Clássicos que Você Não Vai Deixar pra Lá em 2018

Lembra da sua listinha de leituras atrasadas? Aquela pilha de livros na estante que sempre acaba prejudicada por outras tarefas, mas nunca para de crescer?

Os clássicos costumam ser os livros mais prejudicados pela procrastinação. Eles ficam presos no 2º lugar e são rebaixados conforme outras obrigações aparecem. Seja por trabalhos escolares, promoções ou urgências do cotidiano, a listinha de clássicos tende a não diminuir. Mas, com o fim do ano e as novas promessas chegando, juramos que 2018 vai ser o ano de desencalhar a sua listinha.

Mas por que lê-los? Só outro clássico poderia ter a resposta. Segundo Ítalo Calvino, um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer. São obras que se reinventam e sobre as quais ouvimos falar o tempo todo, mas que nos surpreendem quando as lemos de fato. Os clássicos continuam fazendo barulho, provocando e dando pano pra manga, mesmo depois de velhinhos.

Então, vamos a eles! Aí vão 10 clássicos que você não vai deixar pra lá em 2018:


1.História da Loucura (Michel Foucault. Trad. José Teixeira Coelho Netto)
Historia da Loucura (E61)

A primeira grande obra de Michel Foucault, sem dúvida uma das maiores potências da filosofia mundial, traz um panorama sobre o conceito de loucura na história ocidental. História da Loucura é seminal para os estudos psiquiátricos e absolutamente atual ao ir de encontro às práticas manicomiais. Em 2016, a obra de Foucault passou a fazer parte da prestigiosa Gallimard La Pléiade, uma espécie de templo da literatura. Sem fazer oposições entre razão e loucura, História da Loucura expõe a evolução do sistema de vigilância e instaura a dúvida sobre as já consolidadas noções do que consideramos normal. De maneira extremamente crítica, Foucault faz um levantamento histórico e quase arqueológico do termo loucura, e com ele demonstra como esses limites não foram estipulados pela Medicina e sim pela sociedade.  Levando em conta conceitos religiosos, morais, familiares, financeiros, a narrativa do filósofo francês se inicia na Idade Média, partindo do surto de lepra da época. Foucault retrata a mudança do conceito de loucura de acordo com cada século, desde o início, quando se acreditava ser a loucura uma penalidade de Deus a homens que não controlavam seus desejos, ao século XIX, quando “loucura” passou a ser vista como doença mental, física, e só então caiu no completo cuidado da Medicina.

2. Édipo Rei (Sófocles. Trad. Trajano Vieira)

Edipo Rei de S_focles (S31)Quando se fala em tragédia grega, Édipo Rei é a primeira em que pensamos, quase a definição de clássico por si só. Encenada pela primeira vez em 430 d.C. e trabalhada com maestria pelas mãos hábeis de Sófocles, Édipo Rei conta a história de um rei completamente à mercê de forças que não vê e não pode controlar: o Destino e a Fatalidade. Acompanhado pelo clássico Coro expressivo do teatro grego antigo que assiste e expõe as aflições do povo da cidade, Édipo acaba por concretizar a profecia feita a seu pai sem mesmo saber de seu parentesco.  Édipo Rei, por seu contexto e pela instigante narrativa de Sófocles, fez-se importante não só para o mundo do teatro – ainda sendo uma das mais encenadas peças de teatro ao redor do mundo –, mas seu enredo também se tornou parte do universo da psicologia e psiquiatria, tendo sido o local de origem do Complexo de Édipo, concretizado por Freud e trabalhado até hoje.

O tradutor dessa edição que compõe a coleção Signos, da editora Perspectiva, é hoje o maior nome em tradução grega no Brasil. Entre seus trabalhos estão As Bacantes, de Eurípides, Antígone, de Sófocles Agamêmnon, de Ésquilo, além da recém-lançada coletânea Lírica Grega, Hoje, que compila vozes de Arquíloco, Alceu, Safo, Anacreonte e tantos outros.

