Quanto Tempo o Tempo Tem? Passado e Futuro, mas Principalmente, o que Há Entre Eles

Yuri Cortez

No dia em que peguei pra ler o Entre o Passado e o Futuro, os meninos lá de casa resolveram que íamos começar a assistir “Dark” (2017), uma série de suspense que gira em torno de uma pacata cidadezinha no interior da Alemanha onde o tempo não parece funcionar como deveria. As coisas se repetem em um ciclo agoniante, as personagens estão presas a um loop temporal, os que tentam lutar contra se enfiam em labirintos de angústias e profecias autorrealizadas, e em função disso a própria cidade se comporta moribundamente, como se fosse uma ferida gangrenada na realidade, conforme nos dizem os próprios habitantes sempre que podem.

Duas semanas antes, eu conversava com minha mãe sobre o filme que ela tinha acabado de ver: “Feitiço do Tempo”, um filme de 1993 em que Bill Murray interpreta um meteorologista – notoriamente canalha – que fica preso no tempo, revivendo de novo e de novo o mesmo dia – por dez mil anos, segundo o roteiro original. Um século antes disso, Fitzgerald nos contava a vida de um Benjamin Button (1922) que, ludibriando o tempo natural, nasceu um velho caquético para ir rejuvenescendo ao longo dos anos, impossibilitado de construir relacionamentos humanos significativos ao longo de sua cômica vida. Uns vinte anos antes, H. G. Wells punha pra funcionar sua Máquina do Tempo (1895), e seu Viajante do Tempo se deparava com a humanidade devorada por sua própria fúria, no futuro dominado pelos Morlocks. Toca a voltar mais uns quarenta anos e nos encontramos com Carlota e seu marido, a quem José de Alencar só concedeu a vida feliz por conta de um atraso de Cinco Minutos (1856).

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Nossa cultura, onde quer que você coloque os limites dela, passa boa parte do tempo se preocupando com a passagem do tempo, contra qual lutamos constantemente, justamente porque vivemos o período em que “tudo o que é sólido desmancha no ar” e cada vez mais rápido. Parece inverossímil querermos nos servir do passado como fonte de inspiração e de guia moral, como o faziam os romanos; tampouco parece viável, num futuro que parece cada vez mais curto ou desconectado de nós, termos a pretensão dos gregos de deixar nossos nomes gravados na eternidade. Estamos em luta constante com o tempo, como nos diz Kafka, num conto citado pela própria Hannah Arendt no prefácio de seu livro:

Ele tem dois adversários: o primeiro acossa-o por trás, da origem; o segundo bloqueia-lhe o caminho à frente. Ele luta com ambos. Na verdade o primeiro ajuda-o na luta contra o segundo, pois quer empurrá-lo para frente, e, do mesmo modo, o segundo o auxilia na luta contra o primeiro, uma vez que o empurra para trás. Mas isto é assim apenas teoricamente. Pois não há ali apenas os dois adversários, mas também ele mesmo, e quem sabe realmente das suas intenções? Seu sonho, porém, é em alguma ocasião, num momento imprevisto — e isso exigiria uma noite mais escura do que jamais o foi nenhuma noite — saltar fora da linha de combate e ser alçado, por conta de sua experiência de luta, à posição de juiz sobre os adversários que lutam entre si.

Este querer saltar para fora da luta e tornar-se juiz sobre os adversários representa E160 PR-2 TempoNaoReconcilia 01justamente, segundo Arendt, o desejo humano pelo pensamento, um pensamento sobre as coisas que chega mesmo a interromper a pressão do fluxo do tempo. Mas o século XIX, nos diz a filósofa, assistiu ao ocaso da tradição de pensamento que servia de referência para o Ocidente desde Platão. Nos vendo órfãos de uma tradição, e donos de um conceito de História diferente de todos os anteriores, Arendt se dá ao trabalho, ao longo dos ensaios que constituem o livro, de demonstrar como se deu a diluição de nossos laços com a tradição que nos precedia, de imaginar novas bases políticas e filosóficas sobre as quais possamos construir nosso pensamento, apesar da falta que uma tradição nos faz, e de aplicar, por fim, alguns de seus novos princípios a problemas mais específicos, como nossa relação com a ciência ou com a educação – ela nos fornece, enfim, uma espécie de guia de como pensar em um mundo em que a tradição não faz mas sentido.

