As heresias de Spinoza

Lucas Bento Pugliesi

Juan de Prado (1612?-1670?) sintetiza em sua vida muitas das aporias do século XVII. Médico da Andaluzia de ascendência sefardi, escapa do Santo Ofício, enraizando-se na Comunidade Judaica de Amsterdã. Para vários judeus de origem ibérica, a heterodoxa comunidade dos Países Baixos era uma garantia de sobrevivência, ainda que se renunciasse a vida prévia moldada pela educação de cristão novo.

O percurso de Juan de Prado se justifica quando posto em comparação ao do também médico Orobio (depois Isaac) de Castro que, após gozar os louros, foi capturado e torturado pela Inquisição sob a acusação de práticas judaicizantes, as quais confessou antes de partir definitivamente para Amsterdã.

A liberdade intelectual (e comercial), contudo, foi, simultaneamente, a cura para a perseguição religiosa experimentada em outras terras e o veneno, que separava tais figuras tanto do restante da sociedade de época, quanto da própria comunidade judaica territorializada em seus costumes ancestrais.

O caso de Uriel da Costa, que voltou a publicidade nos últimos anos (e agora recebe reedição comentada por Adma Muhana), retrata as tortuosas vias desse período da história. Uriel em seu Exame das Tradições Fariseias lança mão da exegese da Torá para negar a imortalidade da alma, o que resultaria em um herem (sanção comum, espécie de ostracismo definitivo ou temporário, imputado aos transgressores das leis escritas ou orais, por tempo variável) e, mais tragicamente, em perseguições morais que culminaram em seu suicídio.

Entre a baliza dessas figuras é que Bento de Spinoza produziria e publicaria suas obras. Como reflete Yirmiyahu Yovel, o caráter público das teses de Spinoza subsumiria a dicotomia de abertura/fechamento dessa singular posição. De um lado, afirma provocativamente no Tratado Teológico Político a existência meramente ficcional de Adão e Eva, de outro, mantém uma linguagem transparente e preocupada em fazer-se comunicar com o público, de modo a evitar leituras levianas (ou mal-intencionadas). É justamente essa a força-motriz de seus escritos sobre a Gramática Hebraica em sua precisão conceitual. Consciência da separação, mas tentativa racional de comunhão. Fazer-se compreender no isolamento.

Se suas concepções ontológicas apresentadas na Ética (às quais retornarei a seguir) em 423px-Spinoza_Ethicamuito distam do horizonte teológico das bases judaica e cristã, a postura de legislar um saber contra um conjunto de outros, ou melhor, de fundar um sistema simbólico que organize a experiência, procurando as descrições adequadas contra as afirmações inadequadas, em muito espelha a instituição dos saberes conforme apregoada durante todo o XVII e sua reiterada tensão entre o isolamento do saber e sua partilha.

De um lado, me refiro ao cogito cartesiano, à empreitada magnânima do filósofo francês que buscaria montar um sistema que o permitisse assumir, matematicamente, discursos verdadeiros sobre o mundo. O cogito, como compreendeu modernamente Derrida, não trata da separação entre os iluminados e os não iluminados (aqueles expropriados das faculdades cognitivas, os loucos), mas de definir que é a própria faculdade do pensamento, a potência em criar matrizes imaginárias, que permite construir o saber. O saber como uma prótese sobre o verdadeiro. Algo como a permissão de se afirmar a verdade, quando justamente não se pode mais dela participar.

De outro lado, a própria postura da Igreja persecutória parece, de algum modo, subsumir em si essa separação entre afirmações inadequadas e adequadas. Contra o obscurantismo duradouro, a busca pela completa transparência. O sonho franciscano, como narra o historiador Michel de Certeau, de se produzir um corpo exterior que se adeque completamente a seu conteúdo interior. A resposta contra a popularizada confissão particular e as possíveis multiplicações da fé (e das verdades) seria propor uma nova verdade absolutamente compreensível, como, por exemplo, a adequação dos discursos aos públicos diversos (como o catequista Vieira, pregando em tupi, aprendendo as línguas “escuras” do Rio Negro). Assim, é entre os séculos XVI e XVII (como nos ensina Certeau) que a “mística”, a meditação individual que experimenta o indescritível, passa a ser demarcada, quase como ciência, pela Igreja. Séculos após a perseguição ao místico Eckhart, propôs-se no seio da Igreja um lugar para os saberes do inefável conforme experimentados pelos agora canonizados São João da Cruz e Santa Tereza D´Ávila. Há modos adequados de experimentar Deus, outros inadequados. A heresia não se dá mais em razão da experiência mística em si, mas da experiência mística sem critérios de validação. Mais uma vez, uma ciência do inconcebível.

