Huxley Crítico Musical

por João Marcos Coelho *

O mundo conhece o escritor britânico Aldous Huxley (1894-1963) como o autor da maior distopia do século xx, Admirável Mundo Novo (1932), e ao mesmo tempo ícone da geração beatnik com seus livros As Portas da Percepção (1954) e Céu e Inferno (1956) sobre os efeitos da mescalina. Fala-se muito de sua amizade com o compositor Igor Stravínski e também da estrutura polifônica de um de seus mais refinados romances, Contraponto (1928), todavia pouca atenção se dá às centenas de trechos em seus escritos nos quais a música ocupa bem mais do que espaço circunstancial. Agora, em tributo à passagem dos cinquenta anos de sua morte, uma editora inglesa, a Cambridge Scholars, recoloca em circulação as 64 finas críticas musicais, que ele publicou semanalmente, entre fevereiro de 1922 e junho de 1923, na Weekly Westminster Gazette, inacessíveis desde os anos 1930.

É uma autêntica revelação, porque antecipa o conceito de música que utilizará posteriormente em sua ficção. Com inteligência, conhecimento técnico e uma escrita elegante e ferina, equipara-se aos mais qualificados e contundentes críticos musicais jornalísticos, linhagem rarefeita iniciada por Berlioz, continuada por Bernard Shaw e levada ao clímax por Mencken e exibe uma vantagem extra: é cristalino, não se enrosca em tecnicidades.

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A música acompanhou-o da meninice à morte. Era seu alimento diário, desde que surgiram nele, ainda bem cedo, os sinais de deficiência visual – aprendeu a ler música pelo método Braille em 1911. Desde a primeira vez que tocou a sonata de Beethoven opus 26, tomou o compositor como modelo supremo, baliza e régua estética de seus juízos musicais.

Seu critério básico é ver a árvore sem jamais perder de vista a floresta. É preciso ultrapassar o estágio das pessoas “que amam a música, não com sua sabedoria, mas, intoxicadas por suas sensações, incapazes de discernir a unidade artística da qual os sons constituem os elementos”. A paixão verdadeira pela música, mais rica, engaja a pessoa humana inteira: sem dúvida o corpo, com o impacto físico dos sons sobre o sentido auditivo e o aparelho visceral; mas também os poderes emocionais e intelectuais, resume o pesquisador Jean-Louis Cupers num livro raro e seminal sobre o escritor e a música, Aldous Huxley et la musique (Aldous Huxley e a Música). “Pode-se amar a música voluptuosamente, como um glutão”, escreve Huxley. “Eu conheci pessoas cujo apetite pelos sons agradáveis era bulímico. Mas também se pode amar a música com o coração, a alma e o espírito, tal como um ser humano completa e harmoniosamente desenvolvido.”

Portanto, o desafio do crítico é saber como comunicar as múltiplas componentes de uma dupla experiência, a da obra em si e a da sua interpretação na situação de concerto – tudo isso no pequeno espaço de uma crítica jornalística. Em suas 64 críticas semanais, Huxley esbanja maestria. Jamais fala só da performance; busca pretextos para colocar questões mais amplas. Na primeira crítica, em 18 de fevereiro de 1922, parte da execução de uma sinfonia de Brahms para discutir a atitude do compositor diante da arte e da vida. Reconhece que é um compositor menor em relação a Beethoven talvez porque tenha ocupado uma posição incômoda na história da música: “A posição que ocupou foi a mesma de um pintor italiano no século xvii, com toda a Renascença atrás dele.”

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Jamais foge de conceitos polêmicos. Por exemplo, o de que a música popular traz em si própria os germes de sua destruição; ou de como o ritmo obsessivo pode destruir o equilíbrio vital das diversas componentes estéticas. Rechaça o barbarismo do primeiro Stravínski, de quem tornou-se amigo do peito quando o russo já havia se neoclassicamente domesticado (considerou, já nos anos 1960, The Rake’s Progress, pastiche lírico mozartiano, como obra-prima absoluta). Duvida, em 1922, do barbarismo exposto da Sagração: “Petruchka e o Pássaro de Fogo podem com certeza ser ouvidos com prazer mais frequentemente do que outras obras de compositores russos. Entretanto é cedo assegurar a possível permanência da Sagração. Mas podemos duvidar
que alguma obra de Stravínski resista à constante repetição aumentando nossa admiração por ela – qualidade que só algumas sonatas e sinfonias de Beethoven possuem.”

Chama a “revolução da música russa”, que invadiu a Europa nas primeiras décadas do século xx, de “apocalipse muito pobre”. Não é mais do que “a revelação dos encantos do barbarismo” e arremata: “Os selvagens ritmos bárbaros que ouvidos pela primeira vez nos intoxicam, quando reouvidos tornam-se tão irritantes quanto os ritmos do fox-trot do ano passado. […] Seres civilizados podem gostar do barbarismo num fim de semana, mas não conseguem conviver com ele diariamente. Os homens civilizados precisam ter arte civilizada.”

