As Perfeições de Robert Musil

Rafael Rocca

“Musil foi um dos mais espirituosos estilistas em língua alemã, aforista de primeira ordem, e em outros trechos, de evocativa força poética”. Com essas palavras, Otto Maria Carpeaux, o grande crítico literário que se fixou em terras brasileiras, define o estilo de Robert Musil no conjunto de sua obra. Artista da palavra, mestre da intrincada psicologia das relações humanas, Robert Musil está renascendo em estudos acadêmicos e tem despertado o interesse dos escritores das terras de cá.

        É nesse sentido que a editora Perspectiva lança uma obra peculiar da fase inicial do grande prosador austríaco. Uniões agora sai em tradução brasileira pelas mãos de Lawrence Flores Pereira e Kathrin H. Rosenfield, intelectuais, tradutores experientes e com grande currículo na passagem ao português de obras de diversas línguas. Uniões foi publicado em 1911 na Áustria de Arthur Schnitzler e de Freud e é uma das obras-primas da novelística mundial. No entanto, no conjunto da obra do autor, que é conhecido precipuamente por seu O Homem Sem Qualidades, é considerada uma novela primeira, experimental, e menos lida. Qual então o interesse para o leitor brasileiro em se aventurar nessa obra tão singular de Musil?

        Uniões é uma coletânea de duas novelas publicadas no mesmo ano que foram traduzidas como “A Perfeição do Amor” e “A Tentação da Quieta Verônica”. As duas obras possuem um fio que as une, que consiste na exploração profunda e pormenorizada, de maneira também ensaística, do tema da infidelidade e sua consonância com as relações amorosas, especialmente em seu lado feminino. Os enredos são bastante enxutos, forma que é recorrente em textos do início do século XX. Unioes_cartaz_P35_2018

        A primeira novela, “A Perfeição do Amor”, trata da trajetória mental de Claudine, uma mulher recém-casada pela segunda vez que parte para encontrar sua filha em um pequeno vilarejo. Ao chegar, uma nevasca isola a cidade, tendo os viajantes do trem de permanecerem no local até que a normalidade se restabeleça. Nesse ínterim, Claudine conhece um personagem nomeado de “conselheiro”, o qual reacende velhos pensamentos na mulher e provoca por parte dela uma reflexão profunda acerca dos traumas vivenciados no passado. Surge então a questão da infidelidade e os motivos pelos quais a personagem foi levada ao adultério.

A novela possui um substrato biográfico: enquanto noivos, a futura esposa de Musil trai-o com um antigo pretendente em meio ao ápice da paixão entre ambos. Musil utiliza esse fato pessoal para buscar as raízes psicológicas dos motivos que levaram à infidelidade e o resultado parcial é uma novela que, apesar de ter um narrador em terceira pessoa frio e objetivo, transcorre em sua maior parte nos pensamentos da personagem. Dá-se lugar, então, de maneira poética, encadeando mistura de sensações, de ambientes, sons e cores, para além das memórias transfiguradas pelo tempo, a uma sucessão de reflexões que pretendem pensar sobre o significado das relações afetivas, da distância e do amor em sua forma mais animal entre duas pessoas.

Musil procura, com esse enfoque no pensamento feminino, afastar-se das preconcepções masculinas da época ao criar uma figura feminina que não significa uma projeção dos desejos do homem, mas sim que seja uma mulher que une sua sensualidade (e as novelas têm uma carga sensual forte) à sua reflexão independente, própria, desembaraçada das visões masculinas.

O resultado disso é um encadeamento de tempos por vezes labiríntico, na medida em que o passado e o presente se fundem nas reflexões de Claudine, e também de sensações que, como o próprio autor o afirma, quando encadeadas, devem “procurar a expressão para coisas internas, íntimas, renunciando, porém, a qualquer inserção destas coisas numa conexão causal”. Musil dá liberdade a uma narrativa que hoje se pode considerar moderna, na qual o enredo é diminuto, até mesmo secundário, e as reflexões íntimas ganham o espaço literário, transformando a mente da personagem em palco principal. Essa intenção pode ser percebida logo ao início da novela quando, em um dos poucos diálogos, o narrador diz que: “[…] os pensamentos corriam lado a lado silenciosamente, mas depois emergiram de novo – muito ao longe – nas palavras”. No caso, as “palavras” podem ser encaradas como a própria escrita da narrativa ao pretender o autor dar forma verbal a sentimentos e situações inauditas; revela-se, também, essa intenção pelos parcos diálogos que ocorrem especialmente na primeira novela. Àquela reflexão do narrador se acrescenta a fala: “Sim, não é todo cérebro algo solitário e único?” Esses dois trechos parecem conter o substrato da novela em seu todo na medida em que revelam a intenção de individuação dos pensamentos da personagem feminina.

