E você, é racista?

Jolie Antunes

Em algum momento da vida, alguém deve ter-se deparado, em rodas de conversas sobre questões raciais, com frases do tipo: “Eu não sou racista, tenho até amigos negros”, ou “No Brasil não há mais racismo, ele acabou há mais de cem anos com a abolição”. Frases como essas permeiam a linguagem de muita gente na sociedade, por vezes talvez até no inconsciente do indivíduo. Não só essas falas como também expressões do tipo “dia de branco”, “inveja branca”, “a coisa tá preta”, “mercado negro”, ou até palavras como “denegrir” e “doméstica”, são também faladas pela grande maioria da população sem ao menos ter a consciência de sua procedência. Poderíamos escrever um livro contendo todos esses vocábulos e frases presentes em nossa língua, mas o intuito de uma mera listagem se perderia no que realmente tange a questão racial no Brasil, isto é, qual o reflexo sócio-histórico de tais expressões e o porquê de sua sobrevivência em nossa sociedade. A linguagem do cotidiano e suas injunções na fala por vezes não são notadas; muito desses vocábulos se repetem por gerações e a maioria dos falantes acaba intuindo que tais palavras sempre pertenceram à língua. Orações adversativas como “é negro, mas é honesto”, “apesar da cor, trabalha bem” – o não dito embutido nas frases – retratam e reforçam questões sociais de discriminação e preconceito que permanecem em nosso convívio. LSC PR-3.1 (CAPA) RacismoNegroBR_1ed2017.indd

Se a língua está sempre em transformação, por que ainda permanecem palavras tão solidificadas e tão cheias de preconceitos? E por que as continuamos falando? Será que mesmo nos dias de hoje temos questões raciais para discutir?


Tais expressões e vocábulos nos dizem muito sobre a nossa história e sobre a nossa subjetividade enquanto sociedade. É sobre isso e outros tantos constituintes do racismo “à brasileira” que nos faz refletir o livro O Racismo e o Negro no Brasil: Questões Para a Psicanálise. Organizado pelas psicanalistas Noemi Moritz Kon, Maria Lúcia da Silva e Cristiane Curi Abud e publicado pela editora Perspectiva, o livro contribui para uma maior compreensão e reflexão sobre o racismo e o preconceito contra o negro, bem como os seus efeitos sobre o psíquico e a subjetividade de quem o sofre. O “racismo à brasileira”, assim chamado na maioria dos artigos, revela a forma e o modo como essa discriminação permanece em nossa sociedade desde os tempos coloniais .

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Jean Baptiste Debret (1768-1848): O retorno à cidade de um proprietário de chácara


A ideia da composição do livro surgiu após experiências e reflexões teóricas do evento organizado pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae em março de 2012, no qual diversos teóricos e profissionais da área e de outros campos do saber se reuniram para discutir, refletir e abrir novos horizontes de combate ao racismo, tendo em vista sua complexidade na sociedade brasileira. Assim, a organização do livro dividiu-se em quatro áreas de ensaios: I. “Negritude em Cena”, II. “Cor e Inconsciente”, este com as subáreas “Educação e Humilhação Racial” e “Cinema e Literatura”, III. “Desdobramentos” e IV. “Vivências do racismo à brasileira: Cenas do cotidiano”, as quais retratam o racismo brasileiro e suas vivências no cotidiano em suas diversas formas, seja na linguagem, nas camadas sociais ou até mesmo em universidades e dentro de salas de aulas. O racismo está presente nas vivências do dia a dia e ocultar essa realidade seria  mera ilusão. Refletir sobre é abdicar de velhos hábitos e formas de pensar e se desvencilhar desses hábitos é um processo demorado. Leva tempo e dedicação. Ter a consciência de atos e falas que precedem um momento histórico de servidão e, portanto, tornam-nas de cunho preconceituoso e racista é o primeiro passo para a mudança.

Tratá-lo como se o assunto fosse meu ou nosso e não apenas do outro é o grande passo para a mudança. É isso que ocorre quando lemos O Racismo e o Negro no Brasil: Questões para a Psicanálise. Sua leitura nos abre novos horizontes, desvencilhando-nos de velhos pensamentos e permitindo-nos, assim, refletir sobre nosso processo histórico-social desde tempos da escravidão, atrocidade humana que perdurou por mais de três séculos e da qual ainda se encontram resquícios. Vale ressaltar que estamos há apenas 130 anos da abolição, não muito tempo, se comparado aos quase quatrocentos anos de um sistema  no qual o negro era cativo e inferiorizado, tratado como um animal a ser “domesticado”. O branco, em contraposição, sempre esteve em sua posição de privilégio e poder, sendo visto como modelo de identificação. Muito do que se refere ao negro no Brasil se deu por representações negativas: o corpo, o cabelo e os lábios são tidos popularmente como “ruins” ou inferiores. Isso imprime sobre o indivíduo um olhar negativo sobre si mesmo, fazendo-se necessário um modelo de identificação que não seja inferiorizado.

A exemplo da linguagem, certas expressões não ocorrem de forma positiva na fala; elas possuem pesar e negatividade – “a coisa está preta”, “a ovelha negra da família” e “não sou as tuas negas” são alguns exemplos.

