Matéria ou Mente?

Gita K. Guinsburg

“Ofereceram-me um abacate.

Ele é nutritivo – uma sentença objetiva; 

Eu gosto de abacate – uma sentença subjetiva.

Efetivamente apenas uma parte de mim gosta dessa fruta, ou seja, meu cérebro. Essa fruta – uma coisa a mais, sem dúvida – é o que me faz pensar. Sem o abacate, eu não seria eu. Meu cérebro é uma coisa material, embora viva, e não é somente uma coisa física. E essa mente, quero dizer, a minha, é um subconjunto de minhas funções cerebrais, do mesmo modo que meus sorrisos são contrações de meus músculos faciais – embora não automáticos, mas desejados pelo meu córtex pré-frontal. Nenhum órgão, nenhuma função. Em resumo, há coisas materiais, como cérebros, bem como processos que nele ocorrem, como pensamentos e sentimentos. Em outros termos, há isso e aquilo, ou coisas materiais, e há nós, nós mesmos.”¹

cérebro

Há vários modos de um mestre se aproximar de seus alunos. Em geral, ele apresenta o objeto de sua aula e faz uma pergunta. E é assim que começam as discussões e reflexões sobre o tema. Mario Bunge nos oferece um abacate acompanhado de uma instigante discussão. Ele apresenta uma Persea americana, qualificada como altamente nutritiva e que ajuda a manter o coração em ordem, e nos diz: “Quando afirmo ‘eu gosto de abacate’ – trata-se de uma sentença subjetiva. De fato, apenas uma parte de mim ‘gosta’ dessa fruta, ou seja, meu cérebro. Essa fruta é o que me faz pensar. Sem o abacate ‘eu’ não seria eu”. E vem logo à nossa mente a pergunta: é possível separar a matéria, essa coisa altamente “nutritiva”, da mente – que muitas vezes situamos poeticamente no “coração” quando gostamos de algo –, que não fica em um músculo que pulsa com ritmo, mas no cérebro, quando me defino como “eu”?

Essa é a questão que Bunge analisa e procura encaminhar a partir de conceitos básicos do conhecimento do mundo e do homem. Na verdade, matéria e mente são noções que perseguem a história das religiões, da filosofia, do saber e da ciência em geral, uma vez que suas esferas de significações e definições têm sofrido mudanças cruciais no curso do tempo, acompanhando cosmovisões de diferentes épocas e pensadores, imbricadas na organização das sociedades e no progresso das ciências do homem e da natureza em geral.

BB PR-3 (CAPA) MatMente_2017.inddMesmo hoje, diferentes pontos de vista se defrontam na cena dos debates. Como físico, lógico e filósofo, Bunge passa em revista diversas e conflitantes mundivisões para estabelecer aquela que poderá proporcionar a esses conceitos o único âmbito que permite uma estruturação das ciências  dentro de parâmetros rigorosamente científicos, na direção do almejado entendimento dos fenômenos.

Assim, partindo das definições clássicas de matéria, de sua mutabilidade e da energia como uma de suas propriedades mais aparentes, e discutindo a trilha dos idealistas aos materialistas, dos monistas aos dualistas, dos behavioristas aos psicólogos – atentos aos descaminhos das pseudociências –, Bunge foca quase tudo que a mente faz, da matemática ao pensamento e às crenças e, assim, baliza o roteiro da neurociência cognitiva afetiva e social em seu avanço na busca de explicações de como o sensiente sente, o pensante pensa e o aprendiz aprende, e de como o vício pode nos dominar e a debilidade nos afetar. Ainda que a tecnologia surpreenda quando a máquina ganha uma partida de xadrez, decifra uma mensagem criptografada ou até se autoalimenta, convém lembrar que o homem que a programou, ou concebeu qualquer outro recurso para atingir certos fins, incorporou aí ideias e valores para o bem e, às vezes, para o mal. A esse fato indiscutível, cabe acrescentar que ele o faz, muito embora na busca contínua pela verdade e por teorias mais afinadas aos fenômenos naturais, não deixe de admirar-se ao ver um paraplégico caminhar, reabilitado na sua capacidade de locomoção pelo pensamento intermediado por dispositivos criados pelos cientistas.

Mario-Bunge-Físico

Por isso mesmo, a leitura de Matéria e Mente, que a editora Perspectiva publica na sua coleção Big Bang, deverá interessar a todo aquele que queiram ampliar sua visão deste universo complexo que nos envolve. Pois, como aconselha Bunge, cumpre pensar que sendo todas as coisas reais, materiais, a partir de uma teoria realista do significado é possível conhecer a realidade, de início parcial e gradualmente, pela combinação da conjectura com a experiência. Assim mesmo, o cientista alerta o seu leitor para que não denuncie ideias novas como “pseudocientíficas” só porque lhe são estranhas. É preciso ter, encarece ele, o espírito aberto, mas não “carente de filtros filosóficos, se é que se pretende alcançar um conhecimento capaz de legitimar-se objetivamente por sua validade e abrangência”.


Trecho do Prefácio de Matéria e Mente.

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