Uma Prece Escrita É Só a Lembrança de uma Prece: O Inverno de Aharon Appelfeld

Lucas Bento Pugliesi

O filósofo do século XVIII Johann G. Herder notabilizou-se, entre outras coisas, por endossar a ideia de que não pode existir pensamento sem linguagem. Para além, o evento linguístico primordial se daria pela emergência da consciência. O ato reflexivo pediria uma ferramenta que lhe permitisse acontecer. Em sua concepção de história, Herder dará especial destaque à linguagem e a cultura que, para o autor, revelam muito mais sobre as condições de um povo e de um tempo do que as grandes narrativas dos acontecimentos memoráveis.

Se concordarmos com Herder, a vida do escritor judeu Aharon Appelfeld, assim como sua obra, ganham contornos especificamente convulsos:

No instante em que me parecia que ele ia me repreender por eu ter ido ao bordel, ele se voltou para mim e disse ‘Mosche Rabenu, o pai dos profetas, era gago como você. Ele, que trouxe para nós dos céus os Dez Mandamentos e a Torá inteira, era gago.

Com essa passagem se elucida o paralelo mais explícito entre a narrativa pessoal de Expedição ao Inverno e a tradição da bíblia judaica. Assim como o gago Kuti, o jovem narrador que acompanhamos ao longo do romance, o autor Aharon Appelfeld vai buscar na opacidade do Pentateuco as lições que lhe permitam retrabalhar a experiência vivida.Expedicao ao Inverno [P28]

Órfão que se vê impelido à emancipação antes mesmo do bar mitzvah que o tornaria homem, Kuti procura encontrar na escrita hebraica o remédio para sua mudez infantil. Em outra instância, sobrevivente da Shoá, obrigado ao exílio em terras e línguas estrangeiras, Appelfeld, como seu narrador, encontrará na língua e na cultura ancestral o modo para retrabalhar o silenciamento traumático.

Como observa o tradutor e comentador Luís Krausz, a história de Appelfeld é a da desterritorialização da língua materna, configurando-se a partir daí o entrelugar identitário comum a todos os judeus da Europa central que viram ruir as promessas de integração, a partir da ascensão fascista.

O retorno ao hebraico é o movimento reativo daqueles que pertenceram a uma cultura que se perdeu, e é justamente desses últimos dias antes da queda que trata Expedição ao Inverno. Narra-se a pacata vida dos habitantes de uma vila remota, notória por receber turistas em peregrinação religiosa para conhecer o “homem milagroso”, um velho rabi que ainda domina, de sua cegueira e de seu claustro, os antigos conhecimentos sagrados.

A paisagem e a economia da vila fictícia se justificam devido à necessidade dos turistas em visitar o homem milagroso que oferece cura para o mal largamente difundido da melancolia.

Personagem central da narrativa que só se faz presente em dois breves e fantasmáticos momentos, o rabi oferece a todos seus pacientes uma mesma cura: escrever os versos das rezas em hebraico três vezes ao dia. Oferece o trabalho da escrita no retilíneo papel, oferece, portanto, a reterritorialização da cultura como cura para o estado de apatia daqueles que buscam lhe ouvir.

As tramas secundárias que se desenvolvem em paralelo à narrativa do jovem gago tratam com leveza do tema da desagregação. Hitler é mera sombra ao longo de todo o romance, mencionado quase em tons proféticos como arauto do fim dos tempos. Desapercebida de sua existência,  a maioria dos judeus da vila perdida nos confins da Romênia prossegue com seus hábitos, incauta dos eventos que margeiam o espaço restrito.

Toda a ação do romance, que transcorre ao longo dos anos da juventude de Kuti, se passa num único espaço como um drama clássico aristotélico. O domínio do presente verbal da tradução unifica temporalmente a ação: a despeito de assistirmos o desenvolvimento de Kuti, tudo parece se dar no ínterim de um único dia. É essa extrema condensação temporal e espacial que gera o efeito de estreitamento e familiaridade. Ao tratar naturalmente da sucessão de eventos, o narrador nos coloca em pé de igualdade com seus juízos, de modo que nos obriga também a aceitar, com a mesma passividade das personagens, a transformação da vila em campo de refugiados e em seguida, em simulacro de campo de concentração.

