A Grande Mentira

 

Toda mentira traz consigo um desejo.
Juan David Nasio

Em janeiro de 1993, o médico Jean-Claude Romand, uma pessoa aparentemente pacata, assassinou sua mulher, seus dois filhos, seus pais e o cachorro destes. Em seguida tentou suicidar-se, mas não conseguiu. Logo se soube que Romand levava uma vida dupla em segredo, estivera mentindo para sua mulher, sua família e seus amigos por dezoito anos. Fingia ser médico e afirmava trabalhar há anos como pesquisador e alto funcionário da Organização Mundial da Saúde em Genebra. No dia 2 de julho de 1996 foi condenado à prisão perpétua com direito a condicional, pena da qual presumivelmente cumprirá vinte anos.

Aqueles que o conhecem afirmam que, desde pequeno, Jean-Claude possuía uma personalidade introvertida e retraída. Era bom aluno, inteligente, mas pouco sociável. Iniciou seus estudos de medicina em Lyon e, em certa ocasião, já no segundo ano do curso, não compareceu a um exame. Afirmou que não se atreveu a confessar o fato a seus pais por medo do fracasso, e então começaram suas primeiras grandes mentiras: que frequentou todo o curso e o completou. Na realidade, o que fazia era comportar-se como os demais estudantes, assistir às aulas regularmente, vestir a bata, passar o dia na faculdade, indo à biblioteca, carregando livros, anotações e fotocópias de um lado para outro. Simulava comparecer aos exames aparecendo no início e no final dos mesmos. Quando chegou o momento, passou a dizer que havia concluído o curso e obtido um emprego.

Algumas vezes em sua vida afirmou sofrer de câncer, o que atraía o interesse e a compaixão daqueles que lhe eram próximos. Na primeira ocasião serviu para conquistar sua mulher, e na segunda para evitar perguntas e mascarar seu estranho comportamento. Fingia sua ocupação de modo convincente, incluindo a simulação periódica de viagens ao exterior (na verdade, na maioria das vezes hospedava-se perto do aeroporto). Durante anos ninguém suspeitou do falso médico, mas verdadeiro pai e esposo.escher_vinculo-da-uniao_.jpg

Com o tempo, havia conseguido extrair quantias significativas de dinheiro de seus pais e da família de sua esposa. Dava a entender que sua posição como funcionário de um órgão internacional lhe permitia aplicar fundos a uma alta rentabilidade, com isenção de impostos, na Suíça. Quando tirou dinheiro de sua amante para “investi-lo”, ela o exigiu de volta. Teve início aí o desastre. Romand fracassou na tentativa de assassina-la, e, vendo que sua descoberta estava próxima, cometeu o crime quíntuplo.

O relatório dos psiquiatras revelava descrições frias dos fatos, desprovidas de emoção, um esforço para apresentar uma imagem favorável e desejos de agradar o interlocutor, calma e controle excessivos e preocupações com temas menores (por exemplo, se os soníferos que lhe ministravam provocariam dependência). Gerou dúvidas nos especialistas sobre se os sentimentos que exibia eram reais. Durante o julgamento, pediu perdão à família de sua esposa, e assegurou que seu problema havia se originado em sua incapacidade de assumir uma primeira mentira e, depois, todas as outras.

O Que é uma Grande Mentira?

Uma grande mentira é aquela que afeta muitas pessoas, estende-se por muitos anos ou causa dano a muitos, incluindo as pessoas próximas ao mentiroso. Ela toca temas dramáticos ou sensíveis para a opinião pública ou que têm uma grande repercussão na mídia. Mesmo em nossa vida cotidiana, há circunstâncias nas quais uma mentirinha pode se transformar em uma grande mentira. Para distinguir uma mentirinha, uma mentira cotidiana, social ou piedosa, de uma mentira, uma grande mentira, basta perguntar a si mesmo em que situação aquela mentira se torna intolerável ou preocupante.

É surpreendente a existência de uma enorme ambiguidade moral em relação à mentira. Somos educados para acreditar nos outros, para dizer a verdade e para pensar que os outros também estão dizendo a verdade, para repudiar a mentira e para reconhecer e confessar quando mentimos. Quase todos os sistemas religiosos, filosóficos e morais impelem a que se diga a verdade. Com frequência vão além disso e defendem que sua principal missão é descobrir e propagar a verdade, mas, ao mesmo tempo, admitem que há ocasiões especiais em que as coisas não são inteiramente assim, especialmente em casos referentes à vida cotidiana, à cortesia, à mentira piedosa para evitar danos a alguém, à defesa da privacidade ou da intimidade e à proteção da imagem sem causar dano a ninguém. Esses sistemas especificam também quando é aconselhável ou inevitável mentir. O mentiroso conta com a credulidade do outro, cuja profundidade aumenta em virtude da ira, o ciúme, a vaidade ou a soberba. Os preconceitos, as atitudes e a ideologia levam a crer em muitas coisas que não são corretas, mas que se encaixam na visão de mundo que se tem e no modo como se gostaria que fosse o mundo ou a história. A honra ou o orgulho nacional fazem com que se assumam como verdadeiros fatos históricos falsos ou muito duvidosos, incluindo teorias históricas disparatadas. Há guerras em que a mesma batalha é considerada ganha por ambos os lados.