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Robert Musil

A segunda novela, “A Tentação da Quieta Verônica”, segue o fio narrativo da primeira e também trata do tema da infidelidade, desta vez com outro enfoque, ainda que semelhante ao da primeira. Após o caso de infidelidade, este é comunicado ao pretendente, em tudo diferente, e até mesmo oposto, ao amante: enquanto um, o jardineiro Demeter, é forte e robusto, o segundo, Johannes, é um homem franzino. No entanto, após ter levado um soco, Johannes reage sorrindo com um leve tom sarcástico ao primeiro. Esse fato desencadeia uma reflexão longa da personagem Verônica, que passa a enxergá-lo como um animal, não mais como um ser humano dotado de paixão, introduzindo as múltiplas metáforas de animalidade presentes na novela (há diversas passagens remetendo à zoofilia e ao incesto). Johannes não aceita a traição e parte; Verônica crê que ele iria cometer suicídio por pensar que a dependência de Johannes em relação a ela era grande. Quando isso não acontece, ela se sente aliviada, por um lado, e frustrada, pelo outro, por crer que ele seria “animal” o suficiente para cumprir a intenção do suicídio. Novamente, Musil cria um enredo diminuto e dá lugar para a reflexão por parte da mulher, oferecendo ao leitor uma tentativa de incursão pelo mundo mental feminino. Aqui, a dualidade corpo/mente é igualmente acentuada pelas múltiplas reflexões de Verônica, ainda apresentadas por um narrador objetivo de terceira pessoa: em determinado momento, Verônica vê-se sozinha em seu quarto, no escuro, e as reflexões dela fundem-se com o ambiente, este refletindo e complementando, em uma não linearidade, a atenção que o corpo exerce sobre a mente da protagonista. Em metáforas que se alternam entre os cinco sentidos, o leitor é apresentado ao fluxo de pensamento de Verônica, como o fariam depois Proust, Joyce e, talvez mais importante, Virgínia Woolf.

As novelas de Musil reunidas em Uniões não oferecem ao leitor facilidade para a leitura, conforme o próprio autor o consente. Com frases longas, encadeadas em múltiplas subordinações, o estilo cerebral e racionalista do autor transparece em todos os momentos. As sinestesias abundantes, provocando uma linguagem que também se pode dizer poética, torna ainda mais intrincado acompanhar o grande fluxo de pensamento de ambas as personagens principais. Robert Musil pretendeu, com isso, uma estética própria aliada a uma ética particular em relação à sua concepção literária: ainda cria, no início do século XX, que a literatura tinha o potencial de alterar a realidade e os costumes e que um texto esteticamente bem-formado podia exercer no leitor uma profunda mudança de pensamento. Na prática, no entanto, o projeto de Musil foi frustrado: suas novelas, após o sucesso de sua primeira, O Jovem Törless, passaram despercebidas pelo público e pela crítica. A escrita das obras precede as duas grandes guerras mundiais e foram publicadas no fervor da consagração das ciências exatas e biológicas e do desenvolvimento das telecomunicações e na decadência das representações artísticas; de uma certa forma, ambos os textos espelham esse mundo, problematizando a comunicação humana e o fervilhar de pensamentos, por vezes desconexos, que acomete as personagens.

Atualmente, Robert Musil é mais conhecido pelo seu imenso romance inacabado, O Homem Sem Qualidades, em que retoma alguns aspectos já presentes em Uniões, cujas novelas eram preferência do próprio autor. Uniões, pelas suas características de linguagem e de tema, é uma obra que permanece atual no sentido de transcorrer em meio a um processo de intensa individuação e racionalização, ainda prementes e cada vez mais fortalecido nos dias de hoje.

A presente tradução de Uniões é feliz no sentido de captar as nuances do texto musiliano e deixar transparecer um pouco o tom e o clima do texto original. Manteve parágrafos extensos, por vezes intencionalmente confusos, o que marca o estilo do original e deixa um rastro de sabor no texto em português. Os textos que acompanham a tradução permitem explorar um pouco mais o universo racional imenso que são as obras desse “estilista” de língua alemã, para retomar Carpeaux, e fornecem uma base interessante para uma segunda leitura do texto que, certamente, será tanto mais frutuosa quanto o primeiro contato com a obra.

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