Anatol, o construtor

Julia Izumino

Qual o papel de um crítico? Seus deveres, responsabilidades, objetivos a cumprir? O que o diferencia de um intelectual? Porque nem todo pensador constrói críticas, isso sabemos, por mais que todo pensamento emita um valor. Criticar e valorar, portanto, são movimentos diferentes. Não excludentes. Às vezes complementares. E o que faz de alguém um bom crítico? Como julgamos aquele que cria categorias de julgamento?

Passaremos horas buscando respostas. São questões que tocam fundo no nosso próprio fazer – fazer leituras, opiniões, análises,esse texto. Podemos concordar em alguns princípios, nossas pedras de toque.

Podemos dizer, por exemplo, que um bom crítico é aquele que, antes de tudo, conhece bem. E de dentro do seu conhecimento avalia o que há de novo. Entre o dentro e o fora, o velho e o novo, é aquele que aponta onde – e se – caberiam as pontes entre a tradição e a renovação. Às vezes é quem constrói tais pontes; às vezes destrói as que foram postas fora do lugar. É importante que um bom crítico seja capaz de se deslocar e habitar ora aqui, ora ali. E, neste entre-mundos, possa comunicar o essencial de um lado para o outro, dos que produzem o novo aos que o recebem, e vice-versa. Um crítico é também, então, ele mesmo, uma ponte e se estende, inevitavelmente, até alguém – a quem critica, certo; mas também a quem se ampara em seus apontamentos e segue seu caminho para adentrar um mundo que ainda não conhece. No seu ofício, portanto, um crítico educa. Traz à luz, explica, molda, corrige e divulga. E, se for bom mesmo, também atrai e apaixona.

Se formos minimamente justos com nossas definições, se descrevemos, mesmo um bom crítico, então podemos dizer que encontramos em Estética e Teatro Alemão a prova de que Anatol Rosenfeld foi um dos ótimos que tivemos na intelligentsia brasileira. O livro, que reúne manuscritos, colunas e resenhas que o autor alemão escreveu para diversos periódicos brasileiros desde o fim dos anos 1940, é um exemplo de organicidade e coerência crítica e criativa.

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Intelectual que não se engabinetou, Anatol construiu sua carreira principalmente entre a plateia e a página do jornal. Em um, assistia, ouvia, lia, absorvia tudo com seu olhar clínico de espectador atento. No outro, vertia em textos claros e categoricamente didáticos aquilo que aprendera, achara, gostara e discordara. Pisando sempre em chão firme de suas convicções e ideais – mas com marcado bom humor e às vezes também carinho – Anatol é cuidadoso em sempre fazer a sua própria postura de crítico inerentemente coerente com aquilo que procura nos trabalhos de seus colegas de profissão, autores e dramaturgos.

Explico. Anatol defende, sistematicamente, que o teatro seja arte autônoma e poderosa, que um espetáculo se funda na ação de indivíduos no espaço de encenação e na escolha artística dos atores, dramaturgos, autores – e, justamente por isso, carrega grande responsabilidade em relação ao público a quem deve sempre querer tocar, envolver e ensinar, num gesto que, além de artístico, é inevitavelmente político. Quando se sentava numa plateia (isso me parece palpável na leitura) buscava justamente os elementos que ressonassem

com sua ideia de bom teatro – este que comunica e tem força transformadora. Do mesmo modo, quando lia uma obra de algum de seus pares, colegas críticos e estudiosos do teatro, atentava para as reflexões e ponderações que iluminassem, destrinchassem e construíssem questões da arte teatral de forma positiva, descomplicando conceitos e propondo renovações e revalorações.

E, quando ele próprio, Anatol, pegava a caneta, cuidava para que a sua própria expressão fosse clara e objetiva, seguindo sua argumentação com exemplos e analogias que tornassem aquelas questões palpáveis e compreensíveis, numa comunicação direta e sempre ciente de quem é o seu leitor. Ao escolher – e preferir! – a página do jornal como sua plataforma principal e trazer para ele problemáticas e conceitos que circulavam em salões literários, congressos e revistas acadêmicas, operava conscientemente a abertura deste mundo da crítica e análise para qualquer um que pudesse se interessar. Quebrando a quarta parede do mundo acadêmico – se me permitem a analogia infame – Anatol mostra que sabe perfeitamente qual a sua responsabilidade em relação ao seu público: envolver, ensinar e comunicar.

