O Golem: Reflexos Populares de uma Antiga Lenda Judaica

Juliana Eliezer

        Quando escreveu O Golem (Editora Perspectiva, 2017), publicado pela primeira vez na forma de folhetim, em capítulos, no jornal iídiche americano Jewish Daily Forward, nove anos ainda separavam Isaac Bashevis Singer do Prêmio Nobel que lhe foi conferido em 1978 pelo conjunto de sua obra literária. O autor, ainda pouco conhecido, atualizou a lenda judaica do golem, o gigante de barro, recontando-a com ares de fábula, de forma simples e sem rebuscamento, de modo a evitar que seu público-alvo – os leitores do periódico – precisasse fazer grandes esforços interpretativos e de compreensão. Não obstante, trata em O Golem  de assuntos sensíveis, tais como a delicada situação dos judeus na Idade Média, e de seu próprio sentimento de esperança, assinalado na epígrafe, de que um tempo chegaria em que cessariam todas as injustiças em face dos oprimidos. O Golem [P16]

        A premissa da fábula recontada por Bashevis Singer – um nobre que devia muito dinheiro na praça, inclusive a um popular banqueiro judeu (e que pelo histórico de inadimplência desse nobre recusa-se a lhe emprestar outros valores) e que esconde a própria filha, alegando que o banqueiro a raptara e matara para usar seu sangue no preparo das matzot¹ – tem fundamento histórico. De fato, herdamos da Idade Média um conjunto que compreende valores tanto positivos quanto negativos, crenças e, obviamente, preconceitos. Naquela situação específica, por incrível que possa parecer, “fazia sentido” a acusação do nobre: um dos estereótipos então correntes era o do judeu maligno, dado a crimes rituais, como misturar sangue de cristãos ao pão ou profanar hóstias, cortando-as para fazê-las sangrar. Esses rótulos demonstravam não apenas um total desconhecimento da cultura judaica, como também a continuidade de uma questão nascida de um problema teológico, o fato de que os judeus, que consideravam a si mesmos os detentores da palavra revelada de Deus, e que não aceitavam Cristo como Messias, contestavam assim todas as verdades do Cristianismo. À medida em que a Igreja foi ganhando poder na Idade Média, acentuou-se o preconceito, foram criadas uma série de leis desfavoráveis aos judeus e delinearam-se os estereótipos, como o do judeu maligno, o judeu usurário e o judeu cobrador de impostos. Modelos como esses perduraram tanto na História quanto na Literatura – basta lembrarmos de Shylock, o judeu shakespeariano de O Mercador de Veneza, que exigira uma libra da carne de seu credor, ou do pai de Alexander em O Complexo de Portnoy (Philip Roth, 1969), que se ocupava de cobrar taxas de seguros no “bairro dos negros” em Nova York, tornando-se por isso figura indesejada.

   

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Sinagoga no Bairro Judeu de Praga

     É dentro desse contexto, o da iminência da condenação à morte de um proeminente membro da Comunidade Judaica de Praga do fim do século XVI e das demais aflições que consternavam os judeus, que Rabi Leib, o rabino da comunidade, recebe a visita de um lamedvovnik, “um dos Trinta e Seis Justos por cujos méritos o mundo existe” (p. 27). Esses trinta e seis homens, segundo a tradição do judaísmo, desempenham o papel de justificar a existência dos humanos aos olhos de Deus. E o lamedvonik que o rabino tinha à sua frente aconselhou-o a construir um golem, um gigante de barro, e a gravar o nome de Deus em sua testa, para que assim a criatura tomasse vida e acudisse os judeus naquele momento obscuro. Advertiu-o, porém: era preciso cuidado para que o golem não caísse “nas loucuras das criaturas de carne e sangue” (p. 27), devendo ser empregado apenas no auxílio dos filhos de Israel. Sua tarefa específica era encontrar a filha do nobre mentiroso no momento oportuno, trazendo à tona o embuste e prevenindo a injustiça. Até então, disse o criador à sua criatura, deveria descansar no sótão da sinagoga – sinagoga esta que pode, até hoje, ser vista no Bairro Judeu por quem visita a cidade de Praga.

        O gigante de barro que mimetiza um homem ganhou vida pela palavra sagrada, ou seja, pela inscrição, em sua testa, das letras hebraicas que compõem o nome de Deus. De maneira análoga, nosso DNA de seres humanos é constituído por uma série de associações entre bases nitrogenadas, cujos nomes são representados pelas letras A, T, C e G. A professora Lyslei Nascimento, da UFMG, foi ainda mais longe, chamando de golems os androides replicantes do filme Blade Runner – O Caçador de Androides, de Ridley Scott. De fato, o filósofo e matemático americano Norbert Wiener, conhecido como fundador da cibernética, chegou a afirmar que a máquina é o equivalente moderno do golem do Rabi de Praga. Vale lembrar que as chamadas inteligências artificiais – não apenas os computadores, mas os próprios robôs – também possuem sua própria espécie de DNA. O que lhes dá a “vida” é uma combinação de grandes proporções entre os números 0 e 1: o código binário. Nós, os seres humanos, construímos os computadores para que realizem, para nós, tarefas específicas, da mesma maneira que era específica a tarefa a ser empreendida pelo golem. Entretanto, os crescentes alertas a respeito do risco de que a inteligência artificial possa sair de controle fazem lembrar a advertência dada pelo  lamedvonik ao Rabi de Praga.

        E tal como a inteligência artificial desgovernada de Arthur C. Clarke em 2001: Uma Odisseia no Espaço, o golem da lenda perde o prumo: quer aprender a ler e a escrever, quer celebrar seu bar-mitzvah (o marco da maioridade religiosa no judaísmo), quer beber vinho, quer até se apaixonar, tudo isso como se um homem fosse. Ora sente-se sozinho, parecendo demonstrar emoções genuínas (da mesma forma que o computador HAL 9000 de 2001), ora causa pânico e destruição no gueto, no afã de tentar ajudar as pessoas. Não demora até que a fama do golem chegue até o imperador que, sabendo de sua robustez, manifeste tanto intenção de incluí-lo em suas forças armadas quanto temor de que os judeus, certa vez escravos no Egito, utilizem-no para escravizar o mundo inteiro. São situações que tiram o sono do rabino, que já não controla mais sua criatura, e que indaga a si mesmo se era realmente digno de uma tarefa tão significativa quanto a que lhe foi conferida.

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Isaac Bashevis Singer

Bashevis Singer apropriou-se tanto da lenda quanto da historiografia judaicas ao reescrever, em 1969, a narrativa d’O Golem. Detinha apenas as informações dos fatos passados; contudo, acaba antecipando questões futuras cujas implicações não poderia prever, como o ponto a que chegaria a participação do computador em nossas vidas, livrando-nos de tarefas cotidianas, poupando nosso tempo e diminuindo nosso trabalho – bem como a contrapartida desse cenário, o fato de que nos tornamos cada vez mais dependentes das máquinas e de que estas funcionem conforme o esperado. Efetivamente tratou, em lugar disso, do homem que se vale do sobrenatural em momentos de agonia extrema, matéria pertinente ao ideal messiânico judaico, já que, segundo nos explica o professor J. Guinsburg, tradutor da presente edição, o golem não soluciona o exílio judaico (isto é, não possui a capacidade de devolver os judeus à Terra Prometida), porém ajuda a tornar esse exílio mais suportável através da ação em situações específicas. Qualquer das leituras demonstra a preocupação do autor com as aflições não só do judeu, mas do ser humano em geral.


[1] O pão ázimo fabricado pelos judeus que é peça-chave na celebração de Pessach, a Páscoa judaica.

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