É a História Fruto do Acaso ou Obedece a uma Lógica Maior?

Lucas Bento Pugliesi

Políbio foi um historiador grego que viveu durante o período de ascensão da República Romana ao estatuto de grande potência bélica (século II a.C.). Seu projeto monumental, As Histórias, em 40 volumes (dos quais, apenas os cinco presentemente editados pela Perspectiva nos chegaram completos) se interroga, primariamente, sobre os anos de transição entre os quais a república da península itálica sedimentou seu domínio regional e global.

Militar de carreira, Políbio foi preso junto a outros aristocratas sob a acusação de conspiração contra o domínio romano, colocando-o para sempre, nos anais da história, nessa posição ambígua de exilado/cativo que escreve sobre seu captor. Polibio Historia pragmatica_3D_T35

Evidentemente, Políbio não é moderno e seus escritos estão longe de fazer transparecer as agruras de uma alma individual atormentada por sua condição biográfica. Como bom estrategista, suas  Histórias exaltam a Roma conquistadora como pináculo da civilização de seu tempo, demonstrando, desde as primeiras páginas, que sua ascensão foi friamente planejada e executada.

Por outro lado, há certa simpatia no olhar para os derrotados que se nota, em especial, sobre o plano maior dos dois primeiros livros que recontam o período (não vivido por Políbio) dos primeiros relances da guerra contra Cartago. Aristotelicamente, há matérias (homens e feitos) dignas de elogio, mas há também matérias apenas parcialmente elogiáveis. Sob a segunda categoria parece recair a Cartago de Políbio.

O historiador tenta evidenciar como, ao modo dos romanos, Cartago também possuía um plano, homens e feitos valorosos, mas que, por um conjunto de contingências e algumas decisões equivocadas, não foram suficientes para triunfar perante a história. Para elucidar as razões da derrota na guerra vindoura, o autor pinta as tenebrosas crises internas que enfraqueceram a colônia fenícia. Detalha, por exemplo, as “Guerras Africanas”, momento no qual os mercenários contratados por Cartago para disputar a hegemonia da ilha da Sicília com Roma se rebelaram pelo atraso de pagamento, mantendo como reféns algumas cidades cartaginesas em uma onda de terror e violência.

Aníbal e antes dele, Amílcar, são generais engenhosos capazes de feitos que desafiam o senso comum para trazer a vitória a partir de fontes inesperadas. Como nota o tradutor, Breno Sebastiani, Políbio se detém vagarosamente sobre os derrotados da história enquanto uma promessa de realização que falhou.

Roma, à mesma época, enfrentava suas próprias crises, guerreando contra os intrépidos gauleses que hoje habitam nosso imaginário coletivo. Através da argúcia diplomática de seus generais, contra uma guerra total preferiu-se alianças e pactos de cooptação que causassem entre os bárbaros (sempre desorganizados e brutais conforme a doxa de representação do estrangeiro vituperável) sorte de guerra civil (para usar de um termo impróprio) entre os diversos clãs.

A queda de Cartago é narrada com algo de tintas melancólicas. Ainda que se faça com comedimento, não há uma comoção a ser suscitada no público, apenas timbres de um breve lamento diante da desfaçatez da tyche. A palavra em grego é central para a compreensão da obra. Polissêmica, como anota o tradutor, tyche pode se confundir com a deusa Fortuna, pode indicar o destino no sentido forte, mas também a contingência efêmera, o inesperado do momento, a pequena nota que desarmoniza a lógica tonal do andamento histórico.

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O porto de Cartago

De um lado, Políbio cunha seu fazer historiográfico a partir do pragmatismo. A história, como a poesia, deve ser útil às gerações vindouras ao oferecer um panorama detalhado que explique as causas e consequências das ações humanas de modo a servir de exemplo à posteridade. Mais do que isso, pelo nível de detalhamento empregado na representação das estratégias militares, evidencia-se que o livro é também um repositório de conhecimentos marciais a serem reempregados em guerras vindouras. Desse modo, para que possam ser úteis, As Histórias deverão reter algo de uma propensão à repetição e nesse caso, seria possível inferir uma lógica subjacente ao evento que é, precisamente, aquilo que o historiador, enquanto analista, deve ser capaz de oferecer aos leitores. Não a mera apresentação do evento, como também sua função dentro de uma cadeia maior de um circuito de causa e efeito.

