Ecos Urbanos – A Pergunta na Ponta da Língua

Por Anita Di Marco*

Autores, tradutores, revisores, preparadores de textos e professores são profissionais que lidam com a palavra escrita, com seus diferentes significados, acepções e conotações. Lidam com definições, análises, perguntas e esperam respostas, assumindo o peso e o caráter permanente do texto escrito.

Arquitetos e urbanistas lidam com espaços individuais ou coletivos, públicos ou privados; com lugares vazios ou não, abertos ou fechados. Lidam com o universo individual do projeto e com o universo público e comum da cidade.

Junte esses profissionais em um espaço urbano, em qualquer combinação, e você terá uma série de perguntas inevitáveis que exigem respostas nem sempre encontradas.

Algumas dessas perguntas ecoam há tempos, como se um tempo dilatado fosse adequado para obtenção das respostas, mas respostas dadas por outros, pelos responsáveis pelas propostas, criação, manutenção e vitalidade ou não dos nossos espaços, porque os espectadores, usuários e meros cidadãos não têm o poder de modificar algumas situações recorrentes nas nossas cidades. Ou têm?

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A inexistência de calçadas é uma das perguntas não respondidas de forma adequada. O pedestre deveria merecer um mínimo de consideração por parte do proprietário do lote privado ou do poder público, no caso de áreas públicas. Além de malcuidadas, esburacadas, com trechos faltantes, há ainda calçadas inexistentes diante de lotes vagos. Terra, mato, pedras, placas de madeira ou compensado, papelão…qualquer coisa, menos uma calçada. O pedestre, se quiser, que ande pela rua e leve consigo os carrinhos de bebê, os idosos ou pessoas com problemas de mobilidade. Enfim, o problema da calçada inexistente passa a ser dos pedestres e não do proprietário do lote, ou do poder público.

Sistema viário é outro problema. Para tudo há necessidade de um planejamento mais abrangente e global incluindo a expansão urbana, novas conexões, hierarquização ou abertura de novas vias, entroncamentos, rotatórias, mudanças de direção etc. Na grande maioria das cidades, tudo parece ser feito precipitada e pontualmente, na base do “porque sim”, na tentativa de resolver questões emergenciais e não dentro de um plano maior e de longo prazo para o bairro que, é evidente, deve se encaixar do plano maior da cidade. Além do plano, qualquer cidadão, seja ele motorista ou pedestre, deve ser educado para respeitar a sinalização, mas….

Transporte público vs. privado garantindo ampla mobilidade urbana. Isso não é uma luta, um embate, como querem fazer crer.

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Todos podem ser favorecidos com um melhor estudo do sistema viário e do sistema de transportes, mas é claro que o transporte público, como o próprio nome diz, transporta um número muito maior de pessoas, portanto, deveria ser priorizado. Sempre. Ciclovias também deveriam ser instaladas e respeitadas. É assim em vários locais do mundo, em cidades que todos admiram e invejam. Mas por que não aqui?   Outra pergunta de difícil resposta.

Loteamentos, “bairros” novos, condomínios abertos e fechados; e aí, outra pergunta que sempre me intrigou: como assim, fechados? Fechados para onde? Para quem? Para a cidade? Pausa para expressão de perplexidade…

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Enfim, bairros que se espalham pelas cidades, em todas as direções e em todos os cantos, como moscas no mel, sem um mínimo de planejamento urbano integrado e visão geral que deveria gerir e comandar o crescimento urbano. Muitas vezes, os novos “bairros” não passam de um aglomerado de novos lotes, sem qualquer infraestrutura, com ruas que cortam as curvas de nível de forma abrupta e insensata, sem pensar na declividade mais propícia para escoamento das águas ou na localização das áreas institucionais em terrenos aproveitáveis com condições de oferecer à população os serviços necessários, como escola, posto de saúde ou praças etc. Aliás, parques urbanos, praças e áreas verdes também parecem não existir nos novos loteamentos. Ou seja, parece que o próprio entendimento do que significa um bairro vem se perdendo, ao longo do tempo e da necessidade de fazer negócios e obter lucros, sem qualquer preocupação com o cidadão, com a moradia adequada na dimensão urbana.

Será que na elaboração do plano de um novo loteamento pensou-se na facilidade de acesso, no transporte público, na questão da mobilidade, na melhor localização dos serviços para os usuários, nas áreas de lazer? Será que em vez de salpicar espigões por toda a cidade uma área central mais adensada não seria uma resposta mais econômica, ambientalmente mais correta e melhor para os moradores? Será que visualmente, a cidade não ficaria mais agradável?

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Cidades mais agradáveis e acolhedoras, com ruas amplas com prédios de alturas similares, espaço público com áreas verdes e bons equipamentos, calçadas mais ativas? Só pensando e imaginando… Que imagem de cidade trazemos em nossa imaginação? Que cidade queremos para nós e para nossos filhos? Nunca é tarde para buscar tal resposta…

*Texto postado originalmente em Anita Plural.

 

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