Essa convocação ao pensamento e à reformulação teórica, feita há meio século atrás, parece prosseguir atual. Para filósofos como Slavoj Zizek, movimentos dos últimos anos como o Occupy Wall Street ou a chamada “Primavera Árabe” padecem do mesmo problema que a esquerda em geral passou a enfrentar desde a dissolução da União Soviética: o descontentamento com o estado das coisas não produz necessariamente um projeto alternativo viável que não esteja dentro do quadro de referência da própria democracia liberal capitalista. O que fazer “depois que estourar a revolução”?

Tanto Arendt quanto Zizek nos convidam a conter a ânsia pelo agir politicamente – um ímpeto que parece revolucionário, mas que tem também uma forte ligação com o utilitarismo do mundo burguês –, para exercer com mais paciência e rigor o pensar politicamente. Este convite, porém, carrega consigo um risco difícil de desprezar; mais do que um perigo para nossa “estatura” e para nossa noção de valor diante do Cosmo, os avanços técnicos – que se aceleraram ainda mais desde que começamos nossa “conquista do espaço” – significam uma ameaça à própria existência da vida humana, e da vida em geral, no planeta Terra. Haverá, em um quadro como esse, espaço para que saltemos do fluxo passado-futuro para avaliar com a calma necessária as nossas possibilidades? Ou será que o pensamento e a análise produzidos dessa forma, desengajados do compromisso com a ação política, resultarão em conceitos sempre caducos, ou na iminência de caducar?

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Uhrpflanzen, de Paul Klee

Entre os muitos que se preocuparam com nossa luta contra o tempo, um deles foi Isaac Asimov. No romance O Fim da Eternidade (1955), os seres humanos eventualmente desenvolvem a tecnologia de viagem no tempo, e ligada a ela “a Eternidade”¹, um ponto de existência fora do tempo. Conforme refinam sua capacidade de entender e controlar os acontecimentos, livres das amarras do tempo, os “Eternos” – os viajantes do tempo – vão produzindo alterações na História de cada século, de forma a garantir o máximo de alegria e o mínimo de catástrofes para os seres humanos que vivem dentro do fluxo do tempo, que não se dão conta das transformações que acontecem. O principal problema que daí decorre – mas não o único – é que conforme as alterações acontecem,  os períodos de tempo controlados pela Eternidade vão ficando cada vez mais padronizados e indiferenciados. Eventualmente, a originalidade da raça humana é suprimida a ponto de nunca ser capaz de desenvolver a viagem interestelar e conquistar a galáxia.

A conclusão a que chegam a heroína e o herói de Asimov é que a possibilidade de existência de um Império Galáctico é preferível a um mundo onde estabilidade e segurança sejam garantidos pela capacidade dos Eternos de, fora do fluxo do tempo, regular a felicidade humana – como se o risco da ação sem muita referência fosse preferível à ação excessivamente calculada. Talvez  a estória do escritor não resolva propriamente as questões sobre o tempo e o pensamento que nos propõem os filósofos, mas ela certamente dá um pingo a mais de esperança para nós que, incapazes ainda de produzir qualquer máquina ou artifício para nos liberar de fato da peleja, seguimos presos entre os dois lutadores.


¹Aí também nos lembramos de Santo Agostinho, quando diz: Fixar-me-ei e consolidar-me-ei em ti, na minha forma, que é a tua verdade, e não suportarei as perguntas dos homens que, por enfermidade resultante do pecado, têm sede de saber mais do que lhes permite a sua capacidade, e dizem: ‘Que fazia Deus antes de fazer o céu e a terra?’  ou: ‘Porque é que lhe veio à mente a ideia de fazer alguma coisa, quando antes nada tinha feito?’ Concede-lhes, Senhor, que pensem bem no que dizem e descubram que não se diz a palavra ‘nunca’, quando não existe tempo. Dizer de Deus que ele nunca criou, que coisa é senão dizer que ele criou em nenhum tempo? Vejam, portanto, que nenhum tempo pode existir sem a criação e deixem de dizer tal vacuidade. Procurem também abarcar as coisas que estão diante de si e compreendam que tu, antes de todos os tempos, és o eterno criador de todos os tempos, e que nenhuns tempos te são coeternos. (Confissões, Livro XI, Cap. XXX).

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