Cidades Para Pessoas

Jaime Lerner *

Se a vida, como disse Vinícius de Morais, é a arte do encontro, a cidade é o cenário desse encontro – encontro das pessoas, espaço das trocas que alimentam a centelha criativa do gênio humano.

Encontro que tem que se traduzir em qualquer momento de convivência com a cidade, seja no trabalho, no transporte, e também no lazer.

O trabalho de Jan Gehl foca aquilo que a cidade tem de mais importante: sua dimensão humana, as oportunidades de encontro que ocorrem nos espaços de vivência das relações cotidianas, e como esses territórios precisam ser estruturados para que essa dimensão não se perca.

A premissa condutora desse grande urbanista é que as nossas cidades podem ser melhores se forem pensadas para aqueles que as criaram: as pessoas.

Gehl aborda, de forma aprofundada, objetiva e ricamente ilustrada, questões que são fundamentais à qualidade de vida na cidade e que se refletem na escala dos espaços, nas soluções de mobilidade, nas dinâmicas que favorecem a vitalidade, sustentabilidade e segurança das áreas urbanas, na valorização dos espaços públicos, nas possibilidades de expressão individual e coletiva, na beleza daquilo que pode ser apreendido ao nível do observador.

Cidade para pessoas

A mobilidade é um componente essencial à saúde da cidade. As cidades não podem ser pensadas para os carros. O ritmo do encontro é o ritmo da caminhada. Precisamos desenhar as nossas cidades para que o espaço do pedestre seja determinante, e que outros modos leves de deslocamento, como a bicicleta, também sejam favorecidos. O transporte público precisa ser de qualidade, oferecendo confiabilidade, conforto e dignidade ao usuário.

Para a dinâmica urbana como um todo, a densidade gera a massa crítica necessária para dar suporte a uma gama mais ampla de serviços – cultura, arte, lazer, entretenimento, gastronomia – que tornam a vida citadina mais interessante e que fortalecem a base econômica local. Essa massa crítica também permite otimizar investimentos em infraestrutura como transporte de alta capacidade, redes de energia e saneamento, tecnologia de comunicação e lógica. Há ainda o ganho de vitalidade dos espaços públicos pela intensidade de pessoas circulando e freqüentando lugares, o que traz a sensação de proximidade, de companhia, de compartilhamento, de inclusão, de animação.

A diversidade é o que traz a riqueza da mistura, do complementar, do diverso. É expressa nas diferentes etnias, nas diferentes idades, nas diferentes rendas, nos diferentes usos, nas diferentes tipologias que animam o cenário urbano. Conecta-se a dois elementos fundamentais à qualidade de vida urbana: a identidade e a coexistência. A identidade gera o sentimento de pertencimento, a referência que nos orienta enquanto cidadão. No âmbito urbano a identidade se reflete nos vínculos que estabelecemos com os espaços da cidade, seus elementos de referência – patrimônio histórico, rios, ruas, praças e parques, edifícios emblemáticos – e que passam a fazer parte constitutiva do nosso cotidiano. Quanto mais diversificada for a cidade, mais humana ela será, na medida que se entenda que a coexistência – a receita de se abraçar a diversidade enquanto se valoriza a identidade – for exercitada.

Na relação entre diversidade, identidade e coexistência reside um dos segredos da segurança e da saúde da cidade.

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A sustentabilidade reflete o diálogo entre o ambiente urbano e o natural. Se, por exemplo, alienamos os rios da paisagem da cidade, enterrando-os em caixas de concreto que forma que desapareçam da vista, perdemos essa referência e a possibilidade de averiguar a qualidade de suas águas. Em contrapartida se ao longo de suas margens implantamos um parque linear, se incorporamos o seu usufruto a nossa vivência urbana, a dimensão ambiental se valoriza e a sustentabilidade aumenta. Se combatemos o desperdício de todas as formas, aproximando-o de zero, reciclando o lixo, utilizando formas de deslocamento mais eficientes, aproximando funções urbanas de vida e trabalho, a sustentabilidade tenderá ao infinito.

Ruas, praças, parques: os espaços públicos são essenciais ao bom ambiente urbano. A forma como são desenhadas e mantidas essas “salas de estar” ao ar livre e, sobretudo, a interface que a dimensão privada a elas oferece – janelas, “olhos”, permeabilidades ao invés de muros, grades, barreiras – é determinante na vivacidade do cenário citadino.

Conquanto a cidade seja também o cenário de trocas econômicas, de produção cultural, de exibição de avanços tecnológicos, de fluxos e deslocamentos, ela é, acima de tudo, o lar da maioria da humanidade.

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Criação humana por excelência, é nelas que as batalhas decisivas pela qualidade de vida de mais da metade da população do planeta serão travadas, e seus desdobramentos terão um efeito definidor no meio ambiente e nas relações sociais.

O autor destaca que inicialmente nós moldamos as cidades – depois elas nos moldam. Assim, quanto mais humano for o espaço urbano que produzirmos, mais valorizada nossa dimensão humana estará. Uma cidade de pessoas para pessoas.

 


*Introdução do livro Cidades Para Pessoasde Jan Gehl.

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