Um Homem, uma Mulher e a Bossa Nova

Gilberto Mendes*

Foi preciso um francês, Claude Lelouch, para imortalizar no cinema uma coisa que é nossa: a atitude desprendida, “nobre e sentimen­tal”, a simplicidade no viver a grandeza da vida cotidiana, a fidelidade ao maior amor “que não seja imor­tal posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”. O sentimento drumondiano do mundo, o homem e a vida em primeiro lugar são coisas nossas, diria Noel Rosa, “e outras Bossas”.

Um homem e uma mulher, através de Lelouch, trazem para a tela todo o intimismo, a naturalidade e a nostalgia do momento mais doce e ge­neroso de nossa música popular. Um filme que captou o espírito das coisas nossas, sobretudo do carioca, de Noel, da garota, do Ipanema. O mar está sempre presente – não sabemos se é no Rio ou em Monte Carlo, as cidades se identificam, pairam no ar gritos das gaivotas sobrepostas à imagem da criança rindo no carro em derrapa­gens na areia, mau agouro intensificado peio ruído dos motores em outras cenas. Mas há o sentimento seguro da eternidade no amor, as palavras de devoção à amizade no comovente samba de Vinicius-Baden Saravá. Um filme Bossa Nova.

O filme que o cinema novo não quis, não soube fazer. Por que essa má vontade com a bossa nova? Por que não é brasileira? Mas o que seria, então, a coisa brasileira?

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A confusão está em que não foi ainda compreendido entre nós que a bossa nova é simplesmente a expressão de uma mocidade que se dei­xou tocar por uma dessas soluções artísticas universais que de tempos em tempos tornam o homem um só em todos os cantos do mundo. Uma sede de comunhão em torno da prática e repetição dos mesmos procedimentos composicionais. Assim tivemos a Renascença, o Barroco, Ars Antiqua, Ars Nova e por aí afora. Vivemos ora de acordo, ora em desacordo. Tanto faz. O que importa é ter caráter, dentro de qualquer intenção. E a bossa nova o teve como poucos, assimilando o novo sentimento do mundo e impondo em devolução a sua influência.

Bem analisadas, mesmo aquelas expressões tidas como nacionais são de origem universal. Nossa famosa música nordestina repousa nos modos mais antigos e universais do canto gregoriano, disseminados pelos padres no seu trabalho de educação re­ligiosa no interior dos Estados brasileiros. Somente, ninguém os reconhece mais, porque adquiriram novo sig­nificado em muitos anos de novo uso. O significado é o uso, o uso é a comunicação (Décio Pignatari). Novo uso, novo significado. Por que não estender a validez desses conceitos ao fenômeno bossa nova?

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Vinicius de Moraes, Toquinho e Tom Jobim

De acordo com a teoria dos afetos e mesmo com certos levantamentos estatís­ticos realizados por modernos sociólogos e pesquisado­res da comunicação de mas­sa, podemos chegar a algu­mas definições dentro do mercado comum dos signifi­cados. O “Lá menor”, por exemplo, foi e será sempre um modo triste, em qualquer parte da terra. Pelo mesmo prisma, verificaremos que música popular contemporânea vive já há uns vinte anos sob o domínio das harmonias de 7ª e 9ª maiores e já tem sua cadência típica, (assim como o barroco, a renascença tiveram a sua) também dissonante, numa diluição atonal “perdendosi”. Esses acordes dissonantes e essa cadência se codificaram nos signos mais atuantes e representativos da atual música popular ocidental.

Parece que o ponto de partida foi o célebre foxtrote “Laura”, do filme do mesmo nome, com seu acorde gerador em 9ª, logo no início, resolvendo um tom abaixo na mesma 9ª. Abriu-se aí um capítulo novo na história da música popular chamada comercial, de consumo. Lentamente todas as outras músicas populares foram adotando esse uso, que refletia muito bem o novo sentimento do mundo, doloroso e nobre, como a valsa de Ra­vel, também “nobre e sen­timental”, por causa do uso das mesmas 7ª e 9ª. E vamos descobrindo, aos poucos, uma ramificação “afetiva” entre procedimentos eruditos e sua projeção no terreno popular, cuja raiz está na França do século passado, com Baudelaire, Verlaine, Mallarmé, na poesia; e na atmosfera de encantamento os reflexos n’água, os velhos parques sob as chuvas – que envolvem a música de Debussy, Chausson, Duparc, e sobretudo deste mestre dessa escola francesa: Gabriel Fauré. Eu quase que diria que Fauré é o pai da moderna Música popular mundial. E que Francis Lai, com suas músicas para Um Homem, uma Mulher, um seu discípulo direto. Nada mais francês do que “Plus Fort Que Nous”, “A L’ombre De Nous”. E ao mesmo tempo nada mais bossa nova, no espírito, na fabulosa interpretação de Nicole Croisille e Pierre Barouh. Este, então, realiza o prodígio de se identificar totalmente com João Gilberto, em “Samba Saravah”. O passado e o presente num só tempo. E a impressionante orquestração de “Aujaurd’hui  C’est Toi”, a la Henry Mancini (outro “influenciadopelo nosso samba, especialmente do tempo de Carmem Miranda), e o arranjo instrumental do mesmo “Plus Fort Que Nous”, com nostálgico solo de trombone à maneira do velho Tommy Dor­sey. “Conter numa estrela toda uma constelação”, relembro as palavras de Robert Browning; e fico pensando no jazz da década de 1920, feito em ambientes esfumaçados, proibidos (era a época dos gângsters e da lei seca), nos velhos e melancólicos “foxes”, em “My Old Flame”. Penso em Marlene Dietrich. Anos mais tarde, no “amor de gente jovem”, cantado pela inesquecível Silvinha Telles. E mais recentemente, em Luigi Tenco – “quasi sera” – Catherine Spaak, e outra vez em Fauré. Porque é preciso esse mesmo sentimento do mundo para cantar “Tristesse. A mesma meia voz, melhor se for um pouco rouca, o mesmo espírito camerístico, o mesmo rubato”. Todo esse complexo sonoro consubstanciado nos signos musicais do mercado comum da bossa nova mundial.

E a mesma presença do mar e sua misteriosa relação com as harmonias dissonantes, decodificadas em “cais noturnos, docas mansas”, “é doce morrer…” As mesmas 7ª e 9ª em constelação n’ “O Mar”, de Debussy, o compositor quase marinheiro. Foi da mobilidade do mar que se formou a mais plástica de todas as batidas rítmicas: do violão de João Gilberto.

Não pretendemos que a bossa nova seja a verdadeira música popular brasileira do momento. Queremos somente mostrar que ela é a tradução nacional de um sentimento universal profundamente autêntico, que vem de muito longe. Deve ser garantido à bossa nova, portanto, o seu lugar junto às demais tendências dominantes – Geraldo Vandré, Chico Buarque, Gilberto Gil e outras exatamente como a manifestação desse sentimento universal dentro de nossa música popular.


*Texto originalmente publicado no volume Música, Cinema do Som 

 

 

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