Qual é a Importância de Falarmos de Teatro Hoje?

Por Chayenne Orru Mubarack

“O teatro é uma perversidade milenar

pela qual a humanidade é doida

e é profundamente doida por ela

porque é profundamente doida pela sua mentira

e em nenhuma parte desta humanidade

a mentira é maior e mais fascinante

que no teatro”

“Se formos honestos

o teatro é em si um absurdo

mas se formos honestos

não podemos fazer teatro

nem podemos se formos honestos

escrever uma peça de teatro

nem representar uma peça de teatro

se formos honestos

de modo algum não podemos fazer mais nada

senão nos matar

mas como não nos matamos

porque não queremos nos matar

pelo menos até hoje e até agora

portanto como não nos matamos até hoje e até agora

experimentamos sempre o teatro

escrevemos para o teatro

e representamos teatro”

“O Fazedor de Teatro”, Thomas Bernhard.

São Paulo, 20 de outubro de 2017: Em uma entrevista cedida a Vicente Vilardaga, responsável pelo blog “Inconsciente Coletivo – vozes do nosso tempo” do jornal O Estado de São Paulo, o diretor José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso do Teatro Oficina, demonstra-se preocupado com os rumos da vizinhança. O empresário Silvio Santos quer construir três torres residenciais no entorno, colocando em risco a preservação da integridade do projeto da arquiteta Lina Bo Bardi. “Zé Celso diz que o projeto de Silvio Santos ameaça o Oficina e descaracteriza a região”. No dia 23 de outubro o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat) aprovou a construção dos edifícios.

São Paulo, 18 de outubro de 2017: Uma portaria publicada pela Prefeitura de São Paulo em fevereiro proíbe a realização de eventos e a concentração e dispersão de blocos carnavalescos na Praça Roosevelt. Isto significa que o típico festival Satyrianas, realizado anualmente pela companhia Os Satyros, deixará de ser realizado somente na praça, sendo dispersado também para espaços parceiros em outras regiões. Além disso, o festival não terá mais 78 horas diretas de atrações, sendo interrompido à 1h.

Rio de Janeiro, 16 de março de 2017: A Prefeitura do Rio de Janeiro solta uma portaria notificando os gestores que haveria um corte de 25% dos orçamentos dos teatros municipais e que, caso os novos planos de trabalho que considerassem o corte não fossem aceitos, os contratos de residência seriam cancelados. A medida afeta o Espaço Sérgio Porto, a Sala Municipal Baden Powell e os teatros Café Pequeno, Carlos Gomes, Maria Clara Machado, Ziembinski, Gonzaguinha, Ipanema e Serrador. Um dos gestores declarou que eles foram autorizados a tomar quaisquer medidas necessárias visando à adequação, desde diminuir os níveis de exigências artísticos ou técnicos até reduzir o tempo de funcionamento, opção elegida para adequação às metas.

Jundiaí, 16 de setembro de 2017: Uma decisão proferida pelo juiz Luiz Antonio de Campos Júnior, a partir de ação movida pela advogada Virginia Bossonaro Rampin Paiva, resultou no cancelamento da apresentação da peça “O Evangelho segundo Jesus, rainha do céu”, que ocorreria no sábado, no Sesc Jundiaí. O motivo alegado foi que a “exibição vai de encontro à dignidade cristã, posto apresentar Jesus Cristo como um transgênero, expondo ao ridículo os símbolos como a cruz e a religiosidade que ela representa”. Em 20 de setembro, a peça foi mantida em Porto Alegre, após o juiz José Antônio Coitinho negar o pedido de um advogado pelo cancelamento das apresentações.

A cultura sofre ataques de todos os lados. No âmbito teatral, os golpes se originam de diferentes fontes, sejam elas movimentos conservadores, grandes empresários, corte de verbas ou decisões judiciais. Frente a este cenário: o que fazer para resistir? Como contra-atacar? É possível proteger a segunda arte? Acreditamos que a única possibilidade de fazê-lo é ocupando os espaços, lotando os teatros, mobilizando forças para colocar o tema em pauta. Pois bem, falemos, então, de teatro.

A editora Perspectiva publicou, em 2017, o livro Thomas Bernhard, o Fazedor de Teatro e a Sua Dramaturgia do Discurso e da Provocação, organizado por Samir Signeu. 

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O livro pode ser dividido em duas partes. A primeira consiste na tradução inédita da peça “O Fazedor de Teatro”, do dramaturgo austríaco Thomas Bernhard. A segunda, escrita por Signeu, apresenta análises teóricas sobre a peça e a obra de Bernhard ao versar sobre os conceitos de arte nela contidos, além de desenvolver uma leitura interpretativa de “O Fazedor de Teatro” e reflexões sobre o teatro discursivo, ou o teatro da palavra, e o teatro provocativo do escritor austríaco.

