Lessing e a Invenção da Arte

Lucas Bento Pugliesi

Sob o risco do  leitor morrer de tédio, desculpo-me por antecedência por iniciar o percurso da discussão sobre a edição das obras de Lessing, a partir do ressuscitar de velharias; contudo, sem elas, me parece, o pensamento  do autor perde em termos de contextualização.

Principiamos por Alberti, figura central do Renascimento, que operou no século XV uma inédita organização da tendência em tornar retórica a pintura. A partir de recuos constantes a tratadistas gregos e latinos – que versaram, sobretudo acerca da poesia –, o italiano pensa a construção da imagem pictórica num plano amplo que abarcaria oradores, poetas, historiadores, escultores e pintores propriamente ditos. Em seu Da Pintura, inclusive recupera (talvez não propositadamente) o nicho relevado à imagem por Platão, isto é, compreender a imagem como suplemento. Como forma secundária em relação ao real.

O leitor se lembrará que em dois momentos (n´O Sofista e n´A República), Platão discute em detalhes o estatuto da imagem, ora para condenar aquilo que chama de “fantástico” (a deformação produzida pela representação em relação ao objeto real representado), ora para condenar a própria representação – expulsar os poetas, pois na medida em que a imagem deforma o verdadeiro, poderá contaminar povo, que tomaria por real o fictício (argumento que volta com força em nosso momento).

Dessa forma, Alberti, platonicamente, entende a arte como substituto do real, substituto de uma experiência, forma segunda em relação a uma forma primeira. Dirá o autor: “Contém em si a pintura – tanto quanto se diz da amizade – a força divina de fazer presente os ausentes; mas ainda, de fazer dos mortos, depois de muitos séculos, seres quase vivos […].”

A imagem como simulação de uma vida, se quisermos. Quase-vida que para Alberti é a matéria da pintura, assim como o é da poesia, dos discursos, do teatro. Alberti é horaciano, a poesia é como a pintura.

Por sua vez, Lessing operará um progressivo afastamento de tal concepção da imagem, a partir de seu escrito mais notável, Laocoonte (o sacerdote troiano, único munido de bom senso para perceber que nada de bom sairia do Cavalo grego; e como todas as pessoas de bom senso de suas respectivas épocas, foi punido terrivelmente por seus deuses). Entendendo o sacerdote enquanto imagem, isto é, a representação de Laocoonte conforme imortalizada por Virgílio na Eneida e por Atenodoro, Polidoro e Agesandro de Rodes em sua célebre estátua que hoje aguarda os visitantes no Vaticano, Lessing nos apresenta uma teoria radical que moldou parâmetros da nossa compreensão contemporânea da arte.

Laocoonte
Laocoonte (personagem do ciclo épico sobre a guerra de Troia).

Ora, se a poesia é como a pintura e a imagem não é particular a qualquer das artes, então esperaríamos que em muito se assemelhassem os dois Laocoontes, o de letra e o de mármore.

Contudo, nosso Lessing não irá se focar nas semelhanças, mas nas diferenças. E a partir das diferenças na imagem do mesmo sacerdote conforme capturada por tão célebres artistas, intentará descobrir a essência própria das formas de expressão. Separá-las.

Dirá que o Laocoonte de Virgílio grita enquanto a estatuária contempla a dor com solidez estoica, porque as diferenças de meio assim clamam. Se gritasse o Laocoonte de mármore, sem dúvidas, comoveria da primeira vez que o víssemos. Contudo, se continuássemos a contemplá-lo, sua boca aberta começaria a nos soar um tanto excessiva. O grito prolongado se tornaria desagradável. Já o sacerdote de letra, grita depois de ponderar, filosofar, discutir; o grito é a culminância do sofrimento construído em partes, há uma expectativa progressiva, uma espera.

A diferença dos meios, portanto: a poesia acontece no tempo, a escultura, no espaço. Assim sendo, quanto mais eu me demorar na contemplação do mármore, mais se esgarçará o efeito que a imagem produz sobre mim.

Lessing obras_3D_T034Ao assim separar uma teoria da poesia e da escultura calcada na propriedade dos seus meios, Lessing fulmina, talvez não intencionalmente, todo esse passado arquivístico que enfadonhamente retomei ao leitor.

Contra Platão, a imagem não é mais secundária em relação ao real, mas ela possui uma própria essência. Há uma essência da imagem poética, outra da pictórica e elas não se confundem e nem se reduzem a representação de uma verdade primeira. Existem por si mesmas.

Contra Alberti, a poesia não é mais a pintura. Os regimes são diversos. A poesia deverá tratar da ação, da construção de efeito, da variação no tempo. A pintura das formas, dos corpos estabelecidos conforme cristalizados num espaço.

Nesse sentido, Lessing é profundamente anti-horaciano. É o caso mais uma vez, o leitor que me perdoe, de lembrar Horácio. Para o latino que construiu monumentos mais perenes do que o bronze, a poesia é como a pintura porque ambas se regulam de acordo com um espectador. Ambas se dividem entre aquelas que precisarão ser vistas uma só vez, de larga distância, reconhecíveis mesmo com pouca luz, enquanto outro grupo pede uma revisitação, com grande proximidade e muita luz para que se tornem legíveis. Há, portanto para Horácio dois tipos de imagem que regulam dois tipos de público.

Quando Lessing postula um fim para arte, um fim próprio, separa de vez a arte do mundo. A arte deixa de ter função para enclausurar-se em si mesma. Sinal da passagem dos tempos, do mundo aristocrático de Horácio regido por relações estanques de dependência para o mundo burguês de Lessing regido pelo valor de uso, pelo valor de troca.

E sem dúvidas, nenhum dos Laocoontes possui qualquer valor de uso.

Para Horácio, se há estatutos diversos de imagens, há diferentes públicos. Para Lesssing, um só, o “povo”, essa unidade com pretensões democráticas que o XVIII gostou de discutir.

Essa abertura democrática de Lessing se prova pelo enorme contingente de notas que explicam ao leitor a origem do rebuscado jogo de referências que perpassam seu texto. Um grego nunca se daria a esse trabalho, justamente porque sabia, de partida, o destinatário de seu tratado, não sendo, portanto preciso justificá-lo. Nesse sentido, o glossário elaborado por Jacó e Gita Ginsburg para elucidar ainda mais as autoridades citadas pelo autor, em muito se afinam a seu espírito.

Lessing entende que essa relação de proximidade com o público não é mais possível. Então abre seu texto a diferentes leitores, à própria indeterminação da leitura.

Gotthold_Ephraim_Lessing2
Gotthold Ephraim Lessing

Ao voltar-se ao passado “clássico”, Lessing (como seus contemporâneos Winckelmann e Schiller) inventa o nosso tempo. Somos esse público indistinto que contempla. Ouvimos enunciados como “arte é expressão”, “arte é arte”, “é preciso preservar a expressão artística”. Não se detecta qualquer propósito bem definido ademais da autonomia artística que se inaugurou com a separação de poesia e pintura. O mundo que Lessing descobre é o nosso. Ou a promessa do nosso.

A poesia ainda é como a pintura, mas nenhum dos dois permanece o mesmo.

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