Décio de Almeida Prado: A Consciência Teatral de São Paulo

*Discurso de saudação a Décio de Almeida Prado, lido na sessão em que lhe foi outorgado, em caráter póstumo, o título de Professor Emérito da Universidade de São Paulo. Esse evento foi realizado no dia 29 de novembro de 2001, no Salão Nobre do Prédio da Administração da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Texto retirado do volume  Teatro em Progresso: Crítica Teatral (1955-1964)

Estamos reunidos nesta tarde para reverenciar a memória de um mestre e amigo querido, a quem não foi outorgado em vida o merecido título de Professor Emérito da Universidade de São Paulo. Se o faz agora, a Congregação desta Faculdade repara uma injustiça e inclui o nome de Décio de Almeida Prado entre os seus legítimos pares, ou seja, entre aqueles que nesta Universidade mais se distinguiram em seus campos de trabalho. Dele, o mínimo que se pode dizer é que foi o mais importante crítico teatral do país e o maior estudioso do teatro brasileiro.

O “Prof. Décio”, como era respeitosa e carinhosamente chamado pelos professores mais jovens, alunos e funcionários, foi fundamentalmente “um homem de teatro”, conforme aliás está no título de um livro dedicado a sua vida e obra, publicado em 1987 pela Editora da Universidade de São Paulo, para comemorar os seus oitenta anos. Se nos debruçarmos sobre sua longa carreira intelectual, de cerca de seis décadas, vamos encontrá-lo, muito jovem ainda, no final dos anos 30, envolvido com as primeiras tentativas teatrais de Alfredo Mesquita, lançando-se inclusive como ator amador no papel central da peça Dona Branca. Nessa mesma época, ligou-se também ao grupo amador do grêmio da Faculdade de Filosofia, que era dirigido pelo francês Georges Raeders, atuando em uma peça.

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É preciso lembrar que Décio, nessa altura, fazia parte de um grupo de jovens intelectuais ligados à recém-criada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, onde estudou e se formou em Filosofia e Ciências Sociais. Esse grupo, que ficou conhecido como “geração Clima”, nasceu espontaneamente, no dizer de um dos seus membros, reunindo rapazes e moças que tinham afinidades literárias e políticas, que gostavam de artes e filosofia, e que em determinado momento resolveram criar uma revista para exprimir o seu pensamento. Como a divisão do trabalho obedeceu às inclinações pessoais, ao gosto e ao conhecimento de cada um, a seção fixa de teatro coube a Décio, assim como a de literatura a Antonio Candido, a de cinema a Paulo Emílio Salles Gomes, a de artes plásticas a Lourival Gomes Machado, a de música a Antonio Branco Lefèvre, a de economia e direito a Roberto Pinto Souza e a de ciência a Marcelo Damy de Souza. Outros participantes do grupo, como Ruy Coelho e Gilda de Mello e Souza, colaboraram igualmente na revista Clima, que teve dezesseis números e circulou ente 1941 e 1944.

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Integrantes da revista Clima. No centro, Antonio Candido rodeado por Décio de Almeida Prado, Paulo Emílio Salles Gomes, Gustavo Nonnenberg, Lourival Gomes Machado e José Portinari (da esquerda para a direita)

Hoje tudo isso é História. A importância da revista para aqueles jovens cheios de entusiasmo pelo trabalho intelectual foi extraordinária. Quase todos definiram o seu futuro profissional a partir daquela primeira experiência e se tornaram os mestres de mais de uma geração em seus respectivos campos do saber

É bem provável que nos tempos da revista Clima o trabalho de reflexão e crítica não satisfizesse completamente o jovem Décio, que via o nosso teatro como uma espécie de primo pobre das outras artes, tal o seu estado de indigência e de atraso estético. Empreendedor, talvez motivado pelo surgimento de grupos amadores no Rio de Janeiro e em São Paulo, onde Alfredo Mesquita havia criado o Grupo de Teatro Experimental, ele decidiu abraçar também o trabalho prático. Em 1943, juntamente com Lourival Gomes Machado, criou o Grupo Universitário de Teatro, que dirigiu por cinco anos. Vale salientar que o teatro amador, na época, tornou-se um importante instrumento de luta pela modernização teatral, contrapondo-se às companhias profissionais, que faziam um teatro considerado anacrônico pelas gerações mais jovens.

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Grupo Clima: em pé, da esquerda para a direita: Antonio Branco Lefèvre, Décio de Almeida Prado, Paulo Emílio Sales Gomes e Roberto Pinto de Souza. À frente: Alfredo Mesquita, Antonio Candido e Lourival Gomes Machado.

A dedicação, a seriedade e a competência com que Décio desempenhou a dupla tarefa de escrever sobre teatro e dirigir peças foram percebidas por Júlio de Mesquita Filho, que o convidou, em 1946, para assumir a coluna de crítica teatral do jornal O Estado de S. Paulo. Foram vinte e dois anos de trabalho, até 1968, e uma notável produção de textos críticos que registram o dia-a-dia de um dos períodos mais férteis da vida teatral brasileira. Tudo o que aconteceu de relevante mereceu a atenção do crítico, que reuniu uma substanciosa parte desse material em três livros: Apresentação do Teatro Brasileiro Moderno, Teatro em Progresso e Exercício Findo.