E é nessa chave que uso a analogia do trágico. A despeito da rígida racionalização das causas, há efeitos impensáveis que escapam à exegese mais firme do intérprete. É o caso do “causo” relatado pelo autor acerca de um imprudente capitão cartaginês que deu a ordem de avançar sua nau antes do restante da formação; isolado da tropa, seu navio foi capturado e partir disso, puderam os romanos exercer engenharia reversa, o que possibilitou a melhoria da frota náutica do povo itálico.

Esses detalhes ínfimos que ditaram o rumo da história, ainda que imprevistos, retêm muito da atenção de Políbio apesar do autor nunca teorizar sobre eles. É a tyche em ação, o acaso que sobredetermina a ação humana, os caprichos dos deuses que assolam as artes narrativas desde a Ilíada de Homero.

O debate entre acaso e razão que perpassa As Histórias de Políbio retornaria fantasmaticamente em momentos-chave da historiografia do ocidente, constituindo quase o cerne da gênese da moderna historiografia a partir do dissenso entre Herder e Kant.

Mas talvez não fosse o caso de louvar o autor por aquilo que ainda pode repercutir entre os modernos, mas pelas próprias categorias de seu tempo. Os comentadores d’As Histórias ressaltam que o relato do autor é “sem cor” e que peca pela falta de“vividez”. De fato, o modelo que segue é o dos grandes atos militares, mas preferindo um foco na estratégia e não na valentia do campo de batalha. Suas guerras, diferentemente de Heródoto no que acompanhou Homero, não se detêm nos detalhes sanguinolentos e nos feitos bravios individuais dos guerreiros, mas no arrazoado mover das peças em um complexo tabuleiro mental.

Aos críticos, Políbio oferece uma micro-poética da historiografia no Livro II: “A finalidade da história não é a mesma da tragédia, mas oposta. Esta precisa emocionar e seduzir os leitores em um só momento por meio de discursos os mais convincentes; aquela, ensinar e persuadir os estudiosos de qualquer época com fatos e discursos verdadeiros. […] Além disso, ele narra (o discurso da tragédia) muitas peripécias deixando de sugerir as causas ou modos dos acontecimentos, sem os quais não é possível que nos compadeçamos racionalmente, nem que nos encolerizemos convenientemente […] a opinião final se baseia não nas realizações, mas nas causas e motivações dos agentes […]”

Retomando a distinção aristotélica entre o impossível crível e o incrível possível (dos discursos da poesia e da história, respectivamente), contra a universalidade da comoção/terror suscitados por qualquer evento na tragédia, Políbio exalta o casuísmo da história que desnuda as razões (justas ou injustas) das punições, de modo a afetar o intelecto e não o sensível. A partir do Platão d’O Sofista, o autor defende que o regime das imagens da historiografia é o icástico, aquele que representa de um ponto-de-vista fixo sem distorcer o objeto. Contra ele, está o fantástico das imagens poéticas que distorcem o objeto para seduzir.

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Desse modo, aprofundando o veio que separa poesia e história, Políbio prefere pintar imagens que falem ao intelecto ainda que prejudicadas no que tange o deleite. É o caso das pinturas intrincadas das diversas batalhas que se sucedem no livro. É possível ver com clareza como o exército cartaginês conseguiu afunilar aos romanos usando da cavalaria de modo a obrigá-los a marchar em direção aos assustadores elefantes. Nenhum elefante é visto em detalhe, mas como que de longe, fixamente, a diegese põe diante dos olhos do leitor as imagens exatas do desencadeamento.

Nesse sentido, em sua própria proposta poético-retórica, ainda que “incolor” ao gosto ávido pelo brilho fantástico, Políbio faz ver, pintando com vividez, seu objeto aos olhos incorpóreos do intelecto.

A presente edição, acompanhada de elucidativa introdução de Breno Sebastiani, além de notas cirúrgicas que não atravancam a leitura, concorreu ao 59º Prêmio Jabuti de tradução.

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