 

3.  Cibernética ou Controle e Comunicação no Animal e na Máquina (Norbert Wiener. Trad. Gita Guinsburg)

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Obras seminais têm duas características: são revolucionárias, prenunciando um novo tempo; e são surpreendentes na argumentação, abrindo novas perspectivas de conhecimento. Engana-se aquele que associa apenas à robótica o campo de ação da cibernética. Desde o nascedouro, essa disciplina reúne conceitos fundamentais das mais diversas áreas da ciência e da filosofia. De fato, Cibernética ou Controle e Comunicação no Animal e na Máquina é, desde a publicação de sua primeira edição, em 1948, obra referencial do conhecimento. Parte do princípio de que todo fenômeno ou processo é passível de ser estudado à luz da informação ou da sua transmissão. Clássico e obrigatório, o livro vai fascinar todas as pessoas que têm interesse pela ciência em todos os seus campos de pesquisa.

 

4. O Genocídio do Negro Brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado (Abdias Nascimento)

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Uma das maiores referências na defesa dos direitos dos negros no Brasil, mesmo após sua morte, Abdias Nascimento foi um dos mais importantes ativistas da causa negra. Poeta, ator, escritor, dramaturgo e crítico brasileiro, fundou o Teatro Experimental do Negro (TEN) – ainda em atividade –, que patrocinou a Convenção Nacional do Negro. Exilado na década de 1960 pelos militares, participou da criação do PDT e, em 1981, liderou a fundação da Secretaria do Movimento Negro do PDT. Em O Genocídio do Negro Brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado,  sobrepõe testemunhos pessoais, reflexões, comentários e críticas, opondo o discurso oficial sobre a condição social e cultural do negro brasileiro à realidade. Abdias opera, assim, a desconstrução do que se convencionou chamar de “democracia racial”, cenário utópico e irreal no qual “pretos e brancos convivem harmoniosamente, desfrutando iguais oportunidades de existência, sem nenhuma interferência, nesse jogo de paridade social, das respectivas origens raciais ou étnicas.”

5. Almas Mortas  (Nikolai Gógol. Trad. Tatiana Belinky)

“Este é o outro lado da poesia, a poesia ‘real’, a poesia da vida, a poesia da realidade e, Almas Mortasfinalmente, a poesia genuína de nossa época.” É assim que Vassirion G. Biélnik se refere a este divisor de águas na literatura russa. Caracterizado por Vladímir Nabokov como “o mais estranho poeta em prosa que a Rússia jamais produziu” , Nikolai Gógol é conhecido por seu talento excepcional para o insólito e para a caricatura. Almas Mortas é um marco na literatura mundial, não só pela habilidade narrativa ímpar de seu autor, mas pela atualidade dos temas tocados: a corrupção nos órgãos públicos e a forma como o poder transforma os seres humanos e traz à tona suas mais medíocres facetas, despertando a ganância e aquilo que há de pior nos homens. Na figura do falido burocrata Pável Tchítchicov, um homem desesperado por dinheiro e status que recorre à compra de “almas mortas”, Gógol encontra o mote perfeito para expor tamanho decaimento da ganância e das contradições ético-morais em que cai Tchítchicov para tentar atingir seus objetivos. A visão mordaz com que Gógol critica a Rússia de 1800, e sem nem saber, a nossa própria atualidade, influenciou a literatura de grandes nomes russos, como Dostoiévski e Turguêniev.

6. Cidades Para Pessoas (Jan Gehl. Trad. Anita di Marco)

Cidades para Pessoas [LSC]Esta obra de referência de Jan Gehl tornou-se um raro best-seller sobre urbanismo. Criticando o maior foco do planejamento urbano por décadas,  deixar o carro feliz, Cidades Para Pessoas foca naquilo que as cidades têm de mais importante: seus habitantes. A dimensão humana, as oportunidades de encontro nos espaços de vivência cotidiana e a estruturação desses territórios são os principais materiais de trabalho do arquiteto em Cidades Para Pessoas. A obra parte da premissa de que cidades podem ser mais bem planejadas para aqueles que as criam e que nelas vivem. Gehl aborda, de forma aprofundada, objetiva e ricamente ilustrada, questões fundamentais para a qualidade de vida na cidade e que se refletem nas escalas dos espaços coletivos, nas soluções de mobilidade e transporte público, nas dinâmicas que favorecem a vitalidade dos habitantes, a sustentabilidade e a segurança das áreas urbanas. Insistindo na valorização dos espaços públicos, nas possibilidades de expressão individual e coletiva e da beleza que reside na interação entre as pessoas que vivem nas cidades, Gehl traça seu planejamento urbano com base no princípio da melhora da qualidade de vida através do planejamento das cidades em favor de pedestres e ciclistas.

