Graal: Drama do Escritor Vanguardista

Pacelli Dias Alves de Sousa

Se mencionar o encontro de um datiloscrito pouco comentado de um escritor reconhecido, por si, já evoca todo um universo borgeano de construção narrativa: a figura nebulosa do escritor perdido em meio a uma pilha de livros, textos que parecem surgir entre conexões e choques com outros textos, tradições entre infindáveis e inventadas; que se trate de uma peça de teatro intitulada Graal,  Legenda de um CáliceGraal legenda de um calice_S58  e que tenha sido assinada por Haroldo de Campos, autor mais associado à produção da poesia e de ensaios, torna todo o cenário ainda mais improvável, no mínimo.

Não que o conhecido paulistano concretista não tenha de modo algum suas relações com o mundo do teatro, haja vista seu “Auto do Possesso” anterior, seu profundo interesse pela obra teatral de Oswald de Andrade e pelo teatro nô, ou ainda as adaptações dirigidas pelo amigo Gerald Thomas. O ponto é que Graal parece ocupar nesse meio um espaço que esperava ser preenchido: trata-se do único texto de teatro escrito por Haroldo, um texto inédito e enfim editado (oportunamente, diga-se de passagem).

Escrita em 1952, a peça pode ser lida como programática do concretismo, pelo seu conteúdo, pelas questões que movimenta e por ter sido escrita no bojo do movimento neovanguardista por um jovem poeta de Perdizes, então com seus 23 anos – ali junto com Noigandres, revista que começa a ser publicada no mesmo ano, inicialmente editada pelo trio Haroldo e Augusto de Campos e Décio Pignatari – tendo sido influenciada pelo fervor de grupo da época: a agitação intelectual da busca por uma “poesia de invenção”.

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Edição nº 5, Noigandres

Não à toa, a peça tem suas luzes voltadas para Graal, um arquivista, e a paixão por sua musa Áurea, Aureamusa ou , por vezes, Aureamusaondinaalúvia. Se o drama é demasiado simples, a nervura do texto está na linguagem: Graal é um personagem ensimesmado na linguagem, vive em suas dobras e articulações, reverberando-as. Suas falas são fluxos neobarrocos, linguagem viva e pulsante em sua materialidade.  Todos os outros personagens, inclusive Áurea, estão do outro lado, com falas fluídas e comunicantes. A partir desse jogo, estrutura-se a tensão da peça, carregada até a explosão final. Claro, há muito do conflito moderno homem versus estrutura, aqui transfigurado na (e através da) linguagem. Uma, cheia de capital simbólico “arquivado”, permeada de referências e retorcida. Outra, em um uso corrente, vazante e comunicável.

Na malha textual, há tensões também com Todaluz/Luciphalus, em uso ambíguo do mito do graal, bem como com os coros dos iguais, dos homens sem cabeça (Coro I) e dos homens sem braços (Coro II), que pouco trazem dos coros gregos e aqui são massas conservadoras que atuam como censura, polícia:

“Coro I: O que não suporto é esse maldito colecinador de palavras… Colecionar palavras é o mesmo que colecionar vísceras.

Coro II: O Código de Ética diz: ‘Colecionar palavras, verbi gratia: comê-las, titilá-las, ou expô-las em lugares indecorosos é contra a Ordem Pública.’

Coro I: … É o mesmo que exibir nas ruas as partes vergonhosas!

Coro II (graviloquente): As Famílias! Pudendum!”

(P.24)

Pouco no texto se contém no símbolo e sua característica manutenção de certa opacidade. O movimento geral da peça, da caracterização de seus personagens aos movimentos narrativos, mas principalmente as falas e o jogo de referências levam o leitor a uma leitura alegórica. No arquivista há algo de um fazer identificado como poético e sua caracterização é a de um contínuo resistir à linguagem comunicante encapsulada na figura de Messire, le mot, e sua barganha capitalista do time is money. Outro espectro que enfrenta é a aranha Dame, a memória. Contra ambos, diz Graal, ou a poesia: “Meu processo se chama: a decomposição do átomo-verbo”, a quebra e o remanejo da linguagem em suas estruturas de significado (a busca do verbivocovisual?).

Essa decomposição aparece já no subtítulo: “Bufotragédia Mefistofáustica ou Mefistofarsa Bufotrágica”, em que se destaca o movimento entre objeto e qualidade, ambas tomando suas materialidades.  Bufo, Tragédia e Farsa, assim como a referência à Mefistófeles e Fausto cruzadas, de antemão, trazem como vetor de leitura o complexo vanguardista (ironicamente já tradicional, “tradición de ruptura”) do cruzamento entre expressões consideradas altas as baixas. Nessa peça, contudo, esta hierarquia de gêneros, em cujo regime está pressuposta uma correlação com determinadas hierarquias sociais, sofre deslocamentos: o alto e o baixo tornam-se capital simbólico em uma disputa de linguagens, de um lado da procura pela legitimação da língua literária, e de outro, de sua desvalorização e comércio.    

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Haroldo de Campos

Falar de Graal é falar de uma busca, da procura pelo objeto inalcançável. Que busca acontece, contudo, quando o objeto é também o sujeito que procura? No jogo do texto, há um curto-circuito narrativo: Dom Quixote ensimesmado em sua leitura e expressão, em relação apenas porosa com o entorno. Daí, inclusive, certa comicidade do texto, do constante confronto entre distintas leituras e expressões do mundo. O que se vê também no que se refere ao Amor (tema seríssimo aqui, por sinal), entidade buscada junto ao poema: como o conhecido personagem espanhol supracitado, Graal também tem sua Dulcinéia. Áurea, musa poética evocadora de tradições que, por sua vez, só deseja na verdade ir ao cinema e sair pra dançar.

Nesse sentido, a peça parece funcionar como um processo de escenificação do fazer poético, dramatizam-se os debates dentro da linguagem, os jogos de poder e sequestros linguísticos, levando à atuação no palco imaginário a gênese da composição de um poema de vanguarda, de busca pela ruptura (tão característica dos sonhados tempos modernos, segundo Octavio Paz), não só em relação à tradição, mas também a um uso fático da língua. 

A questão é de fato muito próxima às reflexões propostas pelos concretistas desde os anos 50 até hoje, já que ainda que Augusto de Campos há alguns anos venha sendo reconhecido por sua produção poética, recebendo prêmios internacionais, ainda fala-se pouco de sua importância na mídia (e da poesia em geral), algo constantemente apontado pelo autor, inclusive em poema recente, circulado no Facebook:

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Há pouco, nesses tempos no mínimo duros em que vivemos, em cerimônia na Hungria ao ganhar o prêmio Jannus Pannonius, Augusto de Campos se perguntou “que papel poderá ter a poesia, e em especial, a poesia experimental ou de invenção, que não adota uma linguagem já sedimentada?” Ao que imediatamente respondeu: “combater  o esclerosamento da linguagem e  mostrar exemplos de liberdade na experimentação e no imprevisto”.

Ecoa o dilema de Graal, nosso contemporâneo de 1952.

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