Augusto de Campos vencedor do Jannus Pannonius Grand Prize for Poetry

No último dia 23, Augusto de Campos, vencedor do grande Jannus Pannonius Grand Prize for Poetry,  aceitou e recebeu o prêmio em Pécs, cidade húngara onde a cerimônia de premiação ocorreu.

Criado  e considerado hoje um dos mais relevantes reconhecimentos internacionais a poetas vivos, o prêmio já condecorou nomes como o francês Yves Bonnefoy, o sírio Adonis e o americano Charles Bernstein. 

Augusto é o único poeta brasileiro a receber as distinções do Janus Pannonius e o Prêmio Iberoamericano de poesia Pablo Neruda, além de dois prêmios Jabuti (1979 e 1993)  e a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Cultural (2016). Seu livro ‘Não Poemas’ foi considerado pela Fundação Biblioteca Nacional, o melhor da época.

Em seu discurso, diz o poeta:

Paul Valéry relata que,  em uma de suas últimas visitas a Mallarmé, o seu grande mestre, mostrou-lhe estes provas de um estranho poema, que o deixou aturdido pela sua novidade, dizendo-lhe: “Não lhe parece um ato de loucura?”

Este poema, Un Coup de Dés Jamais n’Abolira le Hasard, ¨Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso”, iria ser o limiar de toda uma revolução literáraria. O último a ser completado pelo poeta, que morreria um ano depois, foi também o derradeiro a ser por ele publicado em vida. Estampado, incompleto, em 1897,  na revista “Cosmopolis”, só chegou  a ser conhecido na versão definitivaem  1914, em meio à eclosão  das vanguardas — futurismo, cubismo, dadaísmo— ao mesmo tempo em que apareciam  os primeiros Calligrammes de Apollinaire. Entre dois séculos,o “Lance de Dados” mallarmeano foi o precursor da poética visual e espacial que viria a ser adotada por muitos poetas do futuro.

Foi dessas raízes que surgiu,  no começo dos anos de 1950, a chamada “poesia concreta”, ao retomar as experiências da vanguarda das primeiras décadas, interrompidas pela catástrofe das duas guerras mundiais e pela perseguição aos escritores modernos desencadeada a partir da última. O que propúnhamos, no caso brasileiro, filtrando dessas inovações um elenco de autores radicais — Pound, Joyce, Cummings, Apollinaire, Gertrude Stein, e os brasileiros Oswald de Andrade e João Cabral de Melo Neto — era a assunção de uma poesia “verbivocovisual”, termo extraido do “Finnegans Wake”, de Joyce. Reabilitávamos o projeto de uma nova poética, prenunciado por Mallarmé, e buscávamos reabrir o caminho para uma internacionalização da linguagem poética, numa nova síntese, articulada pela exploração da iconicidade da poesia, em suas dimensões visual, sonora e semântica.

“Poesia concreta: tensão de palavras-coisas no espaçotempo”, como sugeri então.

Quarenta anos depois, a revolução da Era Digital sancionaria essas pesquisas, trazendo para mais perto dos olhos e dos ouvidos  o universo das imagens e dos sons.

A babel das línguas humanas dificulta o conhecimento dos poetas  de muitos países cuja diversidade linguística os marginaliza.Muitos anos são necessários para que sobreviva a poesia que consiga  ultrapassar as difíceis barreiras do idioma, quando chegue a superar também o implacável e algumas vezes imponderável filtro do tempo. Tanto mais quando a poesia constitui um corpo estranho à própria literatura, e hoje, quase um gueto,diminuída que se vê do noticiário cultural dos meios mais comuns de informação,  onde, no passado, tinha maior abrigo.

A língua portuguesa, apesar da sua presença histórica, e a despeito de estar entre as mais faladas — quantitativamente é a sexta no mundo — é pouco utilizada fora do Brasil e de Portugal e de alguns outros países. Mas a arte surpreende, e a poesia pode surgir,  inesperadamente,como um “atrator estranho”, no caos linguístico das mais diferentes nacionalidades, e catalizar, apesar de tudo, o interesse dos amantes das letras, muitas vezes sob novas formas, associadas a outras faces de arte.

(…)        Vivemos um momento particular da história,  no qual,  a par de um desenvolvimento sem precedentes da ciência e da tecnologia, percebemos que, apesar do seu progresso, não conseguiu  a espécie humana chegar ao ideal de propiciar a todos o essencial de uma existência digna: liberdade, distribuição harmoniosa da riqueza, combate à fome, preservação do ambiente.

Nesse quadro, que papel poderá ter a poesia, e em especial, a poesia experimental ou de invenção, que não adota uma linguagem já sedimentada?

Quer ela se impregne quer não de temas revolucionários, que se mostre menos ou mais complexa, a poesia parece encontrar uma estranha sobrevivência em nosso mundo conturbado. E não será a poesia que recusa — aquela  que questiona e se questiona a si própria —um paradoxal apelo à razão e à consciência, quando se considera o quanto ela exige de desprendimento pessoal e de mobilização contra o preconceito e a  submissão? Num mundo onde as palavras muitas vezes parecem ter-se desgastado em discursos que disseminam  ódios, alimentam discriminações e estimulam o egoísmo social, quem sabe a poesia possa ser um oásis de meditação e sensibilidade. Quem sabe se as especulações poéticas, mesmo se aparentemente inutilitárias, não mereçam maior apreço, no afá de não apenas trazer beleza, mas de combater  o esclerosamento da linguagem e  de  mostrar exemplos de liberdade na experimentação e no imprevisto.

(Augusto de Campos)



 

Veja como foi a premiação:

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