As idéias teatrais de Décio formaram-se a partir do diálogo que manteve com o modernismo. Já como crítico na revista Clima ou como Diretor do Grupo Universitário de Teatro ele lamentava que o teatro brasileiro estivesse tão atrasado não apenas em relação às conquistas e avanços que vira na França e nos Estados Unidos, mas também em relação às outras artes nacionais, como a poesia, o romance, a música, a pintura, a escultura, que se renovaram em seguida à Semana de Arte Moderna de 1922. Era preciso levar ao teatro o mesmo espírito renovador, atualizá-lo em termos estéticos, modificá-lo tanto no terreno da dramaturgia quanto do espetáculo. Tomar essa posição, que contrariava os interesses dos atores já consagrados e de suas companhias teatrais, foi um ato de coragem de Décio, que não transigiu jamais com o mau gosto no palco, com o espetáculo comercial, com a baixa literatura dramática ou com o velho histrionismo.

Na luta contra o “velho teatro” – o teatro baseado no vedetismo, sem diretor, sem respeito ao texto dramático, sem cenários, figurinos e iluminação adequados – Décio foi uma liderança inconteste. E embora tivesse muita consciência de que exprimia um ponto de vista pessoal ao escrever sobre uma determinada peça, sabia também que suas idéias em relação ao teatro moderno eram partilhadas por muitos. Daí ter afirmado, certa vez, que “a crítica não existe autonomamente, no vazio: tomada na sua totalidade, não passa de expressão de um grupo incomparavelmente maior, que inclui encenadores e intérpretes, cenógrafos e autores, todos que formam a consciência teatral da cidade”.

Os três livros de crítica de Décio demonstram cabalmente o papel que ele desempenhou entre 1946 e 1968: o de formador da consciência teatral da cidade de São Paulo. Por meio de textos escritos com clareza, sensibilidade, argumentos sólidos e inteligência, ele modernizou a crítica e estabeleceu um diálogo produtivo com autores dramáticos, encenadores, artistas e leitores comuns – o público em potencial -, oferecendo a todos um ponto de vista, uma idéia, um julgamento, um caminho, enfim, para se avaliar e melhorar o teatro que então se fazia.

A importância dos três livros de crítica de Décio já seria grande se nos dessem a conhecer apenas o pensamento crítico do autor ou um período da história recente do teatro brasileiro. Mas há algo mais em suas páginas: elas nos ensinam que o exercício da crítica pode ser uma atividade superior, se feito com o devido senso ético. Machado de Assis já apontava, no século XIX, as qualidades que o crítico devia ter: ciência e consciência, sinceridade, coerência, independência, imparcialidade, tolerância, moderação e urbanidade na expressão e perseverança. No nosso tempo, foi Décio quem realizou esse “ideal do crítico”, conquistando o respeito e a admiração de toda a classe teatral.

Trabalhador incansável, o nosso homenageado desenvolveu uma série de outras

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Primeiro número do Suplemento Literário. Foto: Estadão

atividades, no mesmo período em que foi crítico teatral. Por mais de dez anos, entre 1956 e 1967, dirigiu o “Suplemento Literário” d’O Estado de S. Paulo, sempre lembrado como modelo de jornalismo cultural, espaço onde começaram muitos intelectuais que hoje são luminares em suas áreas de atuação. Nesses anos Décio foi várias vezes Presidente da Comissão Estadual de Teatro e Presidente da Associação Paulista de Críticos Teatrais e conciliou todas as tarefas que tinha pela frente com o magistério. Foi Professor de Filosofia em alguns colégios de São Paulo e Professor de História do Teatro na Escola de Arte Dramática, de 1948 a 1963.

Foi com toda essa bagagem que Décio ingressou finalmente na Universidade de São Paulo, em 1966, como Professor de História do Teatro Brasileiro, junto à Área de Literatura Brasileira do Curso de Letras da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Pode-se dizer que começa aí uma nova fase de sua vida profissional. As exigências da Universidade eram outras, não exatamente incompatíveis com a militância jornalística, mas de natureza diversa. E o crítico teatral que havia se dedicado com tanto empenho a compreender e explicar o teatro brasileiro de seu tempo, voltou os olhos para o passado, para pesquisar e estudar o que ainda não se conhecia muito bem. Assim, ao escolher o assunto da tese de doutoramento que devia escrever, a trajetória artística de João Caetano, nosso maior ator do século XIX, Décio não ignorava as dificuldades que teria pela frente. Seria preciso mergulhar nas seções de obras raras das nossas bibliotecas, localizar peças de importância secundária, que João Caetano pôs em cena, contrapor as informações

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disparatadas e buscar a versão dos fatos mais próxima da verdade, para compor um todo coerente. O resultado desse trabalho foi uma tese aprovada com distinção e louvor, publicada em livro com o título João Caetano e que é, hoje, um clássico da nossa historiografia teatral. Ao reconstituir a trajetória do famoso ator, de sua atuação como empresário dramático e do repertório de tragédias neoclássicas, melodramas e dramas românticos que o projetou no cenário nacional, o livro elucida todo o processo formativo do teatro brasileiro, no romantismo, alargando substancialmente o conhecimento que se tinha do assunto até então.

