Por um Urbanismo Mais Humano

“A sociedade industrial é urbana. A cidade é o seu horizonte. Ela produz as metrópoles, conurbações, cidades industriais, grandes conjuntos habitacionais. No entanto, fracassa na ordenação desses locais. A sociedade industrial tem especialistas em planejamento urbano. No entanto, as criações do urbanismo são, em toda parte, assim que aparecem, contestadas, questionadas. Das superquadras de Brasília aos quadriláteros de Sarcelles, do fórum de Chandigarh ao novo fórum de Boston, das highways que cortam São Francisco às grandes avenidas que rasgam Bruxelas, são evidentes a mesma insatisfação e a mesma inquietude. A amplitude do problema é atestada pela abundante literatura que suscita há vinte anos.

Este livro não se propõe a trazer uma contribuição suplementar à crítica dos fatos; não se trata de denunciar uma vez mais a monotonia arquitetural das cidades novas ou a segregação social reinante nelas. Quisemos procurar a significação em si dos fatos, colocar em evidência as razões dos erros cometidos, a raiz das incertezas e das dúvidas levantadas hoje por qualquer nova proposta de planejamento urbano. Nossa análise e nossa crítica têm, pois, por objeto, as ideias que fornecem suas bases ao urbanismo.

Este termo deve ser antes definido, pois está carregado de ambiguidades. Absorvido pela linguagem corrente, designa através dela tanto os trabalhos do gênio civil quanto os planos de cidades ou as formas urbanas características de cada época. De fato, a palavra ‘urbanismo’ é recente. Gaston Bardet remonta a sua criação a 1910. O dicionário Larousse define-a como ‘ciência e teoria da localização humana’. Este neologismo corresponde ao surgimento de uma realidade nova: pelos fins do século XIX, a expansão da sociedade industrial dá origem a uma disciplina que se diferencia das artes urbanas anteriores por seu caráter reflexivo e crítico, e por sua pretensão científica. Nas páginas seguintes, ‘urbanismo’ será empregado exclusivamente nessa acepção original.

urbanismo-e-o-futuro

O urbanismo não questiona a necessidade das soluções que preconiza. Tem a pretensão de uma universalidade científica: segundo as palavras de um de seus representantes, Le Corbusier, ele reivindica ‘o ponto de vista verdadeiro’. Mas as críticas dirigidas às criações do urbanismo são feitas também em nome da verdade. Em que se baseia essa discussão de verdades parciais e antagônicas? Quais são os paralogismos, juízos de valor, paixões e mitos que revelam ou dissimulam as teorias dos urbanistas e as contrapropostas de suas críticas?

Procuramos extrair o sentido explícito ou latente tanto daquelas quanto destas. Para tanto, ao invés de partir diretamente das controvérsias mais recentes, recorremos à história das ideias. Pois o urbanismo quer resolver um problema (o planejamento da cidade maquinista) que foi colocado bem antes de sua criação, a partir das primeiras décadas do século XIX, quando a sociedade industrial começava a tomar consciência de si e a questionar suas realizações. O estudo das primeiras respostas dadas a essa questão deve esclarecer as propostas que se seguiram e revelar, em sua pureza, certas motivações fundamentais que os sedimentos da linguagem, as racionalizações do inconsciente e os artifícios da história a seguir dissimularam.”

Os parágrafos introdutórios de O Urbanismo: Utopias e Realidades sintetizam oO Urbanismo (E67) pensamento de Françoise Choay neste livro que, além de uma proposta, é uma crítica.  O urbanismo foi uma tentativa de responder, em termos de uma dada razão e de uma dada estruturação,  naturalmente sócio-histórico-culturais, problemas levantados pela introdução maciça da máquina na cidade do homem. Mas as soluções apresentadas sempre estiveram baseadas na ideia de modelo, a cujas regras o projeto urbanístico tem procurado até agora submeter, por um verdadeiro ato de força, a realidade. Desde o início da tentativa da planificação, isto é, desde os utopistas do século XIX, surgem algumas imagens propostas da cidade capaz de resolver as aflições de seus cidadãos. Desses projetos o urbanismo do século XX pouco se desviará, pelo menos em essência. Assim, temos um modelo racionalista, que privilegia o rendimento; outro, tradicionalista, que adora valores afetivos; e um terceiro, antiurbano, que aspira reintegrar a cidade no campo. A partir dessas três composições básicas se ramificam, até hoje, projetos aparentemente muito diferenciados, mas que, reduzidos a seus componentes, revelam parentescos com as citadas estruturações fundamentais.

Os sucessivos malogros a que tal orientação levou o urbanismo decorrem, provavelmente, em grande parte do caráter abstrato de suas matrizes. Daí impor-se a conclusão de que não será possível superar semelhante estado de coisas sem recorrer a um urbanismo menos teórico e mais humano. É o que se começa a fazer em várias partes do mundo, graças, entre outros fatores, à força e realce que ganha dia a dia a questão ecológica e ambiental no horizonte da sociedade contemporânea. Para tanto, são utilizados novos elementos, como a análise estrutural e semiológica do quadro urbano, que se constituem em instrumentos valiosos na mobilização de meios de conhecimentos capazes de contribuir para a instauração de um urbanismo adaptado ao habitante.

É essa a visão da historiadora arquitetônica francesa, sintetizada num ensaio sobre o urbanismo em questão, consistindo na revisão das principais ideias de 37 autores cujos textos, às vezes de difícil acesso, formam uma antologia que vai de Fourier a Wright, de Marx a Jane Jacobs, de Ruskin a Xenakis.


O Urbanismo: Utopias e Realidades sai em reedição revista neste ano, continuando como um dos principais títulos do catálogo de Arquitetura e Urbanismo da Perspectiva.

f_choay_1992_photo_mc_bordaz.jpg


FRANÇOISE CHOAY é historiadora arquitetônica e urbana nascida na França. Desde 1973, é professora de Urbanismo, Arte, e Arquitetura na Universidade de Paris VIII. Lecionou também em universidades nos Estados Unidos, Bélgica e Itália. Choay recebeu o Grande Prêmio Nacional de Livre d’Architecture em 1981 e 2007. Entre seus trabalhos estão as revistas L’ObservateurL’OEil e Art de France, e títulos como A Regra e o Modelo (Perspectiva, 2010) e A Alegoria do Patrimônio (Estação Liberdade, 2001). 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s