridade argumentativa fica estabelecida. Ao contrário do falso saber do sofista, Sócrates oferece um saber genuíno: a coragem é conhecimento. O problema é que o enunciado, como se demonstrou, é inconsistente (e, poderíamos inferir, Sócrates estaria munido do saber dessa inconsistência). Nesse sentido, o filósofo, ao agir desse modo, converte-se no sofista, age como um, camufla-se em seu meio – algo prenunciado, como bem observa o comentador, pela cena inicial do diálogo, quando o porteiro confunde Sócrates com seus oponentes.

Aqui, Daniel Lopes é sumariamente astuto, evidenciando sua capacidade dialética de leitura ao ser, ele mesmo, mais socrático do que esse Sócrates caricatural. Primeiramente, ele recupera a discussão crítica sobre o método discursivo da personagem central de Platão, o elenchos – isto é, o método que visa investigar os saberes constituídos socialmente para verificar suas inconsistências em busca de um fim ulterior, condensado no compromisso sincero com a verdade. O elenchos socrático, portanto, estaria apartado do fazer sofístico,  sempre preocupado com a audiência, com o deleite (e a ornamentação), de modo a ser flexível em seus juízos de valor e a concordar com àqueles do público em presença.

Ora, em Protágoras, o discurso socrático não só não concorre com a verdade, como  está disposto a sacrificá-la para superar o adversário e estabelecer sua primazia, a despeito da verdade. Mais do que isso, ao fazê-lo, recebe a atenção e os louros do público. Conforme nota Lopes, a figura de Hipócrates, discípulo de Sócrates, é fundamental, na medida em que o encontro insuspeito com Protágoras se dá em vias de satisfazer a curiosidade do jovem em encontrar o “grande sábio” estrangeiro. A batalha discursiva é uma batalha pela “alma” de Hipócrates. Sócrates visa triunfar sobre seu adversário para provar a primazia de sua filosofia contra a erística de Protágoras. Desse modo, pondera Lopes, a busca pela verdade está intacta e o objetivo nobre de Sócrates se dá na medida em que seu pagamento não tem peso em “ouro”, mas em “verdade”.

Ademais, conforme a relação de Sócrates com outras personagens evidenciaria, ao mobilizar o discurso falacioso, a personagem estaria “testando” seus adversários, inclusive em sua capacidade de detectar a mentira e perceber a má fé do interlocutor, no que, sistematicamente, fracassam. Em última instância, Sócrates triunfa, inclusive, como sofista. Sua recusa em receber dinheiro pelo que faz é ainda mais nobilitante ao presenciarmos como ele seria capaz de emular os métodos de seus pares para alcançar resultados mais fortuitos. 

Plato’s academy. Mosaic from Pompeii (Villa of T. Siminius Stephanus). Second style. Early 1st century B.C. Inv. No. 124545. Naples, National Archaeological Museum.
A Academia de Platão, artista desconhecido, mosaico. Pompeia, séc. I a. C.

Ao contrapor o discurso socrático ao erístico (no diálogo, mas também na recepção crítica do mesmo), Lopes evidencia o caráter também “sofístico” da oposição, demonstrando sua falsidade. A diferença proposta diria respeito, portanto, a um mito fundador que apenas reconforta a sustentação de duas identidades estanques (sofista x filósofo), uma boa e outra má. Do mesmo modo, a argumentação inicial (“a virtude não pode ser ensinada”) diria respeito à assunção de uma posição falsa (que desafiaria a sinceridade, enquanto posição essencial do método socrático) que é endossada apenas como instrumento motor de uma oposição didática, ausente do conhecimento verdadeiro, o que tornaria todo o diálogo em uma mise-en-scène da própria possibilidade de se ensinar a virtude.

Ao apontar aos mergulhos de Sócrates na erística, Lopes complexifica o éthos da personagem e por extensão, o próprio método que apregoa (afinal, se a verdade é absoluta, usar de argumentos falaciosos, seria um impropério). De modo que, em certo sentido, para se chegar à verdade, talvez seja preciso ser um pouco sofista, o que adensa o sentido do verso poético discutido pelas personagens no interior da obra (sempre em vias de ser descartado): “Difícil é, sim, tornar-se um homem deveras bom”.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s