O que há na mente das pessoas que mentem continuamente, como Jean-Claude? Como podem chegar a esses extremos? Os próprios pesquisadores, psiquiatras, psicólogos e criminologistas ainda estão longe de compreender todas as chaves deste comportamento. Não obstante, existem numerosos dados a respeito de sua forma de agir que esclarecem um pouco aquilo que passa pela cabeça dos fabuladores.

Fabuladores, mitômanos e psicopatas:

Fabuladores:

São mentirosos por seu caráter, às vezes patológico, serial. Das pessoas que sentem prazer em mentir sem que ninguém, aparentemente, as obrigue a isto, das que enfeitam suas mentiras, que se destacam por sua originalidade e audácia. Às vezes, levam uma vida dupla, sentem-se atores e costumam ter um senso estético e teatral: atuam e interpretam um papel quando mentem, o que às vezes ocupa todo o seu tempo. O mundo é, para eles, um teatro no qual representam suas invenções no seio de um drama ou de uma tragédia permanentes.

É quase inevitável que um fabulador tente se aproveitar de sua habilidade para enganar outras pessoas. Às vezes, os ganhos que obtém não são diretamente econômicos, mas de natureza social: ser o centro das atenções, ter prestígio ou reconhecimento daqueles que o rodeiam. Um delinquente raramente é um fabulador, para isto são necessários determinados dotes. É possível que consiga imaginar e pôr em prática tramas de uma certa complexidade para conseguir seus objetivos, mas ele carece da criatividade necessária.

Pseudólogos

Há muito tempo os psiquiatras se ocupam das formas patológicas da mentira, que não ocorrem somente nos psicopatas, mas também em outros transtornos. Em 1891, o psiquiatra suíço Anton Delbrück falou pela primeira vez no transtorno que denominou Pseudologo.jpgpseudologia fantástica”, um dos vários nomes que a mentira patológica recebe na psiquiatria. Em pacientes com esse transtorno, a fantasia chega a predominar sobre a realidade. A pseudologia fantástica estaria presente na personalidade psicopática e em vários transtornos mentais. Os pacientes contam histórias que parecem críveis, mas cuja falsidade é fácil de descobrir. Quando são confrontados com os fatos, recorrem a novas invenções para demonstrar que o que haviam dito antes estava certo.

Mitômanos

Já em 1905, Ernest Dupré cunhou o termo mitomania, referindo-se à “tendência constitutiva de certos indivíduos a mentir, a fabular”.

Os mitômanos exageram e mentem de forma sistemática e tendem a acreditar em tudo o que dizem. Na maior parte das ocasiões, sabem que aquilo que dizem é mentira, mas brincam de acreditar, sem avaliar as consequências de seu comportamento. Segundo os especialistas, é muito difícil estabelecer o grau de lucidez de um mitômano, ou seja, até que ponto acredita em suas próprias mentiras. Mitomano.jpg

A mitomania vem acompanhada de crises de angústia, pois o mitômano não está satisfeito consigo mesmo nem com sua maneira de ser, o que gera insegurança e, portanto, certa superficialidade. Desta forma, o mitômano tem a necessidade de buscar a atenção dos outros, de deformar a realidade, para melhorar a imagem ou percepção que as outras pessoas têm dele. Quando é confrontado com sua mentira, cria outra. Quer ser conhecido pelo que não é, e, para ele, o real e o fictício são, na prática, equivalentes.

Psicopatia

A psicopatia é um transtorno que se caracteriza pela carência de sentimentos em relação aos outros. Os psicopatas não conseguem experimentar emoções apropriadas em suas relações com outras pessoas.

Psicopata.jpg

Não se importam em mentir e não sentem remorso.  Não manifestam quaisquer sentimentos de culpa, e, quando os exibem, são simulados ou inconsistentes. Não conseguem experimentar ou apreciar o significado dos acontecimentos emocionais que ocorrem na vida cotidiana. São muito sociáveis e podem ser atraentes, sedutores, dotados de uma imagem encantadora. Todavia, um observador meticuloso pode perceber que sua expressão é demasiadamente polida, mecânica, como se seguisse um roteiro.


Para outras e mais aprofundadas definições sobre distúrbios patológicos que envolvem o ato de mentir, conheça  A Grande Mentiras: Nas Mentes dos Fabuladores Mais Famosos da Modernidade! O livro trata das pessoas que mentem sistematicamente, que fazem ou têm a habilidade de fazer algo que é vetado à maioria dos mortais: mentir muito e em larga escala. Grande Mentira [LSC].jpg

Paralelamente a isto, o livro trata também das histórias de grandes mentirosos e de grandes mentiras, de épocas passadas e atuais. Fala-se sobre alguns dos profissionais e personalidades que tendem a mentir mais do que outros, e que estão proporcionando exemplos chamativos de fraudes: cientistas, hackers, jornalistas, políticos, esportistas, entre outros. O livro oferece explicações para a ocorrência dessas fraudes em massa, e ajuda a saber como reconhecer as grandes mentiras e, até certo ponto, como proteger-se delas e atenuar seus efeitos (quando isso for possível).

Na semana do Dia da Mentira (1 – 08 de abril), o livro estará em promoção e frete grátis no site da Editora Perspectiva. Clique aqui e saiba mais.

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