No contexto social, a desconfiança em assaltos e nos seus suspeitos raramente se dá com pessoas brancas. No âmbito da beleza e da estética, o cabelo “crespo”, “cacheado” e “encaracolado” é “ruim” e precisa ser alisado. Tem-se a “cor do pecado”, a qual se refere à pele morena ou negra, como se para “pecado” existisse cor. Ao se referir à beleza feminina, a beleza negra é por vezes insinuada como uma exceção ou como exótica a qual, por vezes, precisa ser precedida de adjetivação – “uma negra bonita”, “uma mulata com curvas”, enquanto não se ouve “uma branca bonita” ou “uma branca com curvas”, pois costuma ser  referida como “uma mulher bonita” ou “com curvas” apenas, segundo relata o antropólogo Kabengele Munanga em “As Ambiguidades do Racismo À Brasileira”, o primeiro ensaio do livro. Achar que não existe mais racismo é um mero mito que se instalou no jargão da “democracia racial”.

Esses aspectos e outros tantos nos são colocados à mesa na leitura do livro. Portanto, é evidente notar que o “racismo à brasileira” está carregado de ambiguidades e incoerências que se camuflam em nosso cotidiano, mas que, não obstante, causa efeitos na subjetividade de quem o sofre. O mito da democracia racial dá-se com miscigenação do povo brasileiro e o sincretismo das culturas e das religiões; assim,  por vezes, a presença do racismo ou o seu efeito social torna-se neutro ou pertencente “ao outro” . Acredita-se que não há separação entre as raças e que há um convívio amistoso entre elas. Assim se dá a forma do nosso “racismo à brasileira”: muitos negam a sua própria existência ou não assumem os seus próprios preconceitos, pois o racismo está sempre no outro.

Mas será? No Brasil, o racismo relaciona-se ao fenótipo da pessoa e sua posição social, e não a sua origem: se uma pessoa é de família afrodescendente, mas sua pele é clara, ela não é considerada negra, diferente de países como os Estados Unidos ou África do Sul, nos quais o racismo foi institucionalizado e oficializado. No Brasil, ao contrário, o preconceito racial é implícito e “camuflado” pela miscigenação e pela “democracia racial”. Entretanto, atua nos não ditos; atua nas ruas, nas portarias dos prédios, nas periferias, na exclusão social e na violência diária. O livro faz-nos refletir também sobre o negro e sua historicidade racial. Trata de como o negro ficou estigmatizado anos antes da era moderna e do conceito de racismo que conhecemos hoje. Estimula uma reflexão sobre essa gênese do preconceito racial  e nos faz reconhecer o racismo como fator que promove o sofrimento psíquico e interfere na construção subjetiva e em processos de identidade e de identificação como pessoa e como povo brasileiro. Do mesmo modo, dá voz a outras artes como Cinema e Literatura, as quais abordam entrevistas de afrodescendentes e suas vivências com o preconceito e discriminação racial. Por último, o livro relata o amistoso convívio “cordial” do povo brasileiro, o qual mascara o preconceito presente em nossa sociedade, muitas vezes chegando a ser negado por grande parte da população em pesquisas de opinião.

Embora muitas pessoas não se assumam racistas, aquele que o sofre sabe identificá-las, seja no gesto, no olhar e até mesmo em segmentos da sociedade. Se refletirmos sobre o balanço comparativo desta, pode-se observar em dados como os do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) que metade da população brasileira é constituída por negros. Assim, é de se esperar que encontremos parte dessa população em todos os segmentos sociais; entretanto, essa não é a realidade em que vivemos. A distribuição de renda e a concentração negra é superior nas camadas da periferia, em escolas públicas e em empregos tidos como “inferiores” pela população, tais como porteiros, babás, frentistas, faxineiras, coletores de lixo, caixas de mercado, garis, entre outros. Quantos chefes, empresários e empresárias, negros e negras você conhece? Quantos professores negros e negras são vistos em sala de aula de escolas particulares de classe média e alta? A sua diarista é branca, negra ou imigrante? Entrar em uma sala de graduandos em medicina, direito ou engenharia e encontrar em sua maioria brancos não é uma mera questão de mérito por parte dos estudantes. É uma questão para se refletir, assim como refletir sobre o porquê de cargos “inferiores” serem assumidos por negros. Achar que a convivência amistosa, a tal democracia racial, isenta o racismo, é viver de uma rasa reflexão sobre o que realmente tange a questão racial brasileira. Da mesma maneira, é achar que todos temos as mesmas oportunidades.

Será que quatro séculos de escravidão, a ideia de inferioridade do negro repercutida por séculos, sua visão negativa ecoada até em nossa linguagem, não são reflexos do nosso racismo à brasileira e de nossas questões sociais? O Racismo e o Negro no Brasil  assume um papel importante na formação de indivíduos em convívio social. Faz-nos pensar e refletir sobre qual o papel individual e coletivo que devemos assumir. Muitas das questões trazidas não ficam apenas para a área da psicanálise, também outras tantas são levantadas para que possamos refletir.

Coloco em desfecho uma frase da estudiosa e psicanalista Nelsa Souza Santos:   

[…] nada nem ninguém está fora do sistema. Provavelmente, porque o sistema não tem um dentro e um fora. A questão é saber como funcionamos e como ele funciona em nós”

– Nelsa Souza Santos em sua tese Tornar-se Negro.

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