7. Mallarmé e Maiakóvski – Poemas

Em antologias de poetas tão emblemáticos e necessários como Maiakóvski Mallarmé, os tradutores Augusto e Haroldo de Campos, Boris Schnaiderman e Décio Pignatari  apresentam versões de obras primordiais a qualquer interessado por literatura clássica ou contemporânea. O universo da poesia moderna encontra aqui traduções criativas e magistralmente elaboradas, nas quais a palavra e o som, na especificidade de seus jogos verbais, métricos e musicais, cobrem um arco temporal que vai do simbolismo até as tendências modernas e contemporâneas. Ambas as edições acompanham instigantes ensaios de seus tradutores.

 

 

 

8. Entre o Passado e o Futuro (Hannah Arendt. Trad. Mauro W. Barbosa)

Entre o Passado e o Futuro, obra de uma das mais influentes filósofas políticas na

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Alemanha do século XX, compila praticamente todos os temas discutidos por Hannah Arendt em um compêndio de seu pensamento, sendo assim um crucial ponto de partida para entender sua obra. Arendt percorre as crises pelas quais a sociedade moderna passou no século XX (e ainda passa), causadas pela perda de significado de palavras cruciais, como responsabilidade, razão, justiça e virtude, e pelo esfacelamento da tradição. Arendt expressa suas aflições com as consequências de um mundo sofrendo sob regimes totalitaristas e as quebras e reviravoltas no comportamento das pessoas que esses regimes promovem. Depois de pontuar as razões e causas da situação decadente pela qual o mundo passava no momento, a autora, defensora do pluralismo político e uma das maiores vozes mundiais a voltar-se contra o regime nazista e suas sequelas, mostra como a sociedade pode voltar a pensar a essência desses conceitos tradicionais para avaliar a situação presente, estabelecendo novos padrões futuros de referência.

9. Despoesia/Não/Outro (Augusto de Campos)

Augusto de Campos é o único poeta brasileiro a receber as distinções do Janus Pannonius e o Prêmio Iberoamericano de Poesia Pablo Neruda, além de dois prêmios Jabuti (1979 e 1993) e a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Cultural (2016). Foi ele, junto com seu irmão Haroldo e Décio Pignatari, o fundador de uma revolução no modelo poético brasileiro: a poesia concreta. Sua obras Despoesia, Não Outro são frutos de uma pesquisa poética regida pela invenção e se utilizam de recursos tecnológicos que permitem explorar a relação entre forma e conteúdo. Pelo jogo entre palavra, imagem, som, movimento, tempo e espaço, a articulação verbivocovisual da poesia de Augusto de Campos instigam o leitor a participar da construção de significado.  

 

 

 

 

10. Linguagem e Vida (Antonin Artaud. Trad. J. Guinsburg, Silvia Fernandes, Regina Correa Rocha e Maria Lúcia Pereira)

Linguagem e Vida (Pers)Compilação de alguns dos textos sobre teatro do renomado dramaturgo francês Antonin Artaud, além de todos os seus textos surrealistas, mais raramente encontrados. Dentre esses textos estão cartas, roteiros, depoimentos, notas indicando variação entre edições, manifestos e esboços de projetos, visando explicitar a formação do pensamento de um autor constantemente insatisfeito com a expressão de suas ideias e que se propunha a não fazer diferença entre a vida e a arte. O livro que reúne diversos escritos de Artaud é mais do que uma cronologia da história da arte e de sua produção teatral; é uma representação de seu pensamento, uma expressão de sua técnica e de como trabalha a linguagem, mantendo-se coerente a seus ideais. Em Linguagem e Vida, o teatro e o cinema se mostram reinventados, todas as formas de arte se tornam parte do sonho utópico do autor, sem deixar sua visão quase cruel e anarquista de lado, e o texto convida o leitor a dar uma olhada mais de perto no processo de criação do dramaturgo. As obras do criador do Teatro da Crueldade, desde seus escritos sobre a arte do teatro a suas composições dramatúrgicas, influenciaram uma geração inteira no século XX, como, por exemplo, os diretores Peter Brooks e Eugenio Barba.

Qual outro clássico tem feito parte das suas listas nos últimos anos, mas que não passará de 2018? 

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