As pesquisas sobre o passado teatral brasileiro fizeram nascer ensaios primorosos, como os dedicados à peça Leonor de Mendonça, de Gonçalves Dias, e à peça O Demônio Familiar, de José de Alencar. Ambos foram incluídos no livro Teatro de Anchieta a Alencar. O título já aponta o mergulho no passado mais remoto, nas origens do nosso teatro, apreendidas em estudos que dão conta dos tempos coloniais e das atividades mais constantes, a partir de 1808, com a chegada de D. João VI e da corte portuguesa ao Rio de Janeiro. Para dar seqüência aos temas e autores já abordados, Décio escreveu mais um livro, O Drama Romântico Brasileiro, centrado na dramaturgia do período. Se nos lembrarmos de que também a comédia brasileira do século XIX, em todas as suas formas, foi analisada no longo ensaio “A Comédia Brasileira (1860-1908)”, incluído no livro Seres, Coisas, Lugares: Do Teatro ao Futebol, concluiremos que a reunião de todos os textos escritos sobre o passado teatral brasileiro formam uma verdadeira história, que o próprio autor tratou de sintetizar em seu último livro: História Concisa do Teatro Brasileiro: 1570-1908.

O que desejo salientar é que esse conjunto de obras até aqui mencionadas nasceu das atividades de Décio como professor universitário. Ao contrário dos textos jornalísticos, escritos sob a impressão momentânea do espetáculo, o ensaio acadêmico nasce devagar, fruto de leituras demoradas, muita pesquisa e reflexão. Quase sempre, esse trabalho preliminar é apresentado aos alunos, em sala de aula, em cursos que se estendem por um semestre. No caso de Décio, é preciso ressaltar que a seriedade universitária não se sobrepôs jamais à leveza e elegância de estilo, características que trouxe da prática jornalística. A metodologia de análise textual, os postulados teóricos e a erudição são incorporados com naturalidade em seus ensaios e jamais são motivo para exercícios de contorcionismo no plano da expressão.

A extensa obra crítica de Décio apresenta ainda muitos outros títulos. Deixando de lado os artigos publicados em revistas e obras coletivas, vale destacar o brilhante ensaio dedicado ao ator Procópio Ferreira, publicado separadamente e depois incluído no livro Peças, Pessoas, Personagens, que traz também uma emocionada evocação de Cacilda Becker e, finalmente, o ensaio historiográfico O Teatro Brasileiro Moderno. Nesse livro, aproveitando-se do fato de ter acompanhado toda a evolução do nosso teatro entre 1930 e 1980, o autor realiza uma síntese interpretativa em que as análises e reflexões aparecem filtradas pelas suas experiências concretas de espectador. Quer dizer, o livro não resulta apenas de leituras e pesquisas, mas fundamentalmente de lembranças, vivências, configurando-se portanto como um autêntico testemunho sobre cinqüenta anos da história teatral brasileira.

Vista em conjunto, a obra crítica de Décio impressiona pelo volume e pela qualidade. Hoje ela é, seguramente, o ponto de partida de todos que queiram estudar o teatro brasileiro, tamanha a sua abrangência. Que a maior parte dela tenha nascido das atividades de docência e pesquisa na Universidade de São Paulo é motivo de orgulho e satisfação para os que foram seus colegas e alunos. Confesso que foi um privilégio assistir às suas aulas na graduação e pós-graduação, conviver com ele como orientando e aprendiz e mais tarde como amigo.Decio 04

Se evoquei aqui o grande intelectual que foi Décio de Almeida Prado, até para demonstrar que foi professor emérito antes desta cerimônia, que apenas ratifica o que todos já sabíamos, não posso deixar de me referir também às suas qualidades humanas, que foram muitas. Em nosso convívio de mais ou menos duas décadas, pude apreciar de perto todas as  qualidades de Décio e algumas outras. Por sorte, ele não foi, para mim, apenas o professor e pesquisador, o intelectual mais completo e preparado para me orientar nos estudos teatrais. Se conservei essa imagem dele, ligada aos primeiros tempos de minha vida profissional, a mais forte em minha memória é outra: a do amigo que me conquistou com seu bom-humor e inteligência, com seu jeito sereno e calmo, com sua generosidade e com sua deliciosa prosa.

No início desta saudação, disse que Décio foi fundamentalmente um homem de teatro. Permitam-me, pois, encerrar à maneira da comédia latina, pedindo aplausos não à modesta performance deste que vos fala, mas à grande personalidade que inspirou as suas palavras.

 

João Roberto Faria


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