Então me vem à mente um fato curioso. Considera-se que o teatro ocidental como conhecemos hoje tem uma de suas origens na Idade Média, quando trupes itinerantes viajavam entre burgos com encenações de parábolas e passagens bíblicas, levando para o povo majoritariamente iliterato a palavra e os ensinamentos divinos. O papel social e político que este teatro medieval cumpria é algo amplamente reconhecido na crítica. O próprio teatro alemão, portanto, tem na sua própria raiz a necessidade de comunicar – trazer para o povo uma mensagem – e, como me parece, não perde este ensejo mesmo que a configuração de povo se modifique radicalmente, o conteúdo da mensagem mude tanto e tantas vezes e a própria estrutura da encenação se transforme e ganhe tantas novas formas.

Podemos então considerar que existe uma linha originária que percorre latente, desde o teatro clássico de Goethe até o Teatro Épico de Brecht e o Teatro do Absurdo de Dürrenmatt: o desejo de representar a humanidade e a apresentar para os espectadores sob nova ótica, seja numa estrutura narrativa harmônica e apolínea, no deslocamento do distanciamento operado pelo olhar épico ou no constante confronto com a sátira e a ironia que provocam estranhamento e risos nervosos; a consciência da necessidade de montar no palco uma representação que, de uma forma ou de outra, traga à luz, aponte e ensine algo de novo para o público.

Anatol Rosenfeld, grande conhecedor e teórico do teatro que era, estava absolutamente ciente desta situação originária do teatro alemão e de como suas raízes se mantiveram ao longo do seu desenvolvimento na História. É parte do seu trabalho escavar as camadas superficiais dos textos dramáticos, das impressões primeiras sobre os espetáculos e apontar para nós como é que este alicerce se estrutura em cada autor. E, ao mesmo tempo em que o faz e atenta para que o fundamento da arte teatral não se perca de vista, também continuamente se contextualiza no presente, se informa quanto às exigências do contemporâneo – e prevê as do futuro! – e aponta aos leitores e aos artistas os caminhos possíveis daqui em diante. Entre a tradição e a renovação constrói a ponte, sem nunca perder de vista nenhum dos lados.

Importante ainda notar que, sendo ele próprio um alemão (que fugiu de Berlim nos anos 1930 por conta do crescente antissemitismo na Alemanha hitlerista) radicado no Brasil, Anatol nunca deixou de estudar e cuidar da produção teatral de sua terra natal – e principalmente, sempre atentou para as formas e relações com que a intelectualidade e o público brasileiros recebiam tais obras. Seus vários manuscritos e colunas publicadas sobre o teatro alemão e o teatro iídiche, dos clássicos às montagens contemporâneas, nos mostram o esforço expresso que fazia para apresentar, contextualizar e envolver a produção germânica com a brasileira. Habitando ora aqui e ora ali, Anatol constrói mais esta ponte para nós leitores. O resultado é que temos hoje documentos importantíssimos para os estudos de recepção do teatro alemão no Brasil – e assim, uma ampla porta de entrada para a compreensão das raízes e influências que moldam a nossa própria produção.


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Anatol Rosenfeld, cuja vida esteve indelevelmente marcada pelas atrocidades do regime nazista, dirigiu sua atenção ao teatro universal, mas logo foi vencido pelos encantos e qualidades da literatura e do teatro alemão.

Organizado em cinco partes compostas ainda da inserção de manuscritos, crônicas e críticas publicados em grandes veículos de imprensa, Estética e Teatro Alemão reúne coleção de críticas e análises de Anatol Rosenfeld, a começar pela revisão de textos que complementam reflexões acerca do fenômeno teatral e do lugar e papel do teatro em relação a outras artes, até a abordagem do teatro do absurdo e questionamentos frente ao diagnóstico feito por Rosenfeld de um “teatro acorrentado”.

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