Os festejos etílicos dos hóspedes do hotel dão lugar ao desespero dos viajantes que chegam à estância, fugindo da guerra. Ao final da tarde, como fruto de uma causalidade evidente, os hóspedes/refugiados são obrigados a marcar suas roupas com estrelas douradas. Nessa etapa, da ameaça fascista tem-se também um simulacro: a polícia alemã que ordena as tarefas dos habitantes locais.

O espaço condensado do drama se converte em prisão a céu aberto. O direito de ir e vir é cerceado, o aproveitamento do tempo é tolhido e, num instante, os judeus se vêm obrigados a exercer os mais arbitrários trabalhos. Como observa Theodor Adorno, o trabalho no campo de concentração não produz nada, é um fim em si mesmo, para manter os prisioneiros vivos, ocupados, prolongado-lhes o sofrimento.

Primo Levi, também sobrevivente da Shoá, afirmou que se descobriu judeu em Auschwitz; ecoando suas palavras, Appelfeld faz com que a polícia alemã insufle as práticas judaicas em seus cativos. Assim é a polícia que ordena a reconstrução da sinagoga e as subsequentes rezas diárias. A ação kafkiana tratada, sempre com perturbadora naturalidade pelo narrador, esboça o sentimento absurdista daqueles judeus que até ali se viam integrados ao mito europeu, à cultura tolerante do Império Austro-Húngaro. Em dado momento, pergunta-se a uma das personagens se seus carcereiros desejam lhe fazer regressar à Idade Média. A contemplação passiva da protagonista coloca em cena, uma vez mais, a dificuldade linguística. A gagueira impede a interpretação do pesadelo que se apresenta.

De fato, agudamente, a ascendência judaica das personagens só é posta em cena depois da ação dos policiais. Para acrescentar matizes ao absurdo, é a Alemanha, tão admirada por sua cultura, por seu rigor e por sua organização militar, que obriga a diferenciação. Àquela cultura que mais se desejava consumir é a mesma que força a ruptura, produz o trauma e esteriliza a fala e a consciência.

No drama de Expedição ao Inverno isso se dá como consequência orgânica de um processo. Como se as vítimas outrora houvessem assinado um contrato hermético sem ler as letras miúdas. Diante da inescrutabilidade das leis do progresso europeu, os judeus recém descobertos vêem-se obrigados a retornar a algo de mais essencial. É dos rústicos pastores que emerge a reação de resistência à violência exterior. A partir daí, engendra-se uma comunidade preocupada com a sobrevivência de seus membros. A melancolia que então guiava esses homens para o exílio entra em suspensão, é tempo de retesar os músculos, cultivar o corpo, reagir.

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E é aí que a escrita de Appelfeld se imiscui na escrita de Kuti. Se na língua materna Kuti fora quase mudo e depois gago, é nas letras hebraicas que suplementará suas falas. Como é a escritura um suplemento para a palavra profética do gago Moisés. O texto da Torah interpela a narrativa e seus eventos adquirem um caráter alegórico. A fuga do Egito convertida na fuga do vilarejo antecede à escalada dos picos nevados, do Monte Sinai. A necessidade de fuga da cultura hegemônica instituída anuncia o novo pacto entre Deus e os homens.

É possível ler na final expedição ao inverno, quando em diáspora os habitantes do vilarejo deixam suas casas rumo ao inóspito das montanhas, a anunciação histórica do Estado de Israel. Mas é possível ler também a atualização da narrativa de Moisés. Aqui, inacabada. Não há garantia de um novo pacto. Não há garantia de sublimação. Se na Torah Moisés desce da montanha com a palavra concreta talhada na pedra, aqui, a descida é do campo da expectativa e da incerteza. Vacilantes as personagens decidem carregar o Texto em suas jornadas.

Pois justo, algo se aprendeu da história. Diante o cálculo pragmático do progresso que sumariamente excluiu os judeus do horizonte futuro, não é possível mais acreditar certamente na salvação ulterior. O futuro não carrega mais a certeza confiante, positivista ou messiânica. Carrega a dúvida, a promessa. Promessa sempre nos liames da não-realização. Com o alvorecer da crise, os melancólicos viajantes se voltam para a palavra do homem milagroso, ela também, vazia, enigmática. Diferente da Torah, Deus está ausente, restam as palavras fragmentadas sem a garantia de verdade. Foi-se a voz, ficou a tábua.

É nessa aporia linguística, no interstício da reconstrução conceitual do misticismo judaico, de um lado, e da falência da filosofia da história de outro, que Appelfeld busca, como seu protagonista, respostas para a maldição que lhe atingiu.

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