Conservador ao julgar a música do seu tempo, distribui saraivadas de metralhadora sobre a música contemporânea: “Bartók precisa ser protegido de seus amigos e de seus inimigos. Não é um grande compositor incompreendido, nem totalmente descartável, como alguns acreditam. É um compositor menor.”

Em outra crítica, afirma que “os jovens franceses da década de 1920 [principalmente Erik Satie e Darius Milhaud]” não podem ser vistos como “algo mais do que uma piada de mau gosto”. Mais uma rajada em Stravínski: “Ragtime é uma espécie de transcendentalismo invertido. Beethoven era transcendental no sentido de heroísmo, da alma, do infinito. Ragtime é transcendental na direção da desumanidade. Um desses dias alguém vai escrever uma obra de transcendentalismo invertido tão prodigiosa e convincente a seu modo como é a Nona Sinfonia de Beethoven; então não haverá nada a
fazer a não ser ir para casa e silenciosamente suicidar-se.”

Desafia o leitor: “Se fosse obrigado a ouvir todos os dias de sua vida uma única obra, ficaria com O Pássaro de Fogo ou a Grande Fuga? Obviamente, você deve escolher a fuga, senão por sua complexidade, também porque nela há com que ocupar a mente além dos ritmos russos, simples demais.”

Aldous Huxley smoking, circa 1946

Bate à vontade nos românticos. Numa entrevista à Paris Review, em 1960, perguntam-lhe: “Alguns psicólogos afirmam que o impulso criativo é uma espécie de neurose. Será que você concorda?” “Enfaticamente não. Não acredito nem por um momento que a criatividade seja um sintoma neurótico. Pelo contrário, o neurótico que se dá bem como artista teve que superar um enorme obstáculo. Ele cria apesar de sua neurose, e não por causa dela.”

Por isso, recorre ao humor para criticar o Prometeu de Scriabin: “É emoção pessoal crua e tremenda. É o registro das sensações de um nervo exposto. Scriabin expressa o requintado tormento e as delícias de uma sensibilidade que sofre de hiperestesia com uma fidelidade espantosa. Mas o registro disso não é uma obra de arte. A arte não pode ser feita de sensibilidade crua e confissões pessoais. Não se deve tentar, como Scriabin, fazer arte a partir de um nervo exposto. É melhor ir ao dentista.”

O diagnóstico mais direto sobre a música em 1922, Huxley o faz como manifesto em sua primeira crítica: “Os músicos importantes do nosso tempo podem ser listados nos dedos de uma mão […] Como na pintura, na música também houve uma mudança, uma simplificação. Alguns, com afetada rusticidade, voltaram-se para a canção folclórica em busca de nova inspiração; outros, como Debussy, exploraram emoções mais rarefeitas e técnicas novas, sofisticadas. Alguns, mais recentes – os Dadaístas da música –, tentaram reduzir tudo ao absurdo. Nossa condição, no momento, é de considerável confusão. Precisamos mesmo é de um Messias musical, alguém que use as novas liberdades recém-nascidas e os novos meios técnicos para construir uma nova forma para a expressão de grandes emoções e ideias.”

Crítica musical de qualidade, como as de Huxley, possuem valor e interesse permanente. Por isso, são atuais. Na conclusão de seu importante livro, Cupers remete a uma frase de Dan H. Laurence, o organizador das mais de três mil páginas de críticas musicais de Bernard Shaw, que por sua vez lembra uma frase de Leonard Bernstein. Segundo o maestro, a única maneira de se dizer verdadeiramente o que quer que seja sobre a música é escrevê-la. “Evidentemente”, diz Cupers, “Laurence concluía que Bernstein não deveria ter lido Bernard Shaw. Eu não creio que ele também tenha lido Aldous Huxley.”
Já este humilde crítico nativo acrescenta Mencken a esse par de craques da crítica musical do século xx.


O trabalho de João Marcos Coelho como crítico, músico e jornalista surpreende pela qualidade literária, mas mais ainda pelo abrangente conhecimento e intimidade com o cenário musical contemporâneo. Pensando as Músicas no Século XXI é um grande painel sobre o assunto e compreende textos de rara lucidez, humor e SM17 PR-2.3 (CAPA) PensMuSec21_1ed2017.inddsensibilidade, publicados ao longo da carreira do autor, unindo temas, personagens e contexto social e histórico.
*Texto originalmente publicado em O Estado de S. Paulo, Caderno 2, 4 maio 2013.*

 

 

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