(Breve) Tratado e Outros Escritos
Obra Completa I: Breve Tratado e Outros Escritos

Estudos como o de Certeau ajudam a emoldurar o pensamento de Spinoza nas macrotendências de seu século, algo que não desprestigia sua agudeza e complexidade. Tudo passa pela ciência, pela elucubração de sistemas que se querem válidos contra um conjunto de outros, pela prótese de um real que escapou. Talvez, as duas primeiras partes da Ética produzam a sistematização que ressaltou tais dificuldades.

A tese de Spinoza postula a categoria “substância”, aquilo que é autossuficientemente concebido. A substância possui atributos, aquilo que o intelecto compreende dela, de modo a elucubrar como sendo uma “essência”. A partir daí, proporá que duas substâncias com atributos diversos nada têm em comum, assim não podem, tautologicamente, possuir atributos semelhantes ou não seriam particulares. O próximo passo de sua demonstração versará sobre a finitude das substâncias. Somente uma coisa de mesma natureza pode limitar outra: um pensamento pode limitar outro pensamento, assim somente uma substância pode limitar outra. Mas, como demonstrado, as substâncias são constituídas de atributos diversos ou não se diferenciam. Assim, para que existissem duas substâncias seria preciso conceber dois infinitos, o que é absurdo. Necessariamente, tudo o que existe pertence a uma única substância com infinitos atributos, que é Deus não mais como ente separado, arquiteto do universo.

A discussão metafísica é trazida para um plano de imanência num jogo altamente sofisticado que mata os possíveis mundos imaginários. Deus é a causa de tudo e não poderia não ser. É uma contorção de pensamento, um radical panteísmo sem Deus. Tudo muito bem demonstrado por uma linguagem matemática (à maneira dos geômetras), usando do vocabulário religioso e filosófico de seu tempo. Seu herem pautou-se pela concepção de Deus não como entidade inteligente, mas como mera necessidade filosófica. Ao contrário de tantas excomunhões pretéritas, os motivos apontados não passavam por um grave problema de compreensão.

Nesse sentido, tudo que existe participa da substância de Deus, ou, mais precisamente, tudo tem como causa primária Deus. Incluindo os pensamentos e, mais inclusivamente ainda, os pensamentos equivocados. Spinoza atribui o equívoco à falta de clareza: determinada informação não é adequada, pois confunde as naturezas do objeto descrito, perde de vista sua relação com a substância. A solução do filósofo é desenvolver os saberes a partir de rígida demonstração que permita chegar a conhecimento adequado das coisas, um conhecimento adequado de Deus. Entender as diferentes partes, suas relações, o circuito de causalidade.

Spinoza_Ethica_Pars1_Prop1

Contra um télos do Deus como arquiteto, o universo é potência consumada sem objetivo ulterior além da própria preservação. Ético, como desenvolverá nas partes seguintes, é, portanto, vir a conhecer as causas que reduzem a nossa potência, favorecendo aquelas que a elevam. Ético é adquirir o saber, desfazer-se das ideias confusas, afastar-se dos mistérios sob os quais vivemos.

Discute-se se a Comunidade de Amsterdã não prefigurou o judaísmo laico vindouro. O paradoxo tem a cara do XVII: textos publicados sob o signo da origem religiosa exclusivista, autocontida, mas que simultaneamente se abrem para além dos mistérios iniciáticos da Torá através da divulgação no latim, língua ecumênica do saber. Fazer-se entender ao máximo, afirmar a liberdade a partir de certo controle de leitura.

A Ética spinozista é nossa contemporânea. Foi lida por Herder, Hegel, Nietzsche e Deleuze. Incontornável entre os modernos. Ainda cristalina e enigmática. Era Spinoza, o monista, ele mesmo, um místico incentivado pelos ritos da Kabalah com que compartilha de princípios? Esse entrelugar, entre a clausura da exceção e a abertura pública; entre transparências e opacidades, contudo, é um entrelugar particular de seu tempo que apenas adensa a grandeza dos escritos legados.

 

2 comentários sobre “As heresias de Spinoza

  1. Sou leitor de Espinosa, no momento estou lendo A Ética. Posso dizer sem medo de errar, que é um dos pensadores mais difíceis que já li. Mesmo assim, Vale a pena lê -lo.
    A editora Perspectiva, poderia dar mais espaço à filosofia em seu catálogo.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi, Luiz Carlos! Realmente, Spinoza é um filósofo atemporal e de extrema importância! Nosso catálogo se dedica, em boa parte, à filosofia e nas coleções Textos Elos, Estudos e Debates, você encontra nomes como Platão, Descartes, Diderot, Kant, Arendt, Foucault, Levinas e tantos outros. Você pode consultar nossos títulos no seguinte link: http://bit.ly/Filosofia_Catalogo ! Esperamos que goste 😉

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