A obra de Bernhard possui algumas peculiaridades que a tornam imprescindível para os que estudam ou admiram o teatro. Os tons irônico e provocativo combinam-se com um texto metalinguístico. Originalmente publicada em alemão sob o título Der Theatermacher em 1984, temos uma trupe de teatro que, em meio a um tour para apresentar a peça A Comédia da Humanidade, escrita pela personagem Bruscon, chega à cidade austríaca Utzbach. Nela, Bruscon precisa que a luz de emergência do local em que a peça será encenada se apague durante os momentos finais do último ato. Durante a trama, o dramaturgo reclama constantemente das condições do local, da cidade e da Áustria. Ao final, conseguem a permissão para o apagamento da luz de emergência, mas a encenação não ocorre por causa de uma grande tempestade que vem no momento da apresentação e destrói o local. A personagem Bruscon “aglutina e carrega consigo todas as funções relativas ao fazer teatral: foi ele quem escreveu e dirigiu a peça”. O texto é predominantemente monológico e Bruscon, além de ser o centro, é quem manipula todas as outras personagens.

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Thomas Bernhard

 

A palavra é essencial em todas as suas dimensões: o monólogo de Bruscon ocupa quase todo o texto e suas falas mostram ao leitor de que se trata A Comédia da Humanidade, e também comandam sua representação. Por fim, a existência da personagem se dá por meio dos diferentes níveis de escritura.

Ácido, o texto também é permeado por críticas depreciativas ou grotescas à Áustria:

“Chegamos num lugar/ e é um lugar estúpido/ encontramos uma pessoa/ e é uma pessoa estúpida/ para o hospedeiro diretamente, sussurrando/ Um Estado completamente estúpido/ povoado/ por pessoas completamente estúpidas/ E pouco importa com quem falamos/ percebe-se/ que é um imbecil/ e pouco importa quem escutamos/ percebe-se/ que é um analfabeto/ são socialistas/ eles dizem/ mas são apenas nacional-socialistas/ são católicos/ eles dizem/ mas são apenas nacional-socialistas/ são pessoas eles dizem/ e são apenas idiotas/ olha em volta/ Österreich/ Áustria/ L’Autriche/ Sinto-me/ como se representássemos/ numa fossa/ no abcesso purulento da Europa”.

As críticas à Áustria condizem muitas vezes, conforme Signeu, com as próprias opiniões de Bernhard sobre o país. Nicolaas Thomas Bernhard nasceu na Holanda em 1931 e se mudou para a Áustria com os avós aos 3 anos. Ao longo de sua vida, vive em diversas regiões como a Alta Baviera, na Alemanha, Londres e Polônia. Nas palavras de Samir Signeu:

“Thomas Bernhard refletiu e evidenciou, em suas produções literárias, os dois grandes momentos pelos quais passaram o Estado e a sociedade austríaca na sua história. O primeiro deu-se em 1918, com o desmoronamento do Império austro-húngaro, ao final da Primeira Guerra Mundial, e o segundo, em 1938, com o Anschluss, que foi a anexação da Áustria à Alemanha pelo regime nazista, que durou até 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial”

Tudo isso é ironizado e muitas vezes colocado em tom agressivo ao longo da peça, conforme mostrado no trecho citado.

Porém, não apenas a Áustria é alvo das críticas. A metalinguagem constrói um metateatro. Várias partes da peça referem-se ao fazer teatral. A esposa de Bruscon não consegue parar de tossir durante todo o texto, aludindo às tosses do público durante as apresentações. O próprio Bruscon reflete sobre o teatro, ao dizer, por exemplo, que as peças são feitas não para agradar, mas para causar irritação. Dessa forma, a peça prossegue combinando autorreferências ao próprio texto, críticas à Áustria e ao fazer teatral, construindo o que Signeu chama de teatro da palavra e teatro provocativo.

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A leitura desse tipo de texto dispara algumas inquietações: qual o papel do teatro hoje? É possível seguir apreciando esta arte na atualidade e, se sim, como fazê-lo? Quais os pré-requisitos para a representação de um texto na contemporaneidade? Existe um ator ideal ou um público ideal? Para nós, apreciadores de teatro, poucas coisas são tão agradáveis como refletir sobre essa arte concomitantemente à sua apreciação. 

 

O texto, além de nos proporcionar o prazer da leitura de uma boa peça, nos instiga a pensar a arte cênica e refletir sobre o estado em que ela se encontra no Brasil atual. Existe algum tema proibido para o teatro?  Se supomos que ele versa sobre tudo, como em uma suposta Comédia da Humanidade, por que nos deparamos com a censura, como em Jundiaí? As representações teriam permissão para incomodar ou apenas agradar os espectadores? Se as pessoas ainda se importam com o teatro, se ele ainda tem público, por que o campo sofre tantos ataques, como a diminuição de verba e o desrespeito ao seu espaço físico? Desde sua realidade austríaca, Bruscon toca em todos esses aspectos e, na atual conjuntura, poucos atos são mais políticos quanto lermos as reflexões apresentadas em “O Fazedor de Teatro”. A consequência torna-se inevitável: geremos nossas nossas próprias conclusões sobre as polêmicas e, a